Conjuntura da Semana. Evangelii Gaudium. O programa de um pontificado

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Por: Jonas | 11 Dezembro 2013

No final de novembro de 2013, o Papa Francisco publicou a Exortação Apostólica Evangelli Gaudium, sobre a nova evangelização. Um texto com o léxico do Papa Bergoglio, o primeiro produzido integralmente por ele, mas que expressa já nas primeiras palavras, simultaneamente, uma boa-nova de alegria e de fé: “a alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus”.

 

A análise da Conjuntura da Semana é uma (re)leitura das Notícias do Dia publicadas diariamente no sítio do IHU. A análise é elaborada, em fina sintonia com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT, parceiro estratégico do IHU, com sede em Curitiba-PR, e por Cesar Sanson, professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN, parceiro do IHU na elaboração das Notícias do Dia. Para as análises eclesiais conta-se também com a contribuição de André Langer, que realiza traduções diárias para o sítio do IHU.


Índice

Evangelli Gaudium. O programa de um pontificado

A Evangelli Gaudium e as digitais de Bergoglio
Para uma conversão pastoral, a colegialidade
Capítulo econômico: marxista, comunista, polanyiano ou profético?
Retorno às origens do cristianismo
Ouvir a mensagem

Eis a análise.

A Evangelli Gaudium e as digitais de Bergoglio

No final de novembro de 2013, o Papa Francisco publicou a Exortação Apostólica Evangelli Gaudium, sobre a nova evangelização. Um texto com o léxico do Papa Bergoglio, o primeiro produzido integralmente por ele, mas que expressa já nas primeiras palavras, simultaneamente, uma boa-nova de alegria e de fé: “a alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus”.

São palavras que caem como orvalho ou que sopram como brisa suave em meio a um mundo mergulhado em uma crise civilizacional sem precedentes, mais predisposto a receber “bombas”. Representam um não radical diante das muitas atitudes de derrotismo, de pessimismo e de fatalidade diante das circunstâncias econômicas e sociais. Não à “realpolitik” e sim à ousadia rebelde; não a um andar cabisbaixo, e um convite a erguer a cabeça e a um andar decidido.

Este tempo que se assemelha muito aos inícios do cristianismo, como destaca com muita felicidade e acerto o economista brasileiro Luiz Gonzaga Belluzzo, em sua entrevista especial à IHU On-Line. Ele diz que o cristianismo “é uma sublevação contra algumas das realidades da vida das sociedades antigas: a crueldade, a sujeição da mulher, o desamor pelo outro, uma sociedade envolvida com a violência apesar da filosofia grega”. Neste contexto, faz uma referência ao filme Satyricon, de Fellini: “Quando você assiste ao filme ou lê o livro, vê que aquele realmente é um momento de angústia, apesar da riqueza acumulada pelo Império a partir do saque e da captação dos recursos dos outros através do poder que o Império tinha: a sociedade estava numa situação de desesperança quando surgiu o cristianismo. A encarnação exprime isso: por que Deus se fez homem? Ele se fez homem inclusive para partilhar das angústias dos humanos, para mostrar que, na verdade, ele se juntava àquele vale de lágrimas. Mas ele trazia a esperança da ressurreição e trazia a esperança da conquista da salvação, mas a salvação não é uma dádiva; a salvação é uma conquista do homem.”

Com este tom, dado pela nota das primeiras palavras, a Exortação Apostólica Evangelli Gaudium não é um tratado de teologia moral – embora as questões morais não estejam ausentes –, mas é, em primeiro lugar, um apelo à “conversão pastoral”: “Espero que todas as comunidades se esforcem para colocar em ação os meios necessários para avançar no caminho de uma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão”, diz o Papa Francisco n. 25 da Exortação.

A Exortação Apostólica foi recebida com muita expectativa. Ela é a devolução à comunidade eclesial das reflexões feitas no final de 2012 no âmbito do Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização, convocado e realizado ainda sob o pontificado de Bento XVI, que renunciou em fevereiro deste ano. Por esta razão, Ratzinger legou a Bergoglio um tema e um material bruto que foi, por sua vez, minuciosamente trabalhado pelo atual Papa. Com novas sensibilidades e um tino pastoral mais acurado, o texto oferecido à Igreja e ao mundo tem as marcas próprias deste que vem surpreendendo desde o início do seu pontificado.

A Exortação é considerada por alguns como um texto muito longo e que aborda uma miríade de assuntos, embora focada na temática da nova evangelização. Transparece no texto a preocupação de incorporar e dar respostas a problemáticas vividas por Igrejas locais. Uma novidade, certamente, são os 18 números dedicados ao tema da homilia, o que, aliás, é uma preocupação não tão recente na Igreja.

Está claro que a Exortação Apostólica procura reatar com as grandes diretrizes do Concílio Vaticano II, embora perdure o debate sobre a “continuidade” ou “descontinuidade” do Vaticano II e do Papa Francisco em relação à tradição da Igreja. Além disso, ganha relevo, subliminarmente, o magistério eclesiástico latino-americano, especificamente Aparecida.

As análises sobre a Exortação Apostólica Evangelli Gaudium estão em andamento e, certamente, levará mais algum tempo para que se tenha uma visão mais ampla e menos conjuntural sobre o seu significado. Assim mesmo, alguns temas se sobressaíram nas análises publicadas até agora. Na Conjuntura da Semana que aqui oferecemos, debruçamo-nos exclusivamente sobre dois deles: um mais interno à Igreja e o outro mais dialogante com a sociedade. Um primeiro ponto aborda a pretendida reforma do papado e a colegialidade, com vistas a dar maior autonomia às Igrejas locais e nacionais. Uma maior descentralização está entre as preocupações de Francisco, como se pode perceber na reforma da cúria romana que está protagonizando. Quer uma cúria que seja mais um serviço às Igrejas locais e não sua substituição.

Num segundo momento, vamos reunir as análises no tocante ao capítulo econômico da Exortação Apostólica. O tema em si não é novo. A novidade, possivelmente, reside na maneira como enfoque o tema e o convite a encarar o mesmo a partir de uma nova abordagem. Alguns analistas relacionam a análise da crise econômica feita por Francisco com aquela feita por Karl Polanyi que, por sua vez, segundo Luiz Gonzaga Belluzzo, sofreu influências da visão econômica cristã.

A circunscrição a estes dois temas se dá, além disso, por duas outras razões (a primeira razão é que um é mais eclesial e o outro social): em primeiro lugar, por uma questão prática, não seria conveniente abranger muito mais aspectos; em segundo lugar, estes dois temas retomam elementos centrais e inovadores do Concílio Vaticano II. Vale lembrar que a perspectiva adotada pelos padres conciliares para as questões econômicas e sociais representa uma inflexão em relação à visão reinante até então. Evidentemente, outros temas para análises são possíveis.

Para uma conversão pastoral, a colegialidade

Em sua nova Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, o papa Francisco expressou o seu desejo por uma reforma do papado, por uma experiência eclesial que priorize a colegialidade, que dê liberdade para que as Igrejas particulares possam atuar respeitando suas especificidades. Trata-se, portanto, de uma visão de Igreja que confia e que deposita em seus bispos, organizados em suas conferências episcopais, maior autonomia para que a mensagem cristã continue ecoando pelo mundo, sem se limitar em razão dos processos burocráticos que concentram o poder em Roma, mas aberta para uma relação de irmandade na fé, com uma descentralização do poder.

No fundo, Francisco retoma o que já havia apontado na entrevista que concedeu para a revista La Civiltà Cattolica, quando, ao falar das estruturas burocráticas do Vaticano, afirmou: “Os dicastérios romanos estão a serviço do Papa e dos bispos: têm que ajudar as Igrejas particulares e as conferências episcopais. São instâncias de ajuda. Mas, em alguns casos, quando não são bem entendidos, correm o risco de se converterem em organismos de censura. Impressiona ver as denúncias de falta de ortodoxia que chegam a Roma. Penso que quem deve estudar os casos são as conferências episcopais locais, às quais Roma pode servir de valiosa ajuda. A verdade é que os casos são tratados melhor no próprio local. Os dicastérios romanos são mediadores, não intermediários nem gestores”.

Agora, no número 16 da Evangelii Gaudium, o Papa confirma que “não se deve esperar do magistério papal uma palavra definitiva ou completa sobre todas as questões que dizem respeito à Igreja e ao mundo. Não convém que o Papa substitua os episcopados locais no discernimento de todas as problemáticas que sobressaem nos seus territórios. Neste sentido, sinto a necessidade de proceder a uma salutar ‘descentralização’”. E no número 32 do mesmo documento, fala em ‘conversão do papado’ para que possa manter fidelidade ao ministério incumbido por Jesus Cristo e às “necessidades atuais da evangelização”.  

Na avaliação do papa Francisco, “o Concílio Vaticano II afirmou que, à semelhança das antigas Igrejas patriarcais, as conferências episcopais podem ‘aportar uma contribuição múltipla e fecunda, para que o sentimento colegial leve a aplicações concretas’. Mas este desejo não se realizou plenamente, porque ainda não foi suficientemente explicitado um estatuto das conferências episcopais que as considere como sujeitos de atribuições concretas, incluindo alguma autêntica autoridade doutrinal”. Disso, conclui que “uma centralização excessiva, em vez de ajudar, complica a vida da Igreja e a sua dinâmica missionária”.

Essa retomada do Concílio Vaticano II, que aparece na exortação do Papa, já havia sido apontada pelo professor Sérgio Ricardo Coutinho, presidente do Centro de Estudos em História da Igreja na América Latina (CEHILA-Brasil), quando foi anunciada a criação do conselho dos oito cardeais. Em um artigo publicado em abril deste ano, intitulado “A colegialidade de Francisco e a opção pelo modelo jesuítico”, Coutinho apresentou aspectos históricos referentes ao debate sobre a colegialidade, ocorrido nas vésperas do período conciliar: “Durante a fase preparatória do Concílio, havia um forte apelo pela descentralização e reforma da Cúria romana. Nesse tempo (1959-1962), várias razões eram apresentadas para a atitude negativa de muitos bispos em relação à Cúria. Para alguns, ela era a barreira entre o episcopado e o Papa. Outras a viam como arbitrária, autocrática e acima dos bispos”.

Ao retomar tais elementos, Francisco quer imprimir à Igreja uma verdadeira conversão pastoral, ou seja, quer favorecer elementos de mudanças que são cruciais para tornar a experiência eclesial mais autêntica, simples e aberta em prol da missão evangelizadora. Uma reportagem de Matteo Matzuzzi, publicada pelo jornal Il Foglio, apresenta algumas chaves interpretativas dadas pelo historiador do cristianismo, Giovanni Filoramo. O historiador avalia que “a conversão do papado, da qual Francisco fala, deve ser interpretada no sentido forte, e não só como um vício retórico. O pontífice diz claramente que é preciso dar soberania às conferências locais. E é isso que o Concílio queria”. Em seguida, acrescenta que “Bergoglio ressalta que há a necessidade de que o anúncio seja capaz de se adaptar a todas as culturas. Portanto, estamos diante da retomada de passagens do discurso com o qual João XXIII abriu o Vaticano II em outubro de 1962. Volta a se fazer sentir, de modo forte, a questão da relação entre anúncio e cultura, ou, melhor, entre anúncio e culturas”. Ou seja, o Papa deseja que conferências locais se responsabilizem em zelar pela resolução dos problemas culturais de seu mundo.

Na opinião do jornalista Sandro Magister, que comumente escreve análises mais críticas às posturas avançadas do papa Francisco, são justamente a promessa de maior autonomia às conferências episcopais nacionais e um maior espaço para as diversas culturas os pontos que mais distinguem a Evangelii Gaudium do magistério dos papas anteriores. Francisco não parece dar tanto peso às reticências dos papas que o precederam: João Paulo II e Bento XVI.

Segundo Magister, Bento XVI, quando ainda era o cardeal Ratzinger, chegou a afirmar em uma entrevista intitulada “Informe sobre a fé”, em 1985, que não concordava que “a Igreja católica se convertesse em ‘uma espécie de federação de Igrejas nacionais”.

Para reforçar o argumento pró-Ratzinger, Magister transcreve uma parte da entrevista na qual o cardeal alemão argumenta: “É muito bonito decidir sempre conjuntamente’, mas, ‘a verdade não pode ser criada como resultado de votações’, seja porque ‘o espírito de grupo, talvez a vontade de viver em paz, ou inclusive o conformismo, conduzem a maioria a aceitar as posições de minorias audazes e determinadas a irem numa direção muito precisa’, ou porque, ‘a busca do ponto de encontro entre as várias tendências e o esforço de mediação dão lugar, muitas vezes, a documentos anódinos e insossos’”.

E para desprestigiar a ideia de autonomia aos episcopados, defendida por Francisco, Magister cita o exemplo atual da Alemanha, “onde bispos e cardeais de primeiro nível estão se confrontando publicamente sobre as questões mais diversas, desde os critérios de administração das dioceses até a comunhão aos divorciados recasados, neste último caso antecipando e forçando soluções sobre as quais se debruçará o duplo Sínodo dos Bispos de 2014 e 2015”.

Estranhamente, no entanto, Sandro Magister se esquece de relacionar o desejo de reforma do papado, de descentralização e de colegialidade ao que foi e significa o Concílio Vaticano II, ao qual, até o momento, Francisco parece estar muito mais interessado do que seus dois últimos antecessores.

Capítulo econômico: marxista, comunista, polanyiano ou profético?

Um dos capítulos da Exortação Apostólica que mais tem atraído a atenção da imprensa laica mundial é o capítulo relativo à vida econômica. As opiniões se dividem entre elogios generosos e ásperas críticas. Algumas análises se perguntam se o Papa Francisco é “socialista” ou “comunista”, ao passo que outras deixam claro que o Pontífice não entende nada de economia e que suas análises sobre o sistema financeiro internacional são extemporâneas. Mas, como analisa atentamente em um artigo sobre a Exortação Luiz Gonzaga Belluzzo, “a mídia lhe dedicou [à Exortação] editoriais medíocres e comentários banais”.

Belluzzo, por sua vez, encarrega-se de situar a Exortação Apostólica na continuidade da linha aberta pelos grandes documentos e figuras do Ensino Social da Igreja: as encíclicas Rerum Novarum, de Leão XIII, Mater et Magistra e Pacem in Terris, de João XXIII. E na linha aberta pelo Concílio Vaticano II. Todas estas elas e também a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, abordam “as vicissitudes e alegrias da vida cristã no mundo contemporâneo”. A bem da verdade, ele acaba elevando a Exortação Apostólica do Papa Francisco à categoria das encíclicas sociais do magistério anterior da Igreja.

Mas o sítio francês de informação Rue 89 foi o mais ousado em sua definição do Papa Francisco. Em um artigo consagrado à Exortação Apostólica, o sítio diz que agora não há mais dúvidas: “o Papa Francisco é socialista”. E recorre, para defender sua tese, ao texto da própria Exortação Apostólica, citando o n. 53 da mesma: “Assim como o mandamento ‘não matar’ põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer ‘não a uma economia da exclusão e da desigualdade social’. Esta economia mata”.

Uma análise menos bombástica e mais instigante é a que faz a norte-americana Heather Horn. Ela propõe uma comparação não com Karl Marx, mas com o seu xará húngaro Karl Polanyi, autor do famoso livro A Grande Transformação, escrito originalmente em 1944, e no qual perscruta “as origens da nossa época”. Polanyi é conhecido particularmente por uma ideia explicada nesse livro, lembra Heather Horn: “a distinção entre uma ‘economia que está incorporada nas relações sociais’ e ‘relações sociais que estão incorporadas no sistema econômico’”. É o que a jornalista resume numa frase: “A economia deve servir à sociedade e não o contrário”.

A tese central de Polanyi consiste em afirmar que a atividade econômica começou como uma atividade entre outras, mas progressivamente foi se destacando e sobrepondo às demais atividades, subjugando-as aos seus interesses e impondo seus valores ao conjunto da sociedade. Aos poucos, diz Heather, “enquanto o pensamento baseado no livre mercado se estendia por toda a sociedade, os seres humanos e a natureza passaram a ser vistos como mercadorias denominadas ‘trabalho’ e ‘terra’. A ‘economia de mercado’ transformou a sociedade humana em uma ‘sociedade de mercado’”. Com outras palavras, a economia, de servidora da sociedade tornou-se sua senhora. Ou ainda, “em vez de o mercado existir para ajudar os seres humanos a viverem uma vida melhor, os seres humanos ordenam as suas vidas para se encaixarem na economia”, conclui Heather.

Este é o elo de ligação com a Exortação Apostólica de Francisco, segundo Heather: “O Papa Francisco, na sua exortação, notavelmente não pede uma completa revisão da economia – pondera ela. Ele não fala de revolução, e certamente não há nenhum discurso marxista sobre inexoráveis forças históricas. Ao contrário, Francisco denuncia, especificamente, o domínio absoluto do mercado sobre os seres humanos. Ele não denuncia a existência do mercado, mas a sua dominação”.

E Heather cita, para apoiar sua tese, as palavras do Papa Francisco. Denunciando a primazia do mercado, do consumo e do dinheiro sobre o ser humano, o Papa, efetivamente, não tem papas na língua. Nos números 53 e 55, Francisco diz: “Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. [...] O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora. [...] Uma das causas desta situação está na relação estabelecida com o dinheiro, porque aceitamos pacificamente o seu domínio sobre nós e as nossas sociedades. A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano. Criamos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32, 1-35) encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura duma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano. A crise mundial, que investe as finanças e a economia, põe a descoberto os seus próprios desequilíbrios e sobretudo a grave carência duma orientação antropológica que reduz o ser humano apenas a uma das suas necessidades: o consumo. [...] Não ao dinheiro que governa em vez de servir”.

E Heather chama a atenção para um dos elementos contidos no parágrafo acima e que diz respeito a uma análise peculiar de Francisco sobre a crise financeira mundial. Diz ela: “Não há nada de novo em dizer que a crise financeira veio de uma falta de regulação. Essa é uma análise bastante popular. Mas o que o Papa Francisco está dizendo é mais polanyiano, remetendo à ideia de que o ponto de inflexão tem a ver com a relação entre o mercado e a sociedade/humanidade, e uma coisa está subordinada à outra. Assim como Polanyi argumentou que a extensão da economia de mercado em todo o globo (através do padrão-ouro) foi a causa da Primeira Guerra Mundial (e você terá que retomar o livro original para entender isso), Francisco está argumentando que o fato de não manter a humanidade no centro da nossa atividade econômica foi a causa da crise financeira”.

Dito com outras palavras: a crise financeira se dá não somente por uma falta de regulação (questão, aliás, para a qual chamávamos a atenção nas análises que fizemos sobre a crise financeira mundial, que eclodiu em 2008), mas também e, sobretudo, por ter subtraído o ser humano do centro da atividade econômica.

Retorno às origens do cristianismo

Luiz Gonzaga Belluzzo, na entrevista especial que concedeu à IHU On-Line, também concorda em que as reflexões de Francisco estão em grande sintonia com a tese central de Polanyi. Ou, antes, o contrário. O economista brasileiro afirma que uma antropologia econômica próxima da cristã, “está presente em vários autores, em Marx inclusive, mas em Polanyi também. Neste último mais ainda, porque era um pensador católico, cuja inspiração era católica. Ele toma o ponto de vista católico e cristão para fazer sua análise econômica, por exemplo, quando fala do 'moinho satânico', ou dos mandos e danos provocados pela tentativa de fazer com que a sociedade se mova de acordo com os princípios do mercado autorregulado. Então, ele fala da terra, do trabalho e do dinheiro, porque diz que estes devem servir de meio para o enriquecimento humano, de submissão ao mecanismo diabólico que estraçalha a vida do ser humano concreto”.

O Papa Francisco, embora se coloque na esteira (e recupere) do Vaticano II e também do Ensino Social da Igreja, na realidade remonta às origens do cristianismo e ao Evangelho. Os valores comunitários, da solidariedade, diz Belluzzo, “estão no espírito do cristianismo primitivo”. Sua análise da situação econômica atual, parte, pois, de “um ponto de vista em que a questão central é a realização de um projeto que vá em direção da comunidade cristã: o amor ao próximo, a igualdade, porque o cristianismo é a religião que introduziu essa questão de igualdade entre os homens, ou seja, de que todos são dignos do amor de Cristo. Está muito claro no texto do papa que a questão central a ser considerada é a dignidade da pessoa humana, que foi feito à imagem e semelhança de Deus. São esses princípios que o papa está repetindo ao longo de todo o documento da Evangelii Gaudium”.

Belluzzo explicita a relação entre a análise da crise atual de Polanyi e Francisco. “O papa faz uma análise contemporânea. Então, está dizendo que o capitalismo deixado à sua própria sorte, sem os freios — ele usa a expressão “autorreferencial” — é um sistema que se move só em função dos seus próprios propósitos. Então, quando ele fala do amor pelo dinheiro, está falando que essa é a forma, por excelência, de existência do capitalismo. Ou seja, o capitalismo expurga todas as outras dimensões da vida humana, como outros já perceberam”.

Uma sensibilidade latino-americana no trato do tema do desenvolvimento econômico encontra-se na primeira parte do n. 54, onde o Papa Francisco diz que o crescimento econômico por si só não é garantia de maior justiça e inclusão sociais. Temos exemplos disso de sobra em nosso continente e em nosso país. Diz: “Neste contexto, alguns ainda defendem as teorias da recaída favorável que pressupõem que todo crescimento econômico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Essa opinião, que nunca foi confirmada pelos fatos, exprime uma confiança vaga e ingênua na bondade daqueles que detêm o poder econômico e os mecanismos sacralizados do sistema econômico reinante. Entretanto, os excluídos continuam esperando”.

As críticas à análise econômica do Papa Francisco, como já dissemos, são duras a ponto de alguns analistas considerarem-na ingênua e idílica. Tim Worstall, colaborador da revista econômica americana Forbes, defende que o Papa “não compreendeu o mundo no qual vivemos”. “As desigualdades diminuem à medida que as pessoas encontram sociedades fundadas sobre a economia de mercado, a pobreza diminuiu nos últimos 30 anos no ritmo mais rápido que a espécie humana já conheceu. Tudo isto aconteceu porque bilhões de pessoas foram libertadas das exigências das versões mais bizarras do coletivismo e foram capazes de encontrar a melhor máquina para produzir riqueza jamais criada, um certo grau de livre mercado”. Já Samuel Gregg, da National Review americana, estima que os predicados sobre os quais o Papa funda sua crítica não são justificados. Para ele, não há nenhum país do mundo no qual o mercado seja absolutamente autônomo, e as regras e sistemas de regulação aplicados à economia já são numerosos. Ou seja, será que o Papa entende de economia?

Ouvir a mensagem

Se a autoridade do Papa Francisco é, para alguns, questionável e extemporânea do ponto de vista da economia, será que tem algo então a dizer às mulheres e homens do nosso tempo? Há quem esteja convencido de que sim. Mas, neste caso, onde residiria sua autoridade?

Há uma concordância em que o Papa Francisco não está interessado em fazer uma análise e uma crítica das teorias econômicas vigentes, mas em oferecer um ponto de vista “posto no nível do Evangelho”, como afirma Belluzzo. Desta maneira, buscar “reafirmar os princípios que devem reger a vida cristã, dadas as condições em que os homens vivem e se desenvolvem no mundo contemporâneo. [...] O papa diz claramente que não irá fazer um debate teórico sobre economia. Ele vai dizer o que pensa de certas características da vida contemporânea, as quais não parecem compatíveis com a vida cristã”.

A Igreja, como “perita em humanidade”, expressão utilizada por Paulo VI em 1965 em seu discurso na ONU, está em íntima sintonia com os valores que emanam do Evangelho e da tradição profética de Israel. “O Papa Francisco não está interessado principalmente em um debate sobre a ‘criação de riqueza’. Ele se posiciona em uma tradição que remonta aos profetas de Israel, cujo decisivo teste moral era o bem-estar dos últimos e mais vulneráveis membros da sociedade”, escreve Robert Ellsberg, editor da Orbis Books, do movimento missionário católico Maryknoll.

Talvez por isso, “o Papa Francisco compreende melhor a economia do que a maioria dos políticos”, e “está na vanguarda do movimento Occupy Wal-Street”, escreve Heidi Moore, do jornal The Guardian.  “O ponto crucial – prossegue –, que o Papa Francisco perfeitamente identificou é que as desigualdades sociais são o maior desafio econômico do nosso tempo, não apenas para os pobres, mas para todo o mundo (...). As desigualdades de rendas são um elemento determinante para a retomada econômica”.

Embora não seja perita em economia, faria bem em ouvir a mensagem da Igreja, defende o empresário e católico francês Pascal-Emmanuel Gobry. Ele, que se descreve como um católico liberal (“pro free-market”), avalia, ao final de uma reflexão sobre a posição da Igreja e dos católicos sobre a crise financeira, que “há (na Igreja) lugar para o discernimento e o debate. Mas penso que, como católicos, somos convocados a levar a mensagem do Papa a sério, humildemente, a nos deixar questionar e a integrar essa mensagem na nossa maneira de pensar, sob a conduta do Espírito Santo”.

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