A via mexicana do Papa Francisco. Olhar a “Moreninha” que olha para você

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Por: André | 22 Fevereiro 2016

Chama a atenção, no esplêndido discurso do Papa Francisco aos bispos na Catedral da Cidade do México, o uso contínuo de palavras como “olhar”, “olhada” e “rosto”. O verbo “ver”, na forma ativa e passiva, é o fio vermelho de um texto chave no magistério pastoral do Pontífice e ilumina uma perspectiva que já se havia manifestado anteriormente. Por exemplo, na conversa com o Pe. Antonio Spadaro que foi publicada primeiro pela revista La Civiltà Cattolica e depois no livro Minha porta está sempre aberta, o Papa conta suas visitas à igreja de São Luis dos Franceses quando estava em Roma e descreve suas impressões diante do quadro 'A vocação de São Mateus', de Caravaggio: “Esse dedo de Jesus, apontando assim... para Mateus. Assim estou eu. Assim me sinto. Como Mateus. (...) Impressiona-me o gesto de Mateus. Aferra-se ao seu dinheiro, como que dizendo: ‘Não, não a mim! Não, este dinheiro é meu!’ Este sou eu; um pecador ao qual o Senhor dirigiu o seu olhar...” (p. 25).

A reportagem é de Massimo Borghesi e publicada por Tierras de América, 18-02-2016. A tradução é de André Langer.

O olhar de Cristo está relacionado, neste caso, com a consciência do pecado que só se manifesta em relação com a misericórdia, ao encontrar-se com um rosto que o ama. Na entrevista com Andrea Tornielli, O nome de Deus é misericórdia, Francisco explica por que escolheu como lema do seu episcopado a frase “miserando atque eligendo” e afirma: “Eu gosto de traduzir miserando com um gerúndio que não existe, ‘misericordiando’, dando misericórdia. Assim pois, misericordiando-o e escolhendo-o, para descrever o olhar de Jesus que dá misericórdia e escolhe, leva consigo” (p. 27).

A misericórdia é captada em um “olhar”, está “contida” em um olhar, no rosto do outro, do Outro. Esta proximidade é a condição transcendental mediante a qual o cristianismo se faz histórico, capaz de se comunicar. Apesar de que Francisco não cite usualmente o grande teólogo Hans Urs von Balthasar, é inegável que sua fenomenologia da percepção corresponde plenamente, como em Balthasar, à manifestação “sensível” da “forma” (Gestalt) gloriosa do Mistério. Para compreender a fé é preciso introduzir-se na dinâmica com que Jesus, o Verbo de Deus, manifestou-se no mundo.

No discurso aos participantes do V Congresso da Igreja Italiana, na Catedral de Santa Maria de Fiore, em Florença, Francisco observa primeiro que “não devemos domesticar o poder do rosto de Jesus. O rosto é a imagem da sua transcendência. É o misericordiae vultus. Deixemo-nos olhar por Ele”. E depois afirma: “E contemplemos uma vez mais os traços do rosto de Jesus e seus gestos. Vemos Jesus que come e bebe com os pecadores (Mc 2, 16; Mt 11, 19); contemplemos Jesus enquanto conversa com a samaritana (Jo 4, 7-26); espiemo-lo enquanto se encontra de noite com Nicodemos (Jo 3, 1-21); degustemos com afeto a cena em que se deixa ungir os pés por uma prostituta (cf. Lc 7, 36-50)”.

O Papa adota aqui uma perspectiva fílmica, a partir da qual a introdução ao cristianismo não é uma operação arqueológica, nem meramente histórico-erudita. Trata-se, também na catequese, de voltar a encontrar Cristo em sua realidade, vendo-o agir, caminhar pelas ruas, curar os enfermos, consolar os aflitos, abraçar as crianças. O cristianismo não pode prescindir, em sua percepção e em sua comunicação, do elemento visual, nem do auditivo, nem do táctil. Francisco retoma aqui, ao pé da letra, a modalidade “empírica”, a “estética teológica” de João em sua primeira Carta, quando se refere à experiência do Verbo. Esta explica a metáfora da Igreja como “hospital de campanha”.

“Para mim, a imagem que me vem à cabeça é a do enfermeiro, da enfermaria de um hospital: cura as feridas uma a uma, mas com suas mãos. Deus se implica, se mete em nossas misérias, aproxima-se das nossas chagas e as cura com suas mãos, e para ter mãos fez-se homem. É um trabalho pessoal de Jesus. Um homem cometeu o pecado, um homem vem para curá-lo. Proximidade. Deus não nos salva apenas por um decreto, uma lei; salva-nos com ternura, salva-nos com carícias, salva-nos com sua vida, por nós” (Santa Marta, homilia, 22-10-2013).

Esta perspectiva, cuja justificação filosófica é o primado da realidade sobre a ideia, constantemente repetido por Bergoglio, exemplificou-a também de uma maneira peculiar no discurso aos bispos do México. Aqui o olhar do qual tudo provém é o olhar de N. Sra. de Guadalupe, o coração da fé do povo mexicano.

“Poderia o Sucessor de Pedro, chamado do profundo sul latino-americano, privar-se da possibilidade de pousar o olhar na Virgem Moreninha? (...) Sei que, olhando os olhos da Virgem, alcanço o olhar do seu povo, que aprendeu a mostrar-se n’Ela. Por isso, acrescenta Francisco, também o Papa cultivava o desejo de olhar para Ela. Mais ainda, queria eu mesmo ser envolvido pelo seu olhar materno”.

“Refleti muito – prossegue o Papa – sobre o mistério deste olhar e peço-vos que acolhais tudo o que brota do meu coração de Pastor neste momento. Antes de mais nada, a Virgem Moreninha ensina-nos que a única força capaz de conquistar o coração dos homens é a ternura de Deus. Aquilo que encanta e atrai, aquilo que abranda e vence, aquilo que abre e liberta das cadeias não é a força dos meios nem a dureza da lei, mas a fragilidade onipotente do amor divino, que é a força irresistível da sua doçura e a promessa irreversível da sua misericórdia”.

O cristianismo é comunicado por um atrativo. Na Evangelii gaudium o Papa disse que “a pregação cristã não é uma ética estoica, é mais que uma ascese; não é uma mera filosofia prática nem um catálogo de pecados e erros. O Evangelho convida, antes de tudo, a responder a Deus que nos ama e salva”. Em seguida afirma: “Todas as virtudes estão ao serviço desta resposta de amor. Se tal convite não refulge com vigor e fascínio, o edifício moral da Igreja corre o risco de se tornar um castelo de cartas, sendo este o nosso pior perigo; é que, então não estaremos propriamente anunciando o Evangelho, mas algumas acentuações doutrinais ou morais, que derivam de certas opções ideológicas” (EG 39).

A vida nova do cristão não é o resultado das tábuas da lei, mas da graça d’Aquele que primerea, que precede, que sustenta e atrai. “Naturalmente – afirma na Catedral da Cidade do México –, por tudo isto necessita-se de um olhar capaz de refletir a ternura de Deus. Sejam, portanto, bispos de olhar límpido, de alma transparente, de rosto luminoso”.

Aqui a fé é uma Presença no olhar. “E, precisamente neste mundo, assim, Deus pede-lhes para ter um olhar capaz de interceptar a pergunta que grita no coração de vossa gente, a única que possui no próprio calendário uma ‘festa do grito’. A esse grito é necessário responder que Deus existe e está perto por meio de Jesus. Que só Deus é a realidade sobre a qual se pode construir, porque ‘Deus é a realidade fundante, não um Deus apenas pensado ou hipotético, mas o Deus com um rosto humano’. Nos vossos olhares, o povo mexicano tem o direito de encontrar os indícios de quem ‘viu o Senhor’ (cf. Jo 20, 25), de quem esteve com Deus. Isto é o essencial”.

O essencial, hoje assim como ontem, é o olhar daqueles que “viram o Senhor”. O cristianismo não se comunica por meio de técnicas ou com um desdobramento de poder, mas na simplicidade de homens que tocaram com as mãos a obra de Deus na história. “Se o nosso olhar não dá testemunho de ter visto Jesus, então as palavras que recordamos d’Ele não passam de figuras retóricas vazias. Talvez expressem a nostalgia daqueles que não podem esquecer o Senhor, mas, em todo o caso, são apenas o balbuciar de órfãos junto do sepulcro. No fim das contas, são palavras incapazes de impedir que o mundo fique abandonado e reduzido ao próprio poder desesperado”.

Por isso, convida os bispos para tornarem-se próximos do povo, da gente humilde, dos jovens. “Penso na necessidade de oferecer um regaço materno aos jovens. Que os vossos olhares sejam capazes de se cruzar com o deles, de amá-los e individuar o que eles buscam. (...) Que os vossos olhares, fixos sempre e apenas em Cristo, sejam capazes de contribuir para a unidade do vosso povo; favorecer a reconciliação das suas diferenças e a integração das suas diversidades”.

É surpreendente a perspectiva com a qual o Papa intui o ponto essencial, o ponto de Arquimedes a partir do qual é preciso partir para regenerar, para unir, para abrir à esperança. Não se trata, em princípio, de uma doutrina ou de uma posição cultural. Em Florença disse: “Não quero esboçar aqui em abstrato um ‘novo humanismo’, uma certa ideia de homem, mas simplesmente apresentar algumas características do humanismo cristão que é o dos ‘sentimentos de Jesus Cristo’ (Fp 2, 5). A humanidade cristã não resplandece como uma nova teoria, mas como um ser novo que se documenta, ostensivamente, na esfera do ‘sentir’, corporal e espiritual”.

Por isso, junto com o pelagianismo, que é a pretensão de prescindir da graça, o outro grande perigo sobre o qual continuamente adverte o Papa é o gnosticismo, ou seja, a pretensão de prescindir da “carne” de Cristo, reduzir a fé a uma mera doutrina abstrata. A fé sem a vida transforma-se em uma ideologia, em um fundamentalismo presunçoso, em um puritanismo elitista separado da história.

Por isso, na Cidade do México o Papa afirma: “Devemos vencer a tentação da distância – e deixo a cada um de vocês o catálogo das distâncias que possam existir nesta Conferência Episcopal – e do clericalismo, da frieza e da indiferença, do triunfalismo e da auto-referencialidade. Guadalupe ensina-nos que Deus é familiar no seu rosto, que a proximidade e esse abaixar-se, podem fazer mais do que a força, do que qualquer tipo de força”.

“Como ensina a bela tradição guadalupana, a Moreninha guarda os olhares daqueles que A contemplam, reflete o rosto daqueles que A encontram. É necessário aprender que há algo de irrepetível em cada pessoa que olha para nós à procura de Deus. Compete-nos a nós tornar-nos permeáveis a tais olhares: guardar em nós cada um deles, conservá-los no coração, protegê-los. Só uma Igreja que saiba proteger o rosto dos homens que vêm bater à sua porta, será capaz de lhes falar de Deus. Se não decifrarmos os seus sofrimentos, se não nos dermos conta das suas necessidades, nada poderemos oferecer. A riqueza de que dispomos flui somente quando encontramos a pequenez daqueles que mendigam, encontro esse que se realiza, precisamente, no nosso coração de pastores”.

Nos olhos de N. Sra. de Guadalupe estão presentes, inclusive fisicamente, aqueles que Ela ‘viu’ no momento em que se abre o poncho cheio de flores do índio Juan Diego. A Guadalupana é vista pelo povo fiel porque ela o olhou primeiro. Do mesmo modo, os Pastores não devem esperar o olhar do simples, em sinal de reverência e de respeito, mas devem olhá-lo primeiro, abraçá-lo com o olhar.

Na entrevista com o Pe. Antonio Spadaro, Francisco explica que não é natural para ele falar para muita gente. E confessa: “Eu costumo dirigir a vista para as pessoas concretas, uma a uma, e colocar-me em contato de forma pessoal com quem tenho diante de mim. Não sou feito de massas”. O encontro cristão só é possível como uma relação pessoal, como uma relação eu-tu. Pode-se olhar para “todos” só porque se olha para “um”. No fundo, porque, antes, fomos “olhados” e não simplesmente “vistos” por alguém.

Na Cidade do México, é o olhar de N. Sra. de Guadalupe que permite olhar para ela, que permite olhar nela o rosto de todos os que, unidos por esse olhar, convertem-se em um povo. “Só olhando para a Moreninha é que o México tem uma visão completa de si mesmo. Por isso convido-vos a compreender que a missão que a Igreja vos confia exige este olhar que abrace a totalidade. E isto não se pode realizar isoladamente, mas só em comunhão”.

“A Guadalupana está apertada com uma fita que anuncia a sua fecundidade. É a Virgem que traz, no ventre, o Filho esperado pelos homens. É a Mãe que já tem em gestação a humanidade do novo mundo que nasce. É a Esposa que prefigura a maternidade fecunda da Igreja de Cristo. Vós tendes a missão de cingir a nação mexicana inteira com a fecundidade de Deus. Nenhum pedaço desta fita pode ser desprezado”.

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