México. As raízes do movimento que levou AMLO ao topo do poder. Artigo de Eduardo Febbro

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03 Julho 2018

“Se neste domingo a vitória de López Obrador for confirmada nas eleições presidenciais, o Morena será, depois de Evo Morales na Bolívia (Movimento ao Socialismo), o segundo partido movimento-social a chegar ao poder no século XXI”. A reflexão é de Eduardo Febbro, em artigo publicado por Página|12, 01-07-2018. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

O México tem uma virtude secreta: nas últimas duas décadas, tem sido o país onde surgiram os movimentos políticos ou sociais mais importantes da América Latina. À meia-noite do dia 31 de dezembro de 1993, o zapatismo irrompeu no cenário continental com um grupo de homens e mulheres encapuzados que se propuseram a não só defender os direitos indígenas na região de Chiapas, mas também a questionar o liberalismo mundial. Com o Subcomandante Marcos no comando, os zapatistas do EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional) assinalaram um caminho que ainda é válido, apesar do esquecimento voluntário a que os setores progressistas da América Latina os condenaram.

Em 2011 e 2012, logo depois do assassinato de seu filho junto com outros jovens em Cuernavaca, o poeta Javier Sicilia transformou sua dor em uma causa coletiva de todas as vítimas da violência e forjou o Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade. Foi, depois das Mães da Praça de Maio, a vanguarda mais massiva que mobilizou milhões de mexicanos em defesa dos direitos humanos. Sicilia deu rosto e identidade às dezenas de milhares de vítimas da guerra contra o narcotráfico.

Em 2010 e após uma série de reuniões entre membros da esquerda mexicana começou a se formar o partido que neste domingo pode ganhar as eleições presidenciais no México com o seu candidato Andrés Manuel López Obrador: o Morena, Movimento pela Regeneração Nacional. Intelectuais de extraordinária moralidade, como Fernando del Paso ou Paco Ignacio Taibo II, estavam no início desta plataforma que é, hoje, um ovni político único na América Latina.

O passo para o seu nascimento real foi dado pelo próprio López Obrador quando, em setembro de 2012, anunciou: “Vou dedicar todo o meu trabalho à causa da transformação do México a partir do espaço representado pelo Morena”. Com isso, Obrador rompeu com o PRD, o Partido da Revolução Democrática, com o qual conquistou o Governo da Cidade do México e participou de duas eleições presidenciais (2006, quando perdeu por apenas 0,56% contra Felipe Calderón – do PAN –, e 2012, quando perdeu para Enrique Peña Nieto).

A partir de então, se aceleraria o primeiro projeto do ex-líder do PRD, que consistia em articular um grupo com duas cabeças: simultaneamente partido para ganhar as eleições e movimento fincado nas questões sociais que respaldasse o primeiro. Paco Ignacio Taibo trabalhou até 2015 como secretário de Arte e Cultura do Comitê Executivo Nacional do Movimento Nacional de Regeneração.

Apesar das divergências que surgiram entre ele e Obrador, Taibo reconhece hoje que AMLO (conhecido também pelo apelido de “el Peje”) “conseguiu um projeto que equilibra três coisas: a guerra contra o narcotráfico, a guerra contra a corrupção e a guerra contra o projeto neoliberal que tem sido muito prejudicial para o México”. A carreira de AMLO é tão inseparável da história do México quanto do Morena, que ele chama de “a quarta transformação do México”.

Originário de Tabasco, López Obrador deu seus primeiros passos na política no PRI (Partido Revolucionário Institucional). Abandonou este partido e entrou no PRD. Em 2000, saltou do âmbito local de Tabasco para o nível nacional quando foi eleito prefeito da Cidade do México. As duas derrotas em eleições presidenciais, 2006 e 2012, levaram-no a sair do sistema e configurar um movimento de raízes jovens e populares.

O Morena é um produto dessas histórias cruzadas. Mal se constituiu em 2010-2011, o movimento deu um salto qualitativo de adesões: 5 milhões de filiados, mais de dois mil comitês municipais, 38 mil grupos de base e mais tarde e seguindo os passos do Podemos na Espanha, centenas de comitês de análise e ação com o objetivo de “transformar a realidade”.

Nos estatutos de sua criação, deu-se bastante ênfase na ruptura com o modelo de gestão perpetuado pelo PRI e pelo PAN, os dois partidos de governo. “No Morena não será permitido nenhum dos vícios da política atual: o influencismo, o amiguismo, o nepotismo, o patrimonialismo, o clientelismo, a perpetuação nos cargos, o uso de recursos para impor ou manipular a vontade dos outros, a corrupção e o entreguismo”.

Para chegar aos altos índices que das eleições do domingo, 1º de julho (mais de 20 pontos em relação às coalizões do PRI e do PAN), López Obrador não hesitou em aplicar o princípio de que qualquer acordo, incluindo o contraditório, é bom para vencer. AMLO rompeu parte dos seus laços com os setores progressistas quando se aliou ao PES (Partido Encontro Social), o ultra-conservador e evangélico partido organizado segundo o modelo político dos pentecostais do Brasil. Mas na aliança presidencial Juntos Faremos História, também estão os socialistas do Partido do Trabalho.

O Morena tem sido tanto um catalisador social quanto um destruidor da esquerda mexicana. Em junho de 2017, Obrador fechou a possibilidade de fazer uma aliança de progressistas com o PRD para estas eleições. Sua ideia de ruptura com o passado o levou a dizer “não” ao seu antigo partido porque fazia parte da “máfia do poder”.

As etapas da vitória vão de 2010, passam por 2014, quando em julho desse ano o Instituto Nacional Eleitoral (INE) aceitou o registro do Morena como partido político e bifurcam em 2015, quando foi eleito presidente do Morena e de sua Tabasco natal convocou imediatamente à desobediência civil quando a CFE, a Companhia Federal de Eletricidade, aumentou as tarifas de energia.

Em Tabasco, Obrador ativou as “brigadas” do Morena que, naquele ano de aumento das tarifas, ajudavam as pessoas a evitar o corte do fornecimento de energia por falta de pagamento. De 2015 a 2018, o Morena foi a proa do barco que quebrou o lago congelado da arquitetura política do México.

Com a vitória de López Obrador nas eleições presidenciais, o Morena será, depois de Evo Morales na Bolívia (Movimento ao Socialismo), o segundo partido do movimento social a chegar ao poder no século XXI.

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