"Bento XVI, grande teólogo e mestre da fé." O prefácio do Papa Francisco

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24 Junho 2016

Antecipamos, aqui, o texto integral do prefácio, assinado pelo Papa Francisco, no dia 7 de março passado, da antologia de textos do seu antecessor sobre o sacerdócio. Intitulado Insegnare e imparare l’amore di Dio [Ensinar e aprender o amor de Deus] (Siena: Cantagalli, 2016, 304 páginas), o livro reúne 43 homilias.

Fecha a coleção, introduzida pelo cardeal Gerhard Müller, a carta de Bento XVI para a convocação do Ano Sacerdotal (16 de junho de 2009). O livro é publicado às vésperas do 65º aniversário da ordenação sacerdotal de Joseph Ratzinger, que foi realizada no dia 29 de junho de 1951, na catedral de Freising, Alemanha.

A antologia é a primeira de uma coletânea de "textos escolhidos", que será lançada em seis línguas, sobre ciência e fé, Europa, minorias criativas, política e fé, universidades, Eucaristia. O aniversário será comemorado com uma cerimônia que será realizada no Vaticano, no dia 28 de junho.

O texto foi publicado no sítio Il Sismografo, 22-06-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Oração, fator decisivo
Papa Francisco

Cada vez que eu leio as obras de Joseph Ratzinger-Bento XVI, fica sempre mais claro que ele fez e faz "teologia de joelhos": de joelhos porque, antes ainda de ser um grandíssimo teólogo e mestre da fé, vê-se que é um homem que crê verdadeiramente, que reza verdadeiramente; vê-se que é homem que personifica a santidade, um homem de paz, um homem de Deus.

E, assim, ele encarna exemplarmente o coração de todo o agir sacerdotal: aquele profundo enraizamento em Deus, sem o qual toda a capacidade organizativa possível e toda a suposta superioridade intelectual, todo o dinheiro e poder são inúteis; ele encarna aquela constante relação com o Senhor Jesus, sem a qual nada mais é verdade, tudo se torna rotina; os sacerdotes, quase assalariados; os bispos, burocratas; e a Igreja, não Igreja de Cristo, mas um produto nosso, uma ONG, no fim das contas, supérflua.

O sacerdote é aquele que "encarna a presença de Cristo, testemunhando a Sua presença salvífica", escreve Bento XVI, nesse sentido, na carta de convocação do Ano Sacerdotal. Lendo este livro, vê-se claramente como ele mesmo, em 65 anos de sacerdócio que hoje celebramos, viveu e vive, testemunhou e testemunhara exemplarmente essa essência do agir sacerdotal.

O cardeal Gerhard Ludwig Müller afirmou, com autoridade, que a obra teológica de Joseph Ratzinger, antes, e de Bento XVI, depois, coloca-o entre a fileira dos grandíssimos teólogos sobre o sólio de Pedro; como, por exemplo, o Papa Leão Magno, santo e doutor da Igreja.

Renunciando ao exercício ativo do ministério petrino, Bento XVI decidiu agora se dedicar totalmente ao serviço da oração: "O Senhor me chama a 'subir a montanha', a me dedicar ainda mais à oração e à meditação. Mas isso não significa abandonar a Igreja, ao contrário, se Deus me pede isso, é justamente para que eu possa continuar a servi-la com a mesma dedicação e o mesmo amor com que eu tentei fazê-lo até agora", disse ele no último e comovente Ângelus por ele rezado.

Desse ponto de vista, à justa consideração do prefeito da Doutrina da Fé, gostaria de acrescentar que, talvez, é justamente hoje, como papa emérito, que ele nos oferece, do modo mais evidente, uma das suas maiores lições de "teologia de joelhos".

Porque é talvez sobretudo do mosteiro Mater Ecclesiae, ao qual ele se retirou, que Bento XVI continua testemunhando, de modo ainda mais luminoso, o "fator decisivo", aquele núcleo íntimo do ministério sacerdotal que os diáconos, os sacerdotes e os bispos nunca devem esquecer: ou seja, que o primeiro e mais importante serviço não é a gestão dos "assuntos correntes", mas rezar pelos outros, sem interrupção, alma e corpo, assim como faz o papa emérito hoje: constantemente imerso em Deus, com o coração sempre voltado para Ele, como um amante que, a cada momento, pensa no amado, em qualquer coisa que faça.

Assim, Sua Santidade Bento XVI, com o seu testemunho, nos mostra qual é o verdadeiro rezar: não a ocupação de algumas pessoas consideradas particularmente devotas e talvez consideradas pouco aptas a resolver problemas práticos; aquele "fazer" que, em vez disso, os mais "ativos" acreditam que é o elemento decisivo do nosso serviço sacerdotal, relegando, assim, de fato, a oração ao "tempo livre". E rezar também não é, simplesmente, uma boa prática para se colocar a consciência um pouco em paz, ou apenas um meio devoto para obter de Deus aquilo que, em um dado momento, acreditamos que nos sirva.

Não. A oração, diz-nos e nos testemunha Bento XVI neste livro, é o fator decisivo: é uma intercessão da qual a Igreja e o mundo – e ainda mais neste momento de verdadeira mudança de época – precisam mais do que nunca, como o pão, mais do que o pão.

Porque rezar é confiar a Igreja a Deus, na consciência de que a Igreja não é nossa, mas Sua, e que, justamente por isso, Ele nunca a abandonará; porque rezar significa confiar o mundo e a humanidade a Deus; a oração é a chave que abre o coração de Deus, é a única que consegue reconduzir Deus sempre de novo a este nosso mundo e, ao mesmo tempo, é a única que consegue reconduzir sempre de novo os homens e o mundo a Ele, como o filho pródigo ao seu pai, que, repleto de amor por ele, não espera nada mais do que poder abraçá-lo novamente. Bento XVI não esquece que a oração é a primeira tarefa do bispo (Atos dos Apóstolos 6, 4).

E, assim, o rezar, verdadeiramente, vai de mãos dadas com a consciência de que, sem a oração, muito em breve o mundo não só perde a orientação, mas também a autêntica fonte da vida: "Porque, sem o vínculo com Deus, somos como satélites que perderam a sua órbita e mergulham enlouquecidamente no vazio, não só desagregando a si mesmos, mas também ameaçando os outros", escreve Joseph Ratzinger, oferecendo uma das tantas imagens estupendas disseminadas neste livro.

Caros irmãos! Eu me permito dizer que, se algum de vocês tivesse dúvidas sobre o centro do próprio ministério, sobre o seu sentido, sobre a sua utilidade, se tivesse dúvidas sobre o que verdadeiramente os homens esperam de nós, meditem profundamente as páginas que nos são oferecidas: porque elas esperam de nós, sobretudo, aquilo que, neste livro, vocês vão encontrar descrito e testemunhado: que nós levamos para eles Jesus Cristo e que os conduzimos a Ele, à água fresca e viva, da qual eles têm sede mais do que qualquer outra coisa, que só Ele pode dar e que nenhum substituto jamais poderia substituir; que nós os conduzimos à felicidade plena e verdadeira quando mais nada os satisfaz, que nós os conduzimos a realizar aquele seu sonho mais íntimo que nenhum poder jamais poderá lhes prometer e cumprir!

Não é por acaso que a iniciativa deste volume – junto com a de dar origem, muito oportunamente, a uma coletânea de livros temáticos do pensamento de Joseph Ratzinger-Bento XVI – partiu de um leigo, o professor Pierluca Azzaro, e de um sacerdote, o reverendo padre Carlos Granados. A eles vai o meu cordial agradecimento, meus bons votos e apoio pelo importante projeto, junto com o reverendo padre Giuseppe Costa, diretor da Livraria Editora Vaticana, que publica a opera omnia de Joseph Ratzinger.

Não é por acaso, eu dizia, porque o volume que hoje eu presento é dirigido, em igual medida, aos sacerdotes e os fiéis leigos; como magistralmente testemunha, dentre tantas, esta página do livro que eu ofereço a religiosos e leigos como um último e sincero convite à leitura:

"Casualmente, nestes dias, eu li o relato que o grande escritor francês Julien Green faz da sua conversão. Ele escreve que, no período entre as duas guerras, ele vivia justamente como vive um homem de hoje: permitia-se tudo o que queria, estava acorrentado aos prazeres contrários a Deus, de modo que, por um lado, ele precisava deles para tornar a sua vida suportável, mas, por outro, achava intolerável justamente essa mesma vida. Procurou saídas, estabeleceu relações. Foi ao encontro do grande teólogo Henri Bremond, mas a conversa continuou no plano acadêmico, sutilezas teóricas que não o ajudaram. Instaurou uma relação com os dois grandes filósofos, os cônjuges Jacques e Raïssa Maritain. Raïssa Maritain lhe indicou um dominicano polonês. Ele se encontrou com ele e lhe descreveu também essa sua vida dilacerada. O sacerdote lhe disse: 'E você, concorda em viver assim?'. 'Não, é claro que não!', respondeu. 'Então, quer viver de um modo diferente. Está arrependido?'. 'Sim!', disse Green. E, depois, aconteceu algo de inesperado. O sacerdote lhe disse: 'Ajoelhe-se! Ego te absolvo a peccatis tuis – eu te absolvo'. Escreve Julien Green: 'Então, eu percebi que, no fundo, eu sempre tinha esperado aquele momento, sempre tinha esperado alguém que me dissesse: ajoelhe-se, eu te absolvo. Fui para casa: eu não era outro, não, eu finalmente tinha me tornado novamente eu mesmo'" (Joseph Ratzinger, Opera omnia, 12, p. 781).

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