Por amor aos animais: Ética cristã, ação consistente

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12 Março 2014

Charles Camosy, professor assistente de ética cristã na Universidade de Fordham (EUA). Camosy gentilmente respondeu a algumas perguntas sobre seu último livro “For Love of Animals: Christian Ethics, Consistent Action” [Por amor aos animais: Ética cristã, ação consistente].

Camosy publicou artigos na Revista Americana de Bioética, na Revista de Medicina e Filosofia, na Revista da Associação Católica de Saúde, dos Estados Unidos, além de colunas nos jornais San Francisco Chronicle e Washington Post, e na Revista Commonweal.

Seus outros dois livros são “Too Expensive to Treat? Finitude, Tragedy, and the Neonatal ICU [Muito caro para tratar? Finitude, tragédia e UTI neonatal] (Eerdmans), premiado em 2011 pela Catholic Media Association (EUA) e “Peter Singer and Christian Ethics: Beyond Polarization” [Peter Singer e a ética cristã: Além da polarização] (Cambridge), aclamado como o “melhor livro” de 2012 pela ABC Religion and Ethics.

Camosy recebeu o prêmio Robert Bryne 2012-2013 do Fordham Respect Life Club, e recentemente foi selecionado para participar no grupo internacional de trabalho chamado Contending Modernities, que busca pôr em diálogo o liberalismo secular, o catolicismo e o Islã, tendo presente variados assuntos éticos de difícil abordagem.

A entrevista foi publicada pelo blog Catholic Ecology, 03-11-2013. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis a entrevista.

Qual a razão que fez lidar com questões morais relativas aos católicos e a nossa relação com o mundo animal?

Nem sempre isso foi uma preocupação para mim. Cresci na zona rural no estado de Wisconsin, onde caçar e comer animais era um modo de viver. No entanto, durante os estudos de pós-graduação minha concepção mudou em vista dos argumentos e das evidências. Então concluí que comer carne de fazendas industriais é algo moralmente inaceitável. As formas terríveis com que os mais de 50 bilhões de animais não humanos são torturados e abatidos nas fazendas é algo de que nenhuma pessoa decente deveria participar. E cada vez fica pior. Com as novas biotecnologias, hoje somos geneticamente capazes de modificar estes animais de forma que eles sintam fome constante e comam tanto quanto podem. Como se já não fosse difícil o suficiente, hoje eles vivem suas deploráveis vidas sem mesmo ter o consolo modesto de um estômago cheio. É vergonhoso e pecaminoso que grandes corporações tratem animais desse jeito no intuito de lucrar, mas elas só fazem assim porque nós desejamos gastar dinheiro em carne na forma como fazemos: ou seja, sem pensar no bem-estar dos animais que chegam a nossas mesas. Quando cooperamos com tal maldade, nosso comportamento também é vergonhoso e pecaminoso.

Qual a particularidade que o pensamento católico traz a este diálogo?

A doutrina católica sobre os males do consumismo, e sobre a cooperação com o mal, não poderia ser mais clara. Precisamos resistir às estruturas sociais do consumismo e evitar a participação formal e material no grave mal do tipo que ocorre nas fazendas industriais. Uns dizem que o “domínio” que Deus nos deu no Gênesis permite-nos fazer o que quisermos com os animais, porém isso simplesmente não é verdade. O domínio é entendido como uma administração não violenta: Deus explicitamente nos dá plantas verdes para comermos, não animais. Em Gênesis 2, Deus traz os animais a Adão “porque não é bom que o homem esteja só”. O entendimento bíblico de nossa relação com os animais é o de que eles devem ser nossos companheiros, não nosso alimento. Tal como mostro no livro, esta compreensão foi afirmada pelo cardeal Ratzinger pouco antes de se tornar Papa Bento XVI. O Catecismo da Igreja Católica insiste que nós “devemos” aos animais bondade e que apenas podemos causar-lhes sofrimento e morte nas situações de “necessidade”. O Papa Francisco diz apoiar o movimento slow food, e eu não me surpreenderia se ele investisse na doutrina da Igreja sobre os animais durante o seu período como o bispo de Roma.

Deus originalmente nos deu uma dieta sem carne no primeiro capítulo do Gênesis, o qual é considerada um plano diretor para a humanidade de nossa relação com Deus e a natureza. Foi somente após a aliança de Deus com Noé que fomos permitidos comer carne. Qual a significação que isso tem para a opinião dos católicos quanto ao vegetarianismo e ao veganismo?

O estado ideal para a humanidade, como a Bíblia deixa claro, é o vegetarianismo não violento. As coisas mudam somente depois que o pecado entra no mundo, na maior parte sob a forma de violência. Embora esteja claro que a participação formal nas fazendas industriais é um sério mal, a pergunta permanece: “Afinal, devemos comer carne?” E quanto à carne que vem de animais tratados com bondade? Suspeito que este debate esteja no mesmo no mesmo patamar de outros tipos de debates cristãos sobre violência. Para muitos cristãos, Jesus parece estar apontando para uma vida de pacifismo completamente sem violência, mas outros cristãos afirmam que uma vida assim não é possível até que o Reino de Deus venha em sua plenitude. Eu acho que estou no segundo grupo, e admito que a violência seja necessária em situações raras, como na proteção de uma vida humana inocente. Mas como diz o catecismo, não temos a permissão para matar animais ao menos que “precisamos” – e esta, tal como o engajamento em outras formas de violência, somente ocorreria em casos muito raros, especialmente hoje.

Críticos dos católicos que adotam dietas veganas/vegetarianas como uma doutrina formal apontam para o fato de que Cristo comeu carne e peixe. Como os católicos proponentes de uma dieta sem carne incorporam isto dentro da doutrina moral católica?

Para início de conversa, é interessante notar que não vemos Jesus comendo carne em nenhum momento nos Evangelhos. Nenhuma vez. Aceito esta ideia em passagens mais difíceis (Jesus e os porcos, o sonho de Pedro, Paulo falando sobre bois, etc.) do livro, mas parece claro que Jesus e seus companheiros no mundo antigo precisavam comer peixe para obter uma quantia saudável de proteínas. No entanto, não é de todo claro o que isso significa para a maioria de nós nos países ocidentais desenvolvidos. Para nós, comer carne dificilmente poderia aumentar o nível de “necessidade”, dadas todas as alternativas que, hoje, existem.

Fale-nos um pouco mais algumas sobre questões relativas às fazendas industriais. Li algo sobre as preocupações ambientais relacionadas com as instalações de produção de carne em grande escala (um termo que em si nos diz que algo não está certo em nossa visão para com os animais). Quais são as outras preocupações? Estas preocupações não poderiam ser atenuadas caso comprássemos carne de fazendas locais, amigas dos animais?

Já falei um pouco sobre isso, e comprar carne de fazendas locais é uma opinião muito, muito melhor. Não há dúvida. Em geral, fizemos muito melhor ao comprar localmente do que simplesmente nos entregar no consumo e escolher o preço mais barato. Precisamos ficar mais ligados aos processos pelos quais os alimentos e outros produtos chegam até nós, para ao menos nos certificar de que não estamos formalmente participando neste mal. Esta é uma boa oportunidade para que a Igreja seja a Igreja, e que crie estruturas de comunidade para resistir ao consumismo. Talvez mais paróquias e dioceses pudessem ter programas formais em que alimentos cultivados localmente pudessem ser postos à venda. E estes lugares poderiam se recusar, de todas as formas, a servir carne produzida em fazendas industriais.

Críticos argumentam que, estando os animais abaixo da humanidade em dignidade, não deveríamos considerá-los dentro da questão relativa à esfera da vida, mesmo se uma dieta que inclua carne muitas vezes venha junto de questões de saúde pública e pessoal. Como o senhor encara esta crítica?

Os defensores da vida devem ser especialmente céticos em relação a este raciocínio. Nossos oponentes também tentam minimizar ou ignorar o valor das crianças do pré-natal exatamente porque eles acham a dignidade delas inconveniente. O resultado é uma violência horrível e a morte. Embora os animais não humanos não tenham o mesmo valor que as pessoas humanas, Deus deu a eles um valor muito alto, e não devemos ignorar isto simplesmente porque o achamos inconveniente. O resultado também é uma violência horrível e a morte. Não pensar que os animais tem um valor elevado? Mesmo se rejeitarmos o que o catecismo, a Bíblia e o Papa Bento XVI disseram, consideremos as evidências. Galinhas podem ganhar dos seres humanos no jogo da velha. Porcos podem jogar videogames. Elefantes entendem e lamentam a morte. Golfinhos se reconhecem num espelho. Macacos podem aprender a linguagem dos sinais e mesmo ensiná-la a seus filhotes. Tais seres não são meras coisas com as quais possamos fazer o que bem entendermos. Deus os criou, independentemente de nosso desejo de usá-los e matá-los como mero meio para o nossos fins. É por isso que o catecismo usa a linguagem da justiça ao afirmar que nós devemos-lhes bondade.

Em tese, os católicos podem reduzir o consumo de carne em 14% caso aderíssemos à prática de não comer carne nas sextas-feiras. O que mais poderíamos fazer para melhor compreender e responder às inquietações que o senhor e outros estão levantando?

Curiosamente, muito do que é preciso fazer coincidir com um retorno às práticas tradicionais da Igreja. De modo muito feliz, o cardeal Dolan convidou os católicos a não mais consumirem carne nas sextas-feiras. Talvez devêssemos seguir nossos irmãos e irmãs ortodoxos e parar de comer carne nas quartas-feiras também. Em seguida, se participássemos da tendência crescente de “Segunda sem Carne”, teremos reduzido três terços de carne em nossa dieta. Talvez devêssemos voltar também à prática mais tradicional de evitar carne durante todo o tempo de Quaresma. Isso seria um bom início. Lembremos igualmente que a Igreja antiga proibia estritamente comer carne que fora sacrificada aos ídolos. E dado que a carne produzida em fazendas industriais claramente são sacrificadas ao ídolo do consumismo, deveríamos prestar atenção na sabedoria e evitar tais carnes. Deveríamos substituir tais ídolos em favor de uma relação com o Deus de Jesus Cristo, que nos chama a resistir ao consumismo.

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