A revolução de Francisco em um mundo aos pedaços. Balanço da caminhada de três anos de pontificado. Entrevista com o filósofo Massimo Borghesi

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Por: André | 30 Março 2016

Um pontífice que coloca as cartas sobre a mesa, que dribla todos os esquemas ideológicos e que, precisamente, por isso é profundamente admirado ou asperamente criticado. No entanto, em apenas três anos de pontificado o Papa Francisco não fez mais que colocar novamente no centro a dimensão do encontro entre Deus e o homem, do qual surgem numerosas e evidentes consequências tanto em nível de magistério e de pastoral como de ação diplomática da Igreja.

É o que demonstra em uma entrevista concedida a Zenit, Massimo Borghesi, professor titular de Filosofia Moral da Universidade de Perugia. Borghesi foi, nos últimos três anos, um dos mais agudos “hermeneutas” do pontificado de Bergoglio, colocando em relevo suas características “proféticas”. Ao mesmo tempo, Borghesi explica por que o papa argentino é tão incômodo para muitos, sobretudo entre os próprios católicos.

A entrevista é de Luca Marcolivio e publicada por Zenit, 12-03-2016. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Três anos após ser eleito, o Papa Francisco segue sendo um grande quebra-cabeça para muitos intelectuais, mas sobretudo para os acérrimos defensores das ideologias do século XX. Ele não é de esquerda nem de direita. Sua pastoral e sua linguagem acessível colocam-no mais perto do povo do que das elites eclesiais ou laicas. Você, como filósofo, como interpreta sua personalidade?

Tudo o que você disse é verdade. Desde o princípio do seu pontificado, o Papa Bergoglio fez entrar em crise os comentaristas e analistas por esse seu estilo completamente novo. Comentaristas e analistas que se esforçam para encontrar as “raízes” do Papa latino-americano para compreendê-lo, e em muitos casos para poder criticá-lo e deslegitimá-lo. Sobretudo certa corrente conservadora que nos anos de Bento XVI já tentou, sem sucesso, ajustar a imagem do Papa Ratzinger ao seu gosto, e agora acusa o Papa Francisco de ser populista, peronista, partidário da Teologia da Libertação, etc. Também o acusaram de “duplicidade jesuítica”, desempoeirando as armas de um velho laicisimo, que curiosamente hoje é empunhado pela direita católica.

Tudo isto demonstra uma boa dose de ignorância e de preconceito. O Papa Bergoglio nunca foi filo-marxista. Simplesmente nunca foi de direita. Sua Teologia do Povo nasce no contexto da Argentina dos anos 70 como resposta “católica” à teologia da revolução. Não se trata de uma concepção ideológica, mas que a fé se arraiga na mística popular, em uma tradição cristã viva, histórica, que a Igreja Institucional não pode desconhecer sem correr o risco de tornar-se abstrata e formalista. O sensus fidei do povo crente é um “lugar teológico”, assim como os pobres são os prediletos, aqueles que Deus ama de uma maneira especial. A Teologia do Povo é uma resposta às posturas ideológicas, de direita ou de esquerda, ao elitismo de marca iluminista ou ao gnosticismo que reduz a fé a “doutrina”.

De tudo isto se desprendem consequências importantes. A primeira é uma concepção “carnal”, “física”, do cristianismo. Um povo nasce de uma relação viva, real, não de uma proposta abstrata. O cristianismo, por natureza, comunica-se na situação concreta do ver-ouvir-tocar-abraçar. A isto se deve a simplicidade da linguagem evangélica, cheia de exemplos e de convites, que não se limita a instruir, mas que quer envolver o coração. Quer construir uma relação real entre Deus e aqueles que o escutam. Um Deus que o coração pode sentir: isso é o cristianismo para Bergoglio.

Um fator controverso é a suposta descontinuidade de Francisco com seus predecessores, pelo menos em nível pastoral. Esta é, na sua opinião, uma leitura correta?

Não. Na realidade, há um fio condutor que une Bergoglio com Ratzinger e consiste na percepção de que o cristianismo, em um mundo cada vez mais neopagão, só pode voltar a ocorrer se constituir um “encontro”. Assim o afirma a Evangelii Gaudium no n. 7, retomando o ponto n. 1 da Deus caritas est, que diz: “Não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva”. É um ponto de convergência importante, porque tanto na vida como na fé, o ponto de partida decide tudo.

Este é o ponto que Ratzinger e Bergoglio compartilham com dois grandes mestres e educadores cristãos do século XX: Romano Guardini e Luigi Giussani. Se o cristianismo, hoje assim como há dois mil anos, recomeça a partir de um “encontro”, e não da organização, da militância, da dialética, etc., então o testemunho vem em primeiro lugar. A re-presentação de Cristo no mundo é, tanto para Bento como para Francisco, a tarefa essencial da Igreja no contexto histórico atual, esse primerear fundamental que o clericalismo esquece dando-o como evidente.

Isso quer dizer que o enfoque pastoral de ambos os papas é o mesmo. A diferença, em todo caso, está no estilo. A reserva e timidez de Bergoglio são diferentes do abraço físico de Francisco. Esta dimensão de Bergoglio não é um dado que o caracteriza, mas o resultado de uma maneira de entender a fé que nasce do espetáculo do povo crente na geografia espiritual da América Latina. É o que dizia antes. A fé se alimenta dentro de um povo, de uma comunidade viva, de uma proximidade real.

No primeiro ponto da Evangelii Gaudium, Francisco afirma: “O grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista”. Ou seja, o Ocidente está afetado pela tristeza individualista. Neste sentido, sem dúvida há uma diferença entre Francisco e Bento, porque há uma superação do enfoque eurocêntrico que caracteriza a visão cultural do Papa Ratzinger. Com Francisco, entra em cena a perspectiva de uma fé viva, atual, arraigada em um tecido popular e solidário, que à senil Europa parece, pela influência iluminista, a herança de um passado muito distante.

Que juízo merecem as reformas e inovações de Bergoglio (como o redimensionamento da cúria, a sinodalidade, a atenção às “periferias” e a modernidade), à luz do Concílio Vaticano II?

São reformas que se inscrevem na perspectiva aberta pelo Concílio Vaticano II. O redimensionamento da cúria – a reforma mais difícil! – corresponde a uma política de economia e procede em consciente oposição ao processo de burocratização eclesial que imperou nas últimas décadas. A cúria deve recuperar a sobriedade no desempenho de suas funções, evitando na medida do possível carreirismos e protagonismos que prejudicam seriamente o ministério petrino. Neste sentido, a discrição que caracteriza o atual secretário de Estado é um claro exemplo.

Outra reforma refere-se ao exercício sinodal, a forma que a autoridade deve assumir na Igreja. Bento XVI já havia falado desse tema em uma entrevista concedida à Rádio Vaticano de 5 de agosto de 2006, auspiciando um pontificado não monárquico. O problema de superar a forma “monárquica” e absolutista do papado é um ponto central de reflexão desde o Vaticano II. Inclusive o diálogo com a Igreja ortodoxa, que acaba de viver um momento culminante com o abraço entre Francisco e Kirill, requer uma volta ao enfoque eclesial do primeiro milênio.

Quanto ao encontro entre fé e modernidade, Bergoglio não tem dúvidas. Disse em várias oportunidades: o Concílio Vaticano II constitui o encontro entre a Igreja e o mundo moderno. É um ponto sem retorno. Isso significa, em primeiro lugar, uma rejeição da teologia política, do uso político da religião. Com respeito a Ratzinger, o matiz que distingue Bergoglio ao propor a relação entre fé e modernidade consiste em que o moderno não é só europeu, mas também latino-americano. A América Latina é um contexto onde a secularização não levou à “privatização”, à solução individualista da fé.

Do Iluminismo europeu resgata a clara distinção entre Igreja e Estado e o tema dos direitos e liberdades. Ao contrário, rejeita seu elitismo intelectualista, seu rosto não popular. Neste sentido, a perspectiva da “periferia” corrige a perspectiva do centro. Mas trata-se de uma correção, de um ponto de vista privilegiado, não de uma alternativa terceiro-mundista ao Ocidente. Quem interpreta assim o Papa Francisco comete um grave erro. A visão de Francisco é “polar”, e uma polaridade fundamental é entre o “centro” e a “periferia”.

No magistério social, que ocupa uma parte importante do seu pontificado, a atenção que o Santo Padre dá ao tema do meio ambiente e é sintetizado na Laudato si’, configura um espaço novo e original. A ecologia passa a ser pela primeira vez objeto de interesse para a Igreja ou neste sentido a encíclica é antes um ponto de chegada, embora seja intermediário?

A encíclica Laudato si’ é um documento que foi muito criticado mas pouco lido. Criticado pela direita liberal, sobretudo nos Estados Unidos, porque interpreta o texto como um perigoso ataque contra a doutrina do laisser-faire, contra a doutrina do mercado acima de qualquer limitação ética ou jurídica. Na realidade, a encíclica critica severamente o “paradigma tecnocrático” que na era da globalização se impõe sem limites. É o mesmo paradigma que leva a considerar os idosos, os embriões com patologias, os doentes terminais, as pessoas com deficiências e os pobres em geral como “descartados”, seres inúteis, não produtivos, pesos mortos para a sociedade.

A devastação ecológica de regiões inteiras do planeta é fruto de um modelo que simultaneamente rejeita a humanidade débil e desprotegida. As correntes da direita cristã que lutam contra o aborto e a eutanásia não captam este duplo vínculo, e então são completamente liberais em matéria ecológica e ambiental, subordinando-se aos interesses do neocapitalismo mundial. Como afirma a Laudato si’ no número 117: “Quando, na própria realidade, não se reconhece a importância de um pobre, de um embrião humano, de uma pessoa com deficiência – só para dar alguns exemplos –, dificilmente se saberá escutar os gritos da própria natureza. Tudo está conectado”.

Em sua análise do paradigma tecnocrático como módulo dominante na economia das últimas décadas, Bergoglio se deixa guiar pela reflexão sobre o poder na era da técnica desenvolvida por um de seus autores preferidos, Romano Guardini. A Laudato si’ está cheia de citações de Guardini.

Por último, observamos que a importância da questão ecológica como problema planetário começa em Bergoglio de sua clara consciência de que os países da “periferia”, da África, da América Latina, etc., se converteram no depósito de lixo do mundo. O que o Ocidente protege para si mesmo, com a proteção da natureza e do meio ambiente, é destruído nos países mais pobres, que sofrem a exploração indiscriminada de seus recursos, o desmatamento, a contaminação da água e do ar e a reciclagem de resíduos tóxicos. A questão ecológica afeta diretamente as periferias, os subúrbios do planeta, não as verdes campinas do mundo rico.

Com relação à diplomacia vaticana. Um grande êxito de Francisco foi ter posto paz entre Cuba e os Estados Unidos depois de 50 anos. Paralelamente, está trabalhando na frente ecumênica ortodoxo-católica (é histórico o seu encontro com o patriarca Kirill), e também para salvar o Oriente Médio do abismo e os cristãos medio-orientais da perseguição. A que novo ordenamento geopolítico poderia levar o trabalho diplomático do Papa?

Sem dúvida há três questões sobre o tapete. A primeira: apoiar o processo de distensão entre o Leste e o Oeste, entre a Rússia e o Ocidente, para evitar um conflito cujos resultados seriam catastróficos. O abraço entre Francisco e Kirill tem um valor geopolítico enorme. Assim como teve, na sua época, a mão que Francisco estendeu a Putin com sua oração em São Pedro pela paz na Síria, para frear o projeto estadunidense de intervir diretamente na guerra contra Assad. Sem avalizar os planos hegemônicos do Kremlin, o Papa contribuiu para que a Rússia pudesse sair do beco sem saída em que perigosamente a haviam encurralado.

A segunda questão está relacionada com a anterior. Trata-se de apoiar todos aqueles fatores que possam favorecer processos de paz na Síria e no Oriente Médio, para proteger os cristãos e os próprios muçulmanos. O respeito que Francisco mostra pelo Islã, junto com a firme crítica contra o fundamentalismo religioso, tem como objetivo a convivência pacífica dos povos. Sobretudo os que estão sendo desgarrados por trágicas guerras civis. É o que a direita cristã não entende, aferrada ao cenário teocon do enfrentamento entre o Islã e o Ocidente.

A terceira questão importante para o Papa é a China. O sonho de relações diplomáticas plenas, que garantam a completa liberdade do catolicismo chinês, é sem dúvida um dos grandes desejos de Francisco. Já foram dados passos importantes e sinais de respeito recíproco. O futuro está nas mãos de Deus. Também neste caso, uma relação plena ajudaria para o encontro entre o Ocidente e o Oriente, que sempre redundaria em benefício da paz no mundo.

A informalidade deste Papa, seus frequentes discursos improvisados, a facilidade com que dá entrevistas, também são objeto de polêmica. Em definitiva, que tipo de linguagem utiliza?

É uma linguagem simples acompanhada pela linguagem do rosto, das mãos, do corpo. Em seu livro O sonho do Papa Francisco, o Pe. Antonio Spadaro descreve muito bem este aspecto do testemunho papal: “Bergoglio – afirma Spadaro – ‘habita’ a palavra que pronuncia. Assim como ele não é capaz de viver sozinho, mas necessita de uma comunidade, da mesma maneira sua palavra tem necessidade de assumir uma forma para aqueles que tem diante de si. Nunca é pronunciada porque é bela, mas porque é capaz de construir uma relação com o Evangelho. A palavra de Bergoglio é filha do sermão humilde de Santo Agostinho, porque quer ser uma ‘palavra-casa’, bela, acessível e clara, ‘suave’. Por isso, sempre se caracteriza pela oralidade, pelo diálogo, mesmo que esteja escrita. As palavras tomam corpo”.

Com relação à “informalidade” do Papa, Spadaro recorda que para Francisco ser “normal” é uma condição do ser cristão. Este homem, que hoje se converteu em um ícone midiático mundial, rejeita todos os clichês das “estrelas”, em primeiro lugar fazer alarde de distância e de excepcionalidade. O Deus semper maior entrou no mundo como um Deus absconditus, que participa plenamente da normalidade da vida. Como a famosa imagem do Papa que sobe as escadas do avião levando ele mesmo sua pasta preta.

Nunca um Papa recebeu tantas críticas precisamente no mundo católico. Na sua opinião, são críticas puramente ideológicas ou nascem de interesses concretos que Francisco coloca em discussão?

As duas coisas. Não há dúvida de que as reformas e o estilo de vida do Papa podem incomodar, momentaneamente, privilégios e carreiras construídos em base a sólidos interesses. Na Igreja, o clericalismo e a burocracia caracterizaram as últimas décadas. A desorientação diante de um Papa que utiliza um carro comum é bastante grande. Neste caso, o melhor ataque é acusá-lo de demagogia, de populismo, de buscar o aplauso das multidões. Na realidade, por trás das críticas não é difícil adivinhar cargos e ambições. Por isso, muitos esperam atrás de uma janela a passagem do ciclone e que tudo volte a ser como era antes. Enquanto isso, é suficiente atualizar a linguagem eclesiástica – as “periferias”, os “últimos”, a “misericórdia” – sem que nada mude realmente.

Por outro lado, é preciso entender que hoje Francisco é a única voz relevante, em nível mundial, que se opõe verdadeiramente à “ideologia” da globalização, ao dogma de um sistema econômico que dissolveu a esfera política e criou antíteses profundas dentro e entre os Estados. Diferenças que são a premissa para enfrentamentos, violências e guerras futuras. Atenuar os contrastes sociais é um imperativo para a paz no mundo; é isso que Francisco tem em mente.

O liberalismo econômico, sem freios, não construiu a unidade do mundo, mas todo o contrário. Na sociedade, criou a dupla exclusão de idosos e jovens sem trabalho. Os dois pólos da sociedade, os idosos – que são a memória de um povo – e os jovens – que são seu futuro, sua esperança –, são os excluídos, os “descartados” em um mundo obcecado pelo seu próprio presente. Nisto consiste a atual decadência do mundo, que já não tem uma visão de seu próprio futuro porque cortou as raízes de seu próprio passado. Bergoglio não é um “progressista” iluminista. Sabe que não há progresso se não se proteger a memória popular, a memória dos “avós”, que não devem ser enxotados em casas geriátricas, mas que devem proteger os seus netos.

A direita católica, subordinada à direita liberal, não compreende a riqueza deste enfoque. Acusam o Papa de ser “modernista” e não compreendem que fazem o jogo de um neocapitalismo individualista e cínico, primeira causa da “revolução antropológica” que hoje dissolve toda certeza moral. Esta incapacidade para identificar o verdadeiro adversário é o ponto fraco de um pseudo-pensamento católico que perdeu as coordenadas para compreender o momento presente.

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