Espanha. O efeito Podemos

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28 Julho 2017

“Um dos efeitos sintomáticos deste “efeito Podemos” é que muitos teóricos, intelectuais e escritores que estavam ungidos de uma aura progressista e republicana sofreram uma forte mudança de ânimo que se traduz em uma fúria inusitada para com Podemos, seus representantes, suas teorias e seus autores escolhidos”, analisa o psicanalista e escritor Jorge Alemán, em artigo publicado por Página/12, 27-07-2017. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Para além das análises de conjuntura, dos cálculos eleitorais e das conjecturas sobre o destino político do Podemos, interessa-nos, neste caso, apresentar alguns dos efeitos produzidos pela emergência desta força política no cenário espanhol contemporâneo. Mas, em primeiro lugar, impõe-se uma precisão: por efeito entendemos algo que se gera para além da intenção explícita e do cálculo político. Os efeitos verdadeiros do Podemos podem exceder a sua própria organização, como costuma acontecer com as apostas políticas novas. Por sua vez, o “efeito” neste caso não pode ser apresentado como resultado de uma “causa” prévia. De qualquer modo, as causas são fugazes ou podem ser reconstruídas parcialmente a posteriori.

Sem pretender uma ordem hierárquica destes efeitos, mencionaremos aqueles que nos parecem mais relevantes para a encruzilhada política espanhola:

a) A ressignificação da denominada Transição espanhola, não tanto como se lhes costuma atribuir, a impugnação total da mesma, mas a demonstração efetiva de que tal transição só foi possível na condição de que se apagaram todas as operações institucionais que atuavam em favor de uma readaptação do franquismo à nova situação. Neste aspecto, Podemos é o portador de um novo leque de interrogações acerca do que foi o franquismo em sua essência, de qual história da Espanha é tributário e quais são seus prolongamentos subterrâneos na estrutura institucional atual.

b) A incorporação da Esquerda Unida a uma nova lógica política baseada em uma mudança de bibliografia teórica, onde a questão da Pátria, a Soberania, o Povo e sua construção em um contexto plurinacional fizeram com que a esquerda clássica tivesse que enfrentar as problemáticas conceituais do chamado “pós-marxismo”. Ainda que a palavra “populismo” seja, ao menos por agora, inaceitável politicamente, isto não impediu que os problemas teóricos que estão implícitos na mesma sejam discutidos em sua força material concreta, a partir do Podemos, a saber: as articulações hegemônicas, o estabelecimento de uma fronteira antagônica, a função crítica e instável, mas necessária do líder, etc.

c) Uma transformação radical da percepção da América Latina na Espanha, digam o que quiser, sob o termo “América espanhola” ou “América do Sul”, que escondia uma versão distorcida e, às vezes, grotesca, onde os políticos, jornalistas e escritores ou bem projetavam seus próprios fantasmas de repúdio para algo que por razões históricas resultava muito próximo ou se mantinham interessadamente em uma ignorância flagrante. Podemos organizou um debate rigoroso sobre os acertos e impasses dos denominados movimentos nacionais e populares latino-americanos, sem se identificar com eles, mas situando-os em sua justa perspectiva.

d) A transformação recente do Partido Socialista, onde suas bases, “tocadas” em seu orgulho de esquerda pela presença do Podemos, iniciaram um novo trajeto que lhes permitiu se abrir a um novo espaço de esquerda, sacudindo-se do liberalismo social no qual seu aparato estava capturado.

e) Por último, pelo fato de Podemos ter traçado, enquanto tradução política do 15M, uma nova fenda na realidade, produziu uma torção significativa na cultura espanhola atual. Nunca como agora, a Espanha começou a indagar a si mesma, interrogou por sua memória histórica, perguntou por seu lugar na ordem do capitalismo mundializado. Um dos efeitos sintomáticos deste “efeito Podemos” é que muitos teóricos, intelectuais e escritores que estavam ungidos de uma aura progressista e republicana sofreram uma forte mudança de ânimo que se traduz em uma fúria inusitada para com Podemos, seus representantes, suas teorias e seus autores escolhidos.

Este assunto se reforça especialmente quando Podemos apresenta suas leituras da Transição, da plurinacionalidade da Espanha e de seu lugar na Europa. Como costuma ocorrer, o que demonstra que surgiu um novo traço na realidade política é a forte ressignificação de todos seus atores e a potente mudança do lugar de enunciação dos mesmos.

Como vamos entrando em um mundo acelerado, onde a todo momento acontece de tudo e ao mesmo tempo nada deixa uma pegada persistente, deixando por sua vez a sensação paradoxal de que não acontece nada, fica muito difícil distinguir o que é relevante do que não é. Consideramos que este exercício de “distância simbólica” frente ao efeito Podemos é pertinente para dimensionar sua projeção histórica para além de sua análise interna ou do que aconteça eleitoralmente com esta nova força política.

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