As graves afirmações do cardeal Müller contra o Papa Francisco. Artigo de Andrea Grillo

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28 Novembro 2017

“Para Müller, este é o horizonte: quieta non movere et mota quietare. Ele não reconhece, de fato, nem a grande dinâmica espiritual introduzida pelo pontificado de Francisco, nem o grande aprofundamento teológico, que retomou o impulso da fase conciliar de reflexão na Igreja.”

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Sant'Anselmo, em Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, em Pádua. O artigo foi publicado por Come Se Non, 27-11-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

As acusações que o cardeal Müller dirigiu nesse domingo ao papa, direta ou indiretamente, são muito graves e merecem ser cuidadosamente identificadas. Aqui, comento apenas os aspectos mais problemáticos da entrevista. Apresentado por Massimo Franco como “talvez o mais respeitado teólogo católico” – expressão realmente ambígua e sem fundamentos – durante a entrevista demonstra justamente que é fraco no âmbito requintadamente teológico em torno das questões abordadas. Mas sigamos em ordem:

a) A demanda de “liderança hostil” e a fidelidade

Massimo Franco as define como “palavras duras e ressentidas”: como um Jó ofendido, Müller pede contas ao papa da injustiça sofrida e dos conselheiros satânicos... um quadro, no mínimo, paradoxal e realmente desprovido de temperança.

Um homem da Igreja que quer salvaguardar a comunhão nesses casos silencia ou fala com discrição e medida. Se, ao contrário, fala acusando abertamente o papa de injustiça, põe-se fora da Igreja, isola-se em uma turris eburnea muito isolada e não pouco autorreferencial. E a sua reiterada fidelidade ao Romano Pontífice é puramente formal, abstrata.

Concretamente, ele continua lutando contra o pontificado, de modo vistosamente desleal. Se, “por natureza”, diz estar com o Santo Padre, ele absolutamente não demonstra estar “por cultura”.

b) A ameaça de cisma

Se passa a mensagem de uma “injustiça por parte da Cúria Romana”... mas o que Müller está fazendo há cinco anos senão continuamente insistindo nessa injustiça? Em certo sentido, Müller põe a Igreja em guarda em relação a si mesmo. Desde o início, ele interpretou a si mesmo, como prefeito, como “corretor do papa”.

E agora pretende falar “super partes”? Como se fosse um observador romano desinteressado? Como se não tivessem sido precisamente as suas palavras que alimentaram a ala nostálgica e tradicionalista? A ameaça de cisma é o rabo de palha de quem não tem argumentos teológicos e espirituais para contrapor à virada conciliar do Papa Francisco. Dar crédito às dubia de quatro cardeais e à carta de acusações de 62 católicos pouco competentes é um erro irremediável da sua abordagem.

c) A suposta fraqueza teológica e espiritual

Muito grave, mas não nova, é a afirmação segundo a qual, hoje, a Igreja de Francisco seria mais fraca teológica e espiritualmente. Isso é realmente o cúmulo. Müller identifica na autorreferencialidade teológica dos últimos 30 anos o modelo teológico e espiritual que “conserva o status quo”.

Para Müller, este é o horizonte: quieta non movere et mota quietare. Ele não reconhece, de fato, nem a grande dinâmica espiritual introduzida pelo pontificado de Francisco, nem o grande aprofundamento teológico, que retomou o impulso da fase conciliar de reflexão na Igreja.

O sintoma mais grave dessa leitura deficitária é a exigência de “superar a definição de Igreja como hospital de campanha”. Essa afirmação é o espelho de uma profunda e talvez irremediável estranheza de Müller à Igreja conciliar, repensada 50 anos depois de modo dinâmico e capaz de “tomar a iniciativa”. Ele lê como “rendição à imanência” a lógica da encarnação.

E isso compromete tudo. Ele aplica ao papado de Francisco esquemas antimodernistas e se diverte com a sua teologia não atualizada. Um déficit teológico está na raiz do desconforto.

d) A demanda de “teologia acadêmica” e o papel da Congregação

Por fim, é preciso enfatizar o resultado último dessa abordagem distorcida ao pontificado: a percepção, que Müller repete várias vezes, de que Francisco seria mais um soberano do que um “pai na fé”. Isso é realmente difícil de entender.

Se há um papa que recuperou não só no imaginário coletivo, mas também no próprio coração da Igreja a qualidade “paterna e fraterna” é justamente Francisco. E isso se deve não principalmente ao seu “personagem midiático”, mas à sua espiritualidade e à sua teologia.

Sobre esse ponto, Müller parece ter vivido, nesses cinco anos, em outro mundo, em outra história, com outras perspectivas e preocupações. Até mesmo a demanda de “teologia acadêmica” me parece paradoxal. Justamente nesses cinco anos tivemos uma retomada e um relançamento do pensamento teológico, que redescobriu profundamente o precioso tesouro da sua imaginação, da sua incompletude e da sua inquietação ao restituir o “depositum fidei” com nova força e com elegância eficaz. Os “três Is” com os quais Francisco identificou o “trabalho teológico” parecem totalmente estranhos à cultura de Müller.

É difícil compreender que um teólogo tão surdo às perspectivas teológicas e espirituais de Francisco e tão preocupado em ter que condicionar como prefeito um papado realmente profícuo tenha a pretensão de permanecer no cargo e de condicionar tão fortemente o pontificado.

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