Todos os motivos pelos quais o encontro Francisco-Kirill é realmente histórico. Artigo de Massimo Faggioli

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15 Fevereiro 2016

Francisco e Kirill são líderes de duas Igrejas que chegam a Cuba provenientes de uma época histórica em que o objeto "Igreja" fazia parte de um sistema político forte: a América Latina do anticomunismo das ditaduras para Francisco; a perseguição e instrumentalização da Ortodoxia na Rússia soviética.

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo e diretor do Institute for Catholicism and Citizenship, na University of St. Thomas, nos EUA. O artigo foi publicado por HuffingtonPost, 13-02-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Segundo ele, "como "não lugar" por excelência, um aeroporto internacional torna-se, graças a um ato tecnicamente não litúrgico, mas mesmo assim de grande densidade espiritual, o lugar mais significativo para o ecumenismo de Francisco".

"Na declaração comum - analisa o historiador - retoma-se a virada ecumênica de Francisco, que vai além da de João Paulo II: novo papel do papado, cessação das hostilidades confessionais, ecumenismo do sangue dos mártires".

Eis o texto.

O encontro entre o Papa Francisco e o Patriarca de Moscou, Kirill, é um grande momento na história do cristianismo e não há motivo para hesitar em usar o adjetivo histórico. Era o encontro mais esperado e mais difícil, por causa da estratificação dos obstáculos: não teológicos, mas de ordem política interna, internacional, e de equilíbrios internos à Ortodoxia e ao catolicismo oriental.

A história do cisma e das excomunhões entre Roma e a Ortodoxia tinha durado mais de 900 anos, de 1054 a 1965; mas nesses últimos 50 anos, justamente o dossiê russo ortodoxo era o mais difícil: a maior Igreja ortodoxa e a mais ligada ao poder político. O encontro de Cuba entre Francisco e Kirill se aproxima ao de Paulo VI e o Patriarca de Constantinopla Atenágoras, em Jerusalém, no dia 5 de janeiro de 1964: é um possível novo início, com um papa, Francisco, que redefiniu o vocabulário do poder papal também nas relações com as Igrejas cristãs não católicas.

É cedo para avaliar as repercussões do encontro e da declaração comum, embora já se vejam as reações negativas provenientes dos ortodoxos ucranianos: aos jornalistas durante o voo de Cuba para a Cidade do México, o papa especificou que se trata de uma "declaração não política, mas pastoral", e que "haverá tantas interpretações, tantas, tantas...".

Por enquanto, os elementos simbólicos podem ser considerados. Causava um certo impacto ver Raúl Castro rodeado por uma patrulha de bispos e cardeais, esperando como um coroinha ao lado da mesa da declaração conjunta entre o Papa Francisco e o Patriarca de Moscou, Kirill: a bandeira de Cuba, de um lado, e um grande ícone de Nossa Senhora, de outro. A queda do muro entre Havana e Washington, poucos meses atrás, evidentemente, era apenas o primeiro passo.

O encontro com Kirill em Cuba ressignifica muitos elementos simbólicos. O primeiro elemento é o aeroporto. O cenário do aeroporto de Cuba é sugestivo na sua dimensão emblemática de uma modernidade em movimento de que o cristianismo faz parte. Justamente o Papa Francisco, que em uma das suas primeiras repreensões criticou "os bispos de aeroporto", sempre em movimento e nunca nas dioceses, faz do aeroporto em Havana o ponto de encontro de duas trajetórias eclesiais historicamente diferentes, a católica e a ortodoxa, mas nunca totalmente alienadas uma da outra.

Como "não lugar" por excelência, um aeroporto internacional torna-se, graças a um ato tecnicamente não litúrgico, mas mesmo assim de grande densidade espiritual, o lugar mais significativo para o ecumenismo de Francisco.

O segundo elemento ressignificado é Cuba. Francisco disse na coletiva de imprensa que Cuba pode se tornar "capital da unidade". De ponto de penetração do comunismo no ventre do Ocidente de liderança norte-americana e possível ponto de início da terceira guerra mundial nuclear no outubro de 1962 em que se abria o Concílio Vaticano II, Cuba, com o papa argentino, torna-se etapa fundamental na história do ecumenismo entre católicos e ortodoxos, longe dos lugares clássicos da Europa marcada pela história das Igrejas, não menos do que pela geografia confessional, mas distante também daquela América do Norte eixo central da geopolítica católica até a eleição de Francisco.

O terceiro elemento é a reconversão dos obstáculos no caminho entre Roma e a Ortodoxia. Francisco violou um dos paradigmas do ecumenismo católico ao Oriente, chamando ainda em 2014 a solução "uniata" (a tentativa de Roma de anexar partes de Igrejas ortodoxas) de uma "palavra de outra época", não mais adaptada para hoje.

Na declaração comum, fala-se do "direito de existir" das comunidades greco-católicas e retoma-se a virada ecumênica de Francisco, que vai além da de João Paulo II: novo papel do papado, cessação das hostilidades confessionais, ecumenismo do sangue dos mártires.

Francisco e Kirill são dois líderes cujo gesto de Cuba diz muito da necessidade de personalidades de cúpula para mover obstáculos considerados intransponíveis. São dois sobreviventes do século XX, provenientes de duas periferias do mundo com as quais o centro de gravidade da geopolítica europeia e norte-atlântica tentou, até poucos anos atrás, acertar as contas, de maneira insolente e depreciativa, pagando um preço alto (como na Ucrânia).

Francisco e Kirill são líderes de duas Igrejas que chegam a Cuba provenientes de uma época histórica em que o objeto "Igreja" fazia parte de um sistema político forte: a América Latina do anticomunismo das ditaduras para Francisco; a perseguição e instrumentalização da Ortodoxia na Rússia soviética.

As duas Igrejas percorreram estradas diferentes para redefinir a sua relação com a nação e o império. Mas ambas sabem muito bem que o caminho do ecumenismo não é indiferente às condições e aos destinos da política mundial. A geopolítica das Igrejas está no palimpsesto profundo do mapa de um mundo em que a religião não foi erradicada pelas ditaduras, como também não será pelas ideologias cientificistas em voga hoje.

A declaração conjunta abrange vários temas: o martírio dos cristãos no Oriente Médio e na África do Norte, a necessidade do diálogo inter-religioso, o desafio ao terrorismo fundamentalista, a convivência entre ortodoxos e "uniatas" com Roma, família e matrimônio, a defesa do direito à vida, a secularização.

Algumas passagens são fruto de um compromisso com Kirill, como os parágrafos 26-27 sobre a guerra na Ucrânia e sobre a divisão das Igrejas ortodoxas na Ucrânia, que Moscou tentará usar para sua vantagem. Mas é uma declaração que é a versão ecumênica da constituição Gaudium et spes, do Concílio Vaticano II sobre a Igreja no mundo contemporâneo: ela lê os sinais dos tempos de hoje, assume-os na consciência das duas Igrejas cristãs mais globais e mais marcadas pelo poder político imperial.

Francisco e Kirill fazem isso em Cuba, em um lugar que expressa a necessidade de uma despedida do passado, mas, ao mesmo tempo, a herança do século XX, o das ideologias políticas antirreligiosas, mas também do nascimento do caminho ecumênico entre as Igrejas cristãs.

Nota da IHU On-Line:

A íntegra da declaração comum assinada por Papa Francisco e o Patriarca Kirill, em Havana, no dia 12-02-2016, pode ser lida aqui, em português.

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