“Não, a Igreja não pode ser só aplausos.” Entrevista com Gerhard Ludwig Müller

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24 Julho 2017

Eminência, o senhor tem alguma ideia de por que o papa decidiu removê-lo da presidência da Congregação para a Doutrina da Fé? “Não, eu não sei, porque o Santo Padre não me disse. Ele apenas me informou que o mandato não seria renovado. Houve muitas especulações nos meios de comunicação nos últimos tempos, e eu diria que a nomeação do novo secretário da Congregação [Dom Giacomo Morandi], divulgada na terça-feira passada, é um pouco a chave para compreender essas manobras.”

A reportagem é de Matteo Matzuzzi, publicada por Il Foglio, 21-07-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Está sereno o cardeal Gerhard Ludwig Müller, teólogo alemão e por cinco anos prefeito daquele que foi o Santo Ofício, nomeado por Bento XVI, confirmado por Francisco, que, porém, no dia 30 de junho passado, comunicou-lhe a decisão de abrir mão dele.

Com Il Foglio, ele repassa as etapas que levaram ao seu afastamento, as polêmicas sobre a interpretação da exortação pós-sinodal Amoris laetitia e, mais em geral, reflete sobre o estado (péssimo) da religião na Europa.

Contudo, falava-se de uma despedida dele há algum tempo, tanto que a mídia tinha até levantado a hipótese de possíveis destinos diocesanos para o editor da opera omnia de Joseph Ratzinger.

“Eu sempre estive tranquilo”, responde Müller: “Acredito que eu cumpri todas as minhas tarefas, e até mais do que o necessário. Da minha competência teológica, ninguém tinha dúvidas. Eu sempre fui leal ao papa, como requer a nossa fé católica, a nossa eclesiologia. Essa lealdade sempre foi acompanhada pela competência teológica, razão pela qual nunca se tratou de lealdade reduzida a pura adulação”.

E isso porque “o magistério precisa de competentes conselhos teológicos, como, aliás, está bem descrito na Lumen gentium, n. 25, e como prevê claramente o carisma do Espírito Santo através do qual agem os bispos e o próprio papa como chefe do colégio episcopal. Mas todos nós somos homens e precisamos de conselhos, e o conteúdo da fé não pode ser explicado sem um claro fundamento de estudos bíblicos. O mesmo vale – continua – para o desenvolvimento do dogma. Ninguém pode elaborar um documento magisterial sem conhecer os Padres da Igreja, as grandes decisões dogmáticas sobre a teologia moral dos vários concílios. Para isso, existe a Congregação para a Doutrina da Fé, que é a mais importante congregação da Cúria Romana. Ela conta com duas comissões teológicas, além dos consultores. Em suma, ela tem uma tarefa clara e uma grande responsabilidade em relação à ortodoxia da Igreja”.

Eis a entrevista.

Mas é verdade que, como se pôde ler em alguns lugares, a sua última conversa com Francisco foi tensa e gélida?

São reconstruções totalmente falsas. O papa simplesmente me informou da sua decisão de não me renovar no mandato. Nada mais. Foi uma audiência de trabalho, normal, no fim da qual o Santo Padre me comunicou a escolha. No dia seguinte, eu fui demitido.

Alguma hipótese, porém, foi feita sobre as razões da ruptura. E, além da suposta lentidão na perseguição dos casos de abuso no clero, diversos órgãos de imprensa escreveram sobre uma excessiva exposição midiática, muitas vezes em contraponto ao papa. Um modus operandi diferente em relação ao dos seus antecessores mais imediatos.

O cardeal Müller sorri:

“Eu acho que posso dizer que a presença midiática do cardeal Ratzinger era muito evidente, mesmo que apenas com os seus grandes livros-entrevista. E isso faz parte do cargo de prefeito, que não é um puro e simples trabalho burocrático. Além disso, eu também era conhecido antes como teólogo, contando com numerosas publicações. E, mesmo assim, permita-me, o papa também usa o meio das entrevistas. O fato é que, hoje, devemos usar os instrumentos da comunicação moderna. Os jovens nem sempre leem os livros e os jornais. Eles utilizam as redes sociais, a internet. E, se quisermos promover a fé – que é, lembro, a tarefa principal da Congregação –, devemos entrar em diálogo com eles nessas plataformas. Eu nunca falei do meu pensamento, da minha pessoa, nessas entrevistas. Mas da fé! E, além disso, lembro, eu sou bispo, e um bispo tem a obrigação de difundir o Evangelho, e não só nas suas homilias, mas também através das discussões científicas com os contemporâneos.”

Nós, acrescenta, “não somos uma religião restrita, um clube. Somos uma Igreja dialogante, a religião da Palavra de Deus, que Cristo mesmo entregou aos seus apóstolos, exortando para ensiná-la e pregá-la em todo o mundo”.

Tudo bem, mas alguma tensão intra ecclesiam existe, é possível constatá-la facilmente. Tome-se o exemplo da Amoris laetitia, o documento produzido pelo Sínodo duplo sobre a moral familiar. O eminentíssimo Christoph Schönborn, também ele teólogo e inspirador da solução aberturista, recentemente reiterou como o seu posicionamento é oposto ao de Müller. E então?

“Pode ser que o cardeal Schönborn tenha uma visão oposta à minha, mas, talvez, ele também tem uma visão oposta à que ele tinha antes, já que mudou de posição. Eu acho que as palavras de Jesus Cristo devem ser sempre o fundamento da doutrina da Igreja. E ninguém, até ontem, podia dizer que isso não era verdade. É claro: temos a revelação irreversível de Cristo. E, à Igreja, foi confiado o depositum fidei, isto é, todo o conteúdo da verdade revelada. O magistério não tem a autoridade de corrigir Jesus Cristo. É Ele, no máximo, que nos corrige. E nós somos obrigados a lhe obedecer. Nós devemos ser fiéis à doutrina dos apóstolos, claramente desenvolvida no espírito da Igreja.”

Desculpe-me, mas então por que o senhor votou o relatório do círculo menor em língua alemã, escrito pelo próprio Schönborn e aprovado por Walter Kasper?

“O Sínodo disse claramente que os bispos individuais são responsáveis por esse caminho, para levar as pessoas à plena graça sacramental”, diz o cardeal Gerhard Ludwig Müller ao Foglio.

“Essa interpretação existe, sem dúvida, mas eu nunca mudei a minha posição – privada e subjetiva. Mas, como bispo e cardeal, lá, eu representava a doutrina da Igreja, que eu conheço também nos seus desenvolvimentos fundamentais, do Concílio de Trento à Gaudium et spes, que representam as duas diretrizes. Isso é católico, o resto pertence a outras crenças. Eu – explica – não entendo como podem ser concordadas diferentes posições de interpretação teológica e dogmática com as claras palavras de Jesus e de São Paulo. Ambos deixaram claro que não se pode casar uma segunda vez se o parceiro legítimo está vivo.”

O senhor compreende as razões que levaram os cardeais Burke, Brandmüller, Caffarra e o falecido Meisner a apresentar ao papa cinco dubia sobre a exortação?

“Eu não compreendo o motivo pelo qual não se inicia um diálogo com calma e serenidade. Eu não entendo onde estão os obstáculos. Por que fazer surgir apenas tensões, até mesmo públicas? Por que não organizar uma reunião e falar abertamente sobre esses temas, que são essenciais? Até hoje, eu só ouvi invectivas e ofensas contra esses cardeais. Mas esse não é nem o meio nem o tom para seguir em frente. Somos todos irmãos na fé, e eu não posso aceitar discursos sobre as categorias ‘amigo do papa’ ou ‘inimigo do papa’. Para um cardeal, é absolutamente impossível ser contra o papa.”

“Apesar disso – continua o ex-prefeito do Santo Ofício –, nós, bispos, temos o direito, diria até divino, de discutir livremente. Gostaria de lembrar que, no primeiro Concílio, todos os discípulos falaram de modo franco, favorecendo até controvérsias. No fim, Pedro deu a sua explicação dogmática, que vale para toda a Igreja. Mas somente depois, ao término de uma longa discussão animada. Os concílios nunca foram encontros harmoniosos.”

A questão é se a Amoris laetitia representa ou não uma forma de descontinuidade em relação ao magistério anterior. É assim ou não?

“O papa – diz Müller – declarou muitas vezes que não há uma mudança na doutrina dogmática da Igreja, e isso é evidente, até porque não seria possível. Francisco queria atrair de novo essas pessoas que se encontram em situações irregulares em relação ao matrimônio, ou seja, como fazer com que elas se aproximem das fontes da graça sacramental. Os meios existem, até mesmo canônicos. De todos os modos, quem quer receber a comunhão e se encontra em estado de pecado mortal deve, primeiro, sempre, receber o sacramento da reconciliação, que consiste na contrição do coração, no propósito de não pecar mais, na confissão dos pecados e na convicção de agir segundo a vontade de Deus. E ninguém pode modificar essa ordem sacramental, que foi fixada por Jesus Cristo.”

“Podemos, no máximo, mudar os ritos externos, mas não esse núcleo substancial. Ambiguidades na Amoris laetitia? Pode até ser, e eu não sei se são deliberadas. Se existem, as ambiguidades têm a ver com a complexidade da matéria e da situação em que se encontram os homens de hoje, na cultura em que estão imersos. Quase todos os fundamentos e os elementos essenciais, hoje em dia, para populações que superficialmente se definem como cristãs, não são mais compreensíveis. A partir daí – acrescenta o cardeal – nascem os problemas. Nós temos pela frente dois desafios, em primeiro lugar: esclarecer qual é a vontade salvífica de Deus e interrogarmo-nos sobre o modo de ajudar pastoralmente esses nossos irmãos a caminhar ao longo do caminho indicado por Jesus.”

A reaproximação à comunhão por parte dos divorciados em segunda união era um velho pedido de uma parte do episcopado alemão.

“É verdade, foram três bispos alemães, Kasper, Lehmann e Saier, que, no início dos anos 1990, lançaram a proposta. Mas a Congregação para a Doutrina da Fé rejeitou-a definitivamente. Todos concordaram que era necessário discutir ainda a respeito, e até agora ninguém revogou aquele documento.”

A propósito da Igreja alemã: de lá, nos últimos três anos, vieram os ventos mais fortes da mudança, com o cardeal Marx, que dizia aos microfones que “Roma nunca poderá nos dizer o que fazer ou não fazer na Alemanha”. Como está a situação hoje naquela terra?

“Dramática”, diz Müller imediatamente, que, por dez anos, foi bispo de Regensburg, antes de ser chamado a Roma por Bento XVI. “A participação activa e actuosa diminuiu muito. Até mesmo a transmissão da fé, não como teoria, mas como encontro com Jesus Cristo vivo caiu. E assim também as vocações religiosas. Esses são sinais, fatores a partir dos quais vemos a situação da Igreja. Mas é toda a Europa que já vive um processo de descristianização forçada, que vai muito além da simples secularização.”

“É – diz o nosso interlocutor – a descristianização de toda a base antropológica, com o homem definido estritamente sem Deus e sem a transcendência. A religião é vivida como um sentimento, mas não como adoração do Deus criador e salvador. Nesse quadro geral, tais fatores não são bons para a transmissão da fé cristã vivida, e, por isso, é necessário não perder as nossas energias em lutas internas, em confrontos um contra o outro, com os chamados progressistas que buscam a vitória caçando todos os chamados conservadores. Se pensarmos assim – diz Müller – damos uma ideia da Igreja como algo fortemente politizado. O nosso 'a priori' não é ser conservador ou progressista. O nosso 'a priori' é Jesus. Crer na ressurreição, na ascensão e no retorno de Cristo no último dia é fé tradicionalista ou progressista? Não, é simplesmente a Verdade. As nossas categorias devem ser a verdade e a justiça, e não as categorias que vão de acordo com o espírito do tempo.”

O cardeal define como “grave” a situação atual, porque “se reduziu a práxis sacramental, a oração, a prece. Todos os elementos de fé vivida, da fé popular, entraram em colapso. E o drama é que não se sente mais a necessidade de Deus, da palavra sagrada e visível de Jesus. Vive-se como se Deus não existisse. Responder a tudo isso é o nosso grande desafio. Nós não somos agentes propagandistas das nossas próprias verdades, mas sim testemunhas da verdade salvífica. Não de uma ideia da fé, mas da realidade viva da presença de Cristo no mundo”.

Eminência, o senhor considera que existe também dentro da Igreja uma certa condescendência em relação ao Zeitgeist, ao espírito do tempo?

“O papa emérito falou do espírito do tempo, mas São Paulo já tinha argumentado sobre o espírito de Deus e sobre o espírito do mundo. Esse contraste é muito importante e deve ser conhecido. A afirmação para a fé, para a Igreja e para os bispos não é dada pelo aplauso de uma massa não informada. É outra coisa: o nosso trabalho é apreciado e aprovado quando conseguimos convencer uma pessoa a se oferecer totalmente a Jesus Cristo, colocando a própria existência nas mãos de Jesus. Na sua Primeira Carta, São Pedro fala de Jesus Cristo pastor das almas. Hoje, fala-se de responsabilidade pela cultura e pelo ambiente? Sim, mas temos tantas pessoas leigas competentes para isso. Pessoas que têm responsabilidade na política; temos os governos e os parlamentos, e assim por diante. Aos apóstolos, Jesus não confiou o governo secular do mundo. Os bispos-príncipes existiam há séculos, e não foi bom para a Igreja.”

A propósito de descristianização, perguntamos ao cardeal Müller o que ele pensa da “Opção Bento”, o tema lançado anos atrás pelo escritor Rod Dreher, que sugere um modo de viver como cristãos dentro do Ocidente descristianizado.

O essencial a ser dito, explica Müller, “é que os cristãos não podem voltar para as catacumbas. A dimensão missionária é fundamental para a Igreja Católica. Não podemos evitar as batalhas contemporâneas. Cristo disse que não veio ao mundo para obter uma paz superficial, mas sim para desafiar, para que os cristãos conquistem a graça de viver seguindo o caminho indicado por Ele. E assim devemos fazer, mesmo quando as condições, como hoje, não são favoráveis.”

É correto dizer que, com este pontificado, desapareceu a visão eurocêntrica da Igreja?

“O centro da Igreja é Cristo, e onde Ele está, ali é o centro. Essas reflexões sobre o eurocentrismo da Igreja estão voltadas apenas a dar uma leitura politizada dela. Em vez de falar do Evangelho e da doutrina católica, deixam-se levar por estratégias e teorias. Culturalmente, é verdade, a Europa teve um grande papel no mundo, com todos os elementos positivos e negativos que se seguiram a partir disso. Entre os negativos, cito, por exemplo, o colonialismo; entre os positivos, a filosofia da realidade, a metafísica e o direito.”

Uma última pergunta, sobre uma questão que viu Müller em um papel de primeiro plano, isto é, a suposta reconciliação com a Fraternidade São Pio X, a comunidade fundada pelo bispo francês Marcel Lefebvre.

“A reconciliação desse grupo com a Igreja Católica é absolutamente necessária. Jesus não quis separações. Mas quais são as condições para viver uma plena comunhão? Eu acho que as condições devem ser iguais para todos. Temos a profissão de fé, não se pode escolher o que aceitar e o que não. Todos devem professá-la. Todos os concílios ecumênicos devem ser aceitos, assim como o magistério vivo da Igreja. Entender o Vaticano II como uma refundação da Igreja é um absurdo. Os abusos, as ideologias e os mal-entendidos certamente não são consequência do Concílio Vaticano II.”

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