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04 Setembro 2015

"O Papa Francisco não é um progressista – pelo menos não tanto como os progressistas gostariam de ver. Mas também ele não é um ideólogo a defender contranarrativas antimodernas frente à paisagem cultural contemporânea", escreve Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em artigo publicado por Global Pulse, 31-08-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Estamos no limite de um período muito interessante na vida da Igreja em todo o mundo.

Entre setembro e dezembro, o Papa Francisco irá dirigir o seu pontificado através de uma sequência muito intensa de eventos.

Uma visita pastoral a Cuba e aos Estados Unidos; a segunda Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos sobre a família; uma visita pastoral à África (a primeira de Francisco ao continente).

E em 8 de dezembro, exatamente 50 anos após o final do Concílio Vaticano II e início do período pós-Vaticano II, dar-se-á a abertura do Ano Jubilar Extraordinário da Misericórdia.

Este parece ser um momento decisivo para a Igreja Católica, evidenciado pela urgência com a qual alguns quadrantes começaram a traçar uma “opção” clara para o futuro de seus membros.

Esta não é apenas a versão católica da abordagem caracteristicamente americana para com questões fundamentais (“Eu estou em crise, tenho de tomar uma decisão radical, e conseguirei sair dessa”). Em vez disso, trata-se de uma das muitas facetas do chamado “efeito Francisco”.

Primeiro, há o que o escritor conservador americano Rod Dreher chama de “a opção Bento” (inspirada por São Bento, fundador do monaquismo ocidental).

Dreher define este conceito como sendo a criação de “formas pioneiras de evadir-se de uma cultura dominante bárbara que se tornou gradualmente hostil aos nossos valores fundamentais”.

Não é “um retiro físico a uma comunidade quase monástica, mas sim um retiro intencional e refletido para dentro da narratividade”. Isso implicaria um “resgate da história da Igreja, inculcando um compromisso com ela dentro das vidas de seus membros, em desafio ao colapso da narrativa em nosso redor”.

Em seguida, há a “opção Domingos” (inspirada em São Domingos, fundador da Ordem dos Pregadores ou Dominicana).

Originalmente apresentada via artigos ao longo dos últimos anos publicados em First Things, a opção Domingos sustenta que a saúde das comunidades subculturais cristãs é essencial para o florescimento da Igreja.

Em comparação com a opção Bento, a opção Domingos é mais “vida mista”, no sentido de que assume uma postura menos retirada e mais combativa frente ao mundo e a cultura moderna.

Outra alternativa para a opção Bento, que apareceu recentemente na revista conservadora Crisis, é a “opção Escrivá” (inspirada em São Josemaría Escrivá de Balaguer, fundador do Opus Dei).

Esta opção convida os homens e as mulheres a se tornarem “contemplativos no meio do mundo, para viver da melhor forma possível na presença de Deus durante todo o dia, desde o momento de acordar até a hora de apagar a luz à noite. Isso se consegue através da oração e do estudo e de um regime vigoroso de normas diárias, semanais, mensais e anuais de piedade”.

Com uma visão mais sombria do mundo moderno há a “opção Calvário” (novamente publicada em First Things).

Esta tira o seu nome do filme irlandês de 2014 “Calvary”, onde um padre, mesmo sabendo muito bem que um paroquiano vai tentar matá-lo dentro de uma semana, continua cumprindo fielmente a sua missão pastoral, como de costume.

E, finalmente, temos a opção que George Weigel chama de “Tempo Catacumba” (mais uma vez publicada em First Things). Citando uma palestra que Joseph Ratzinger deu em 1969, Weigle diz: “O catolicismo do século XXI ‘apresentará exigências muito maiores para com iniciativas de seus membros’. Um catolicismo morno, seletivo, não irá sobreviver ao tsunami cultural e político que está vindo. Um catolicismo exausto não pode fazer mais do que sobreviver; ele pode se converter”.

No entanto, há mais uma opção que oferece uma resposta muito diferente para essas avaliações austeras da condição de sobrevivência do cristianismo em nosso mundo. É a “opção Francisco” (inspirada principalmente em São Francisco de Assis, mas também pelo primeiro papa a levar o seu nome). Esta opção visa promover uma cultura de diálogo e encontro que leva o Evangelho para as periferias.

O que todas as outras “opções” têm em comum é a nostalgia de um mundo onde “cultura” significava, exclusivamente, uma “cultura cristã católica”. Esse era o mundo dos Santos Bento, Domingos e Josemaría Escrivá, em que o cristianismo era enquadrado em termos de cristandade – uma religião estabelecida onde a ortodoxia católica era a alma do reino político-social.

A “opção Calvário” e a “opção Catacumba” são variações da mesma decisão de se ausentar da praça pública. É a negação da virada eclesiológica do Vaticano II, especialmente como articulada na constituição Gaudium et Spes. “Calvário” e “Catacumba” transmitem a ideia de que a Igreja está passando por um período de perseguição e martírio. Estas opções sustentam que ataques contra o cristianismo também estão ocorrendo no mundo ocidental secularizado, e não apenas na África, no Oriente Médio e na Ásia.

Não é coincidência que todas essas “opções” se tornaram parte do discurso entre os conservadores católicos na década crucial que engloba os pontificados de Bento XVI e Francisco – e, agora, em grande parte como uma reação ao “efeito Francisco”.

Se há algo que inquieta os céticos do papa atual é a ausência completa em seu discurso da nostalgia pela “idade de ouro” da Igreja Católica pré-Vaticano II.

O Papa Francisco não é um progressista – pelo menos não tanto como os progressistas gostariam de ver. Mas também ele não é um ideólogo a defender contranarrativas antimodernas frente à paisagem cultural contemporânea.

Em suma, ele não é um guerreiro cultural.

É impressionante ver que todas essas “opções” estão firmemente enraizadas na ala conservadora da Igreja Católica nos Estados Unidos da América, país que Francisco vai visitar dentro de algumas semanas. Nos EUA, a maioria dos bispos católicos ainda está engajada nas guerras culturais, e eles percebem que Francisco não está nas barricadas com eles.

Até mesmo Francisco George, falecido cardeal de Chicago – que era considerado o maior intelectual dos bispos do país –, falou abertamente nos meses antes de sua morte sobre a sua dificuldade em compreender o Papa Francisco.

As opções antimodernistas apresentadas pelos conservadores católicos no mundo anglo-saxônico baseiam-se em uma percepção do mundo moderno bastante segura de si. Mas como escreveu o teólogo australiano James Gerard McEvoy em seu recente livro “Leaving Christendom for Good” [sem tradução ao português]: “Apesar de João Paulo II considerar a nova evangelização como fundamentalmente sendo uma resposta pastoral a uma mudança cultural, os documentos papais e episcopais sobre o assunto dedicam pouco espaço em analisar tal mudança”.

Francisco não tem todas as respostas para a análise dessas transformações. Em alguns casos, ele sequer possui a linguagem (por exemplo, quando fala sobre as mulheres na Igreja).

Mas ele sabe muito bem que, se não levar em conta a mudança de mentalidade classista para a mentalidade moderna e pós-moderna, a tendência natural será a de recair no pensamento medieval. E isso coloca um problema, pois os cânones culturais medievais e antimodernistas falam apenas para aqueles que são herdeiros da cristandade medieval nos países ocidentais.

A eclesiologia de Francisco está muito mais perto daquilo que o sociólogo alemão Hans Joas chama de “a Igreja num mundo de opções”. No mundo de hoje, a fé é apenas uma opção entre muitas outras.

Essa é uma condição cultural que São Bento e São Domingos nunca tiveram de enfrentar.

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