Saída de cena do Subcomandante Marcos reflete

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10 Junho 2014

“Queria pedir paciência, tolerância e compreensão às companheiras, companheiros e companheiroas, porque essas serão minhas últimas palavras em público antes de deixar de existir”. Já era madrugada de 25 de maio quando os milhares de milicianos, insurgentes e bases de apoio do EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional), perfilados e encapuzados no centro do caracol de La Realidad, puderam ouvir o discurso do Subcomandante Insurgente Marcos. Marcos falou sobre a morte do zapatista Galeano, assassinado durante ataques paramilitares no dia 2 de maio.

A reportagem é de Júlio Delmanto, publicada pelo portal Opera Mundi, 07-06-2014.

O que ninguém esperava é que a cerimônia de homenagem a mais um combatente que cai desde que o EZLN declarou guerra ao Estado mexicano, em 1º de janeiro de 1994, fosse marcar também a saída de cena de seu porta-voz e principal figura pública. A substituição pelo indígena Moisés, também Subcomandante, representa mais do que o fim de um “personagem”, como o próprio Marcos se define.

Ela é resultado de uma série de transformações pelas quais os neozapatistas passaram desde 17 de novembro de 1983, data em que o movimento foi fundado na Selva Lacandona de Chiapas. Na época, contavam com apenas seis membros – cinco homens e uma mulher, sendo três indígenas e três mestiços – como Marcos, que só chegaria à Selva em 1984.

Segundo ele, os anos transformaram o EZLN de forma múltipla e complexa, e a maioria dos analistas pecou ao se concentrar em apenas um aspecto da mudança: o geracional. Parte dos que começam a assumir o comando do movimento e de seu exército sequer tinham nascido quando ele foi fundado, mas haveria ainda outros aspectos nessa evolução. “O de classe, da origem de classe média ilustrada aos camponeses; o de raça, da direção mestiça à direção plenamente indígena; e o mais importante, o de pensamento, do vanguardismo revolucionário ao mandar obedecendo, da tomada do poder ‘de cima’ à criação do poder de baixo”, apontou o agora ex- porta-voz dos zapatistas.

Para o mexicano Waldo Lao Fuentes, mestrando na USP (Universidade de São Paulo), o surpreendente anúncio deixou margem para uma série de interpretações. Pesquisador da autonomia zapatista, Fuentes ressalta que Marcos era também chefe militar do EZLN, além de ter o papel de se comunicar com a sociedade civil mexicana e internacional. Função essa que vinha sendo compartilhada não só com seu sucessor Moisés, mas também com as Juntas de Bom Governo e com as próprias comunidades, como indica o lançamento da Revista Rebeldia Zapatista, com apenas textos de indígenas. “Uma das características do movimento zapatista é sua capacidade de se reinventar e nos surpreender”, sublinha Fuentes.

O EZLN surgiu no início dos anos 1980, mas trazia fortes traços das formas políticas de luta do final dos 1960 na América Latina. Os militantes eram influenciados pelas concepções guerrilheiras e foquistas (criação de focos de revolução no mundo) que buscavam, através da luta armada, trazer os mais pobres para a luta contra o imperialismo e pela tomada do poder.

Durante três anos, o EZLN teve apenas uma coluna – com 40 combatentes – e permaneceu isolado das comunidades indígenas que o circundavam na selva de Chiapas. Com o tempo, o contato se consolidou e mudou completamente a forma de organização e os objetivos da organização.

Atuando no estado mais pobre do México, com altos índices de desigualdade e pobreza, o EZLN se ampliou rapidamente, chegando a fazer exercícios com cinco mil combatentes no início dos 1990. Com a iminência da aprovação do TLC (Tratado de Livre Comércio) entre Estados Unidos e México, e a piora das condições de vida na região, começou uma longa consulta às comunidades, que optaram pela declaração de guerra divulgada mundialmente no primeiro dia de 1994.

“Na madrugada do primeiro dia do primeiro mês de 1994, um exército gigante, de indígenas rebeldes, baixou à cidade para com seu passo sacudir o mundo”, declarou Marcos em sua derradeira aparição pública. No entanto, mesmo alçados, de armas na mão, os indígenas continuavam invisíveis para os que haviam se acostumado a “olhar de cima”: “Seu olhar se deteve no único mestiço que viam usando passa-montanhas (espécie de gorro que envolve o rosto)”.

“Começou então uma complexa manobra de distração, um truque de magia terrível e maravilhoso, uma maliciosa jogada do coração indígena que somos. A sabedoria indígena desafiava a modernidade em um dos seus bastiões: os meios de comunicação. Começou então a construção do personagem chamado Marcos”, declarou o Subcomandante.

O papel de comunicador passou a ser o de distrair as atenções. Marcos ocupava a mídia enquanto o movimento construía sua autonomia, passados os momentos de combate mais duro. “Afinal, é mais difícil viver do que morrer”, apontou.

Segundo Frederico Assis, autor de dissertação de mestrado em História sobre a figura de Marcos, a “liderança sui generis” do Subcomandante coloca o espetáculo no centro da resistência zapatista a partir de então. “Além disso, sua figura permitia adaptabilidade: era fácil enxergarem nele aquilo que queriam enxergar e, é claro, se identificavam nele. Não é à toa que Marcos brincava que sua máscara era um espelho”, observou.

Marcos ocupa um lugar de imensa importância, não só para o EZLN, mas para a trajetória histórica do México e da esquerda latino-americana”, avalia o jornalista e professor Igor Fuser. Autor de México em transe, ele acredita que o criador de personagens como Elias Contreras, Don Durito e Velho Antônio “inventou um novo discurso no campo das esquerdas, um discurso irônico, poético e bem-humorado". Segundo Fuser, Marcos "se tornou a antítese de tudo o que havia de rançoso e burocrático entre os socialistas da nossa época".

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