''Precisamos de um Silicon Valley da Igreja. Deveríamos ser os Steve Jobs da fé''. Entrevista com Gerhard Ludwig Müller

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27 Novembro 2017

“Há um fronte que gostaria de me ver à frente de um movimento contra o papa, mas eu nunca farei isso.” São as palavras do cardeal e teólogo alemão Gerhard Ludwig Müller, prefeito emérito da Congregação para a Doutrina da Fé. Porém, as autoridades da Igreja – acrescenta – devem ouvir, caso contrário, podem aumentar o risco de um cisma.

A reportagem é de Massimo Franco, publicada por Corriere della Sera, 26-11-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Há um fronte dos grupos tradicionalistas, assim como dos progressistas, que gostaria de me ver à frente de um movimento contra o papa, mas eu nunca farei isso. Servi com amor a Igreja por 40 anos como padre, 16 anos como catedrático da teologia dogmática e 10 anos como bispo diocesano. Acredito na unidade da Igreja e não permito que ninguém instrumentalize as minhas experiências negativas dos últimos meses. As autoridades da Igreja, porém, devem ouvir aqueles que têm perguntas sérias ou reclamações justas; não ignorá-los ou, pior, humilhá-los. Caso contrário, sem querer, pode aumentar o risco de uma lenta separação que poderia desembocar em um cisma de uma parte do mundo católico, desorientado e desiludido. A história do cisma protestante de Martinho Lutero de 500 anos atrás deveria nos ensinar, sobretudo, que erros evitar.”

O cardeal Gerhard Müller fala com voz linear e um forte sotaque alemão. Estamos no apartamento da Praça da Cidade Leonina, que, no passado, foi ocupado por Joseph Ratzinger antes de se tornar Bento XVI, em um palácio habitado por altos prelados.

Müller, talvez o mais respeitado teólogo católico, é o ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, substituído de surpresa em julho passado por Jorge Mario Bergoglio. “O papa me confidenciou: ‘Alguns me disseram anonimamente que o senhor é meu inimigo’, sem explicar em que ponto”, conta ele, entristecido.

“Depois de 40 anos a serviço da Igreja, tive que ouvir isto: um absurdo preparado por fofoqueiros que, em vez de instilar inquietação no papa, fariam melhor se fossem visitar um psiquiatra. Um bispo católico e cardeal da Santa Igreja Romana está, por natureza, com o Santo Padre. Mas eu acredito que, como dizia o teólogo do século XVI Melchior Cano, os verdadeiros amigos não são aqueles que adulam o papa, mas sim aqueles que o ajudam com a verdade e a competência teológica e humana. Em todas as organizações do mundo, os delatores dessa espécie servem apenas a si mesmos.”

Palavras duras, ressentidas, de quem sente que sofreu um dano imerecido. O cardeal exclui, como defendem alguns rumores alarmistas, que alguns estejam planejando complôs contra Francisco, em polêmica com alguns posicionamentos considerados progressistas demais: ele considera isso “um exagero absoluto”.

Mas admite que a Igreja está abalada por tensões profundas. “As tensões nascem da contraposição entre um fronte tradicionalista extremista em alguns sites e um fronte progressista igualmente exagerado, que hoje tenta se credenciar como superpapista”, de acordo com Müller. Trata-se de minorias, mas aguerridas.

Por isso, o cardeal transmite uma mensagem de unidade, mas também de preocupação. “Atenção: se for passada a percepção de uma injustiça por parte da Cúria Romana, quase por força inercial poderia se pôr em movimento uma dinâmica cismática, difícil de recuperar, depois. Acredito que os cardeais que expressaram dúvidas sobre a Amoris laetitia ou os 62 signatários de uma carta de críticas até mesmo excessivas contra o papa devem ser ouvidos, não liquidados como ‘fariseus’ ou pessoas resmungonas. A única maneira de sair dessa situação é um diálogo claro e franco. Em vez disso, eu tenho a impressão de que, no ‘círculo mágico’ do papa, há quem se preocupe principalmente de ser espião sobre supostos adversários, impedindo, assim, uma discussão aberta e equilibrada. Classificar todos os católicos de acordo com as categorias de ‘amigo’ ou ‘inimigo’ do papa é o dano mais grave que eles causam à Igreja. Ficamos perplexos quando um jornalista bem conhecido, como ateu, se orgulha de ser amigo do papa, e, paralelamente, um bispo católico e cardeal como eu é difamado como opositor do Santo Padre. Não acredito que essas pessoas possam me dar lições de teologia sobre o primado do Romano Pontífice.”

Müller não vê uma Igreja mais dividida do que nos anos de Bento XVI. “Mas eu a vejo mais fraca. Custamos a analisar os problemas. Os sacerdotes são escassos, e damos respostas mais organizacionais, políticas e diplomáticas do que teológicas e espirituais. A Igreja não é um partido político com as suas lutas pelo poder. Devemos discutir sobre as questões existenciais, sobre a vida e a morte, sobre a família e as vocações religiosas, e não permanentemente sobre a política eclesiástica. O Papa Francisco é muito popular, e isso é bom. Mas as pessoas não participam mais dos sacramentos. E a sua popularidade entre os não católicos que o citam com entusiasmo, infelizmente, não muda as suas falsas convicções. Emma Bonino, por exemplo, louva o papa, mas permanece firme nas suas posições sobre o aborto que o papa condena. Devemos ter cuidado para não confundir a grande popularidade de Francisco, que também é um enorme patrimônio para o mundo católico, com uma verdadeira retomada da fé: embora todos apoiemos o papa na sua missão.”

Na ótica do cardeal Müller, depois de quase cinco anos de pontificado, encerrou-se uma fase: a da Igreja entendida como “hospital de campanha”, feliz definição que Francisco confiou à revista La Civiltà Cattolica em 2013, pouco depois da eleição.

“Foi uma grande intuição do papa. Mas talvez agora seja necessário ir além do hospital de campanha e arquivar a guerra contra o bem natural e sobrenatural dos homens de hoje que o tornaram necessário”, defende.

“Hoje, precisaríamos mais de um Silicon Valley da Igreja. Deveríamos ser os Steve Jobs da fé e transmitir uma visão forte em termos de valores morais e culturais e de verdades espirituais e teológicas.” Não basta, acrescenta, “a teologia popular de alguns monsenhores, nem a teologia jornalística demais de outros. Precisamos também a teologia em nível acadêmico.”

A partir das suas palavras, intui-se que as críticas são dirigidas sobretudo a alguns colaboradores de Francisco. “É boa a divulgação. Francisco tende a ressaltar, com razão, a soberba dos intelectuais. Às vezes, no entanto, os soberbos não são apenas eles. O vício da soberba é uma marca do caráter, e não do intelecto. Eu penso na humildade de São Tomás, o maior intelectual católico. A fé e a razão são amigas.”

Na perspectiva do cardeal, o modelo de papado que tende a emergir intermitentemente, “mais como soberano do Estado do Vaticano do que como supremo ensinante da fé”, pode despertar algumas reservas.

“Eu tenho a sensação de que Francisco quer escutar e integrar a todos. Mas os argumentos das decisões devem ser discutidos antes. João Paulo II era mais filósofo do que teólogo, mas se deixava assistir e aconselhar pelo cardeal Ratzinger na preparação dos documentos do magistério. A relação entre o papa e a Congregação para a Doutrina da Fé foi e sempre será a chave para um profícuo pontificado. E lembro também a mim mesmo que os bispos estão em comunhão com o papa: irmãos, e não delegados do papa, como nos recordava o Concílio Vaticano II.”

Müller ainda não curou “a ferida”, como ele a chama, dos seus três colaboradores demitidos pouco antes da sua substituição. “Eram padres bons e competentes que trabalhavam pela Igreja com dedicação exemplar”, é o seu julgamento. “As pessoas não podem ser mandadas embora ad libitum, sem provas nem processo, só porque alguém denunciou anonimamente vagas críticas contra o papa movidas por parte de um deles...”

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