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03 Setembro 2012

Os católicos norte-americanos veem em Dolan um cardeal ativo e ativista, muito diferente dos seus antecessores imediatos. Mas eles também veem uma Igreja Católica ainda dominada por uma elite de bispos brancos.

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em Minneapolis-St. Paul, nos EUA. O artigo foi publicado no jornal Europa, 30-08-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Surpreendendo muitos observadores do catolicismo norte-americano, o Partido Democrata também convidou o cardeal de Nova York, Timothy Dolan, para recitar uma oração de bênção na convenção democrata da próxima semana. O presidente dos bispos norte-americanos não será o único a representar os católicos no evento que lança Barack Obama às eleições presidenciais nos últimos dois meses da campanha eleitoral. Também estará Simone Campbell, a irmã responsável por um grupo de religiosas católicas "liberais" chamado Network, que, nos últimos meses, realizou um bus tour [viagem de ônibus] por nove Estados norte-americanos.

O objetivo da visita foi o de chamar a atenção dos políticos (e dos bispos) sobre a emergência da pobreza em uma América que, na ideologia dos republicanos, é cada vez mais presa do "Evangelho da prosperidade".

A notícia da presença do cardeal Dolan em Charlotte é uma péssima surpresa para os católicos republicanos, que contavam com a presença de Dolan em Tampa como o sinal inequívoco da investidura da hierarquia norte-americana à chapa Romney-Ryan, ou seja, como uma bênção católica do primeiro candidato mórmon da presidência, Romney, e como uma bênção das políticas sociais radicais propostas pelo ideólogo do partido, Paul Ryan.

Ainda não está resolvida a questão teológica sobre o pano de fundo da identidade cultural do GOP [Grand Old Party, ou Partido Republicano] de hoje, com um candidato mórmon ciente da aura de suspeita que o mormonismo ainda desperta em muitos norte-americanos.

Muitos esperavam que a bênção de Dolan pudesse resolver a questão para um partido de almas cada vez mais radicais do ponto de vista moral e religioso (o Tea Party e os libertários, os evangélicos, os neocons e a espécie já extinta dos republicanos liberais).

Eu não tenho dúvida das simpatias de Dolan e de grande parte dos bispos pela chapa republicana e especialmente pelo candidato a vice-presidente, Paul Ryan. Mas, depois do convite dos democratas aceito pelo cardeal Dolan, será mais difícil acusar os democratas e o presidente Obama de laicismo ou pior, de anticatolicismo. Entre 2010 e 2012, a Conferência dos Bispos dos EUA havia declarado guerra contra o governo Obama em nome da luta contra algumas medidas da lei de reforma da saúde, mas o Partido Democrata ainda recolhe muitos dos votos dos católicos norte-americanos e cada vez mais os votos dos católicos não brancos e de imigração recente, sem falar dos católicos afro-americanos.

Outra questão, muito mais complicada tanto para os democratas norte-americanos quanto para os partidos políticos modernos, é como dar representação (ou seja, com qual pessoal político) para um catolicismo cada vez menos "social" e cada mais concentrado, ao menos em nível doutrinal, em uma série específica de "valores inegociáveis". Sobre estes últimos valores, a retórica moralista dos republicanos encontrou nos últimos 30 anos um acordo fácil, embora superficial, com as demandas dos bispos e do magistério oficial da Igreja.

Não é desconhecido aos católicos norte-americanos que o Partido Republicano é cada vez mais um partido de brancos: o sentimento anti-Obama não é estranho ao ressentimento da ex-maioria branca dos EUA pelo fato de ser liderada e representada por um afro-americano nascido no Havaí, crescido na Indonésia e educado na Columbia e em Harvard. Nesse sentido, o confronto Obama-Dolan é um confronto ideológico e de valor, mas que também encarna o confronto entre duas elites diversas à frente dos EUA de hoje.

Os católicos norte-americanos veem em Dolan um cardeal ativo e ativista, muito diferente dos seus antecessores imediatos. Mas eles também veem uma Igreja Católica ainda dominada por uma elite de bispos brancos: já há bispos católicos latinos e afro-americanos, mas, para eles, ainda percebidos como representantes de uma minoria dentro da Igreja norte-americana, é muito mais difícil ser portadores de uma mensagem política que deve ser, ao mesmo tempo, cultural e contracultural.

O presencialismo do presidente dos bispos norte-americanos, o cardeal Dolan, no palco de todas as duas convenções eleitorais animou ainda mais o debate dentro de um catolicismo que não só é ideologicamente polarizado, mas também dividido em tendências culturais complexas, não imediatamente redutíveis ao binômio conservador versus liberal, e portador de múltiplas descendências etnolinguísticas. O catolicismo do qual Dolan se faz portador é o de matriz irlandesa, que deu no início do século norte-americano alguns dos seus padres, políticos e policiais mais famosos.

Mas o catolicismo do início do século XXI tornou-se muito mais plural, antes ainda que pluralista. O catolicismo dos afro-americanos, dos latinos e dos asian-americans não se encontra sempre à vontade com esse presencialismo, que visa a impor à cena política nacional o poder da maior Igreja nacional norte-americana: mas certamente também para impor à cena da Igreja mundial a presença do cardeal Dolan.

De um lado, os sinais de americanização da Cúria Romana fazem parte desse cenário do catolicismo e da sua cultura política nas décadas por vir; de outro lado, seria preciso uma Cúria Romana politicamente inepta como a atual para permitir que um cardeal norte-americano como Dolan se credite como candidato às próximas eleições de risco na Igreja mundial.

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