O ''não'' de Weigel ao Sínodo e o esquecimento do Vaticano II. Artigo de Andrea Grillo

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16 Janeiro 2015

A tentação do "não" à liberdade, a velha tentação apologética, vence as resistências. A virada pastoral do Vaticano II continua sendo, para George Weigel, uma palavra ainda incompreendida.

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua. O artigo foi publicado no seu blog Come Se Non, 08-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Em muitos aspectos, a análise proposta por [George] Weigel no jornal Il Foglio do dia 7 de janeiro, no artigo "O cisma, os alemães, o dinheiro", se assemelha ao que foi escrito no mesmo jornal por R. De Mattei. Há, no fundo, uma radical rejeição da mediação moderna da fé e uma leitura totalmente redutiva da virada que o Concílio Vaticano II imprimiu na forma católica de presença eclesial no mundo.

Não por acaso, Weigel também começa a partir da Dignitatis humanae, ou seja, do texto conciliar que modifica profundamente, mas coerentemente, a relação da fé com a liberdade. E é justamente sobre esse aspecto que me parece necessário ressaltar os limites mais preocupantes que emergem dessa releitura ideológica, maniqueísta e irrealista do episódio conciliar. Sublinho apenas alguns aspectos.

1. A falta de respeito

Para um historiador e um intelectual afirmado como Weigel, parece uma fraqueza muito grave ter que recorrer à ridicularização do adversário para tentar ter razão. Já notamos essa tendência em De Mattei e em Perez Soba, sempre no Il Foglio, mas agora vemos confirmada e acentuada a tendência em Weigel.

É uma longa lista de verdadeiros insultos: a Baldisseri, a Forte, a Kasper, à teologia alemã, à teologia italiana, à tradição europeia, com relação a qual se prevê, como "ortodoxia dinâmica", uma espécie de "fusão" entre os Estados Unidos tradicionalistas, tradição africana e pensamento de João Paulo II. Como se a teologia do matrimônio tivesse encontrado, apenas no magistério de João Paulo II, a sua forma definitiva e intocável.

Uma estranha forma de "deformação" por parte de Weigel: talvez, um biógrafo de João Paulo II é arrastado a ver como natural a pretensão de ler toda a história da Igreja à luz da biografia que ele escreveu? Parece-me uma falta de respeito proporcional a uma injustificável pretensão de absolutez hermenêutica. A teologia do matrimônio de João Paulo II, especialmente quando derivada de catequeses das quartas-feiras, não pode ser a única chave de interpretação para os desafios em torno do matrimônio da Igreja das próximas décadas. Esse é um dado elementar, e de bom senso, para definir de modo não unilateral e não fundamentalista as respostas às questões em campo.

2. A fraqueza teológica

O tempero preferido de Weigel, na sua retórica antissinodal, é a da "traição à tradição". A teologia alemão de Kasper, a teologia italiana de Forte, a teologia europeia gostariam de "trair a tradição cristã", assumindo a mentalidade do século e, até mesmo, aquela que o norte-americano Weigel chama de "agenda LGBT" (ou seja, o diabólico projeto das pessoas "lésbicas-gays-bissexuais-transgêneras").

Certamente, agitando esses fantasmas, talvez podem ser vencidas as eleições presidenciais nos Estados Unidos. Mas realmente se contribui para o debate eclesial? Trata-se de posições legítimas no plano político e cultural, mas, teológica e eclesialmente, são de uma fraqueza chamativa e patente.

Para Weigel, o perfil teológico e pastoral da questão se resolve, substancialmente, na reafirmação, dura e pura, da teologia medieval, filtrada apenas pela revisitação woytliana. O ano de 1980 é, no fundo, a última fronteira da ortodoxia. Hic sunt liones. Ponto.

É um pouco demais, na verdade. E, além disso, ele chega a dizer que todos os "defensores da ortodoxia dinâmica" – assim Weigel chama os adversários do Sínodo – são "homens do Vaticano II" e não seus inimigos. Certamente, biograficamente, são todos homens que cresceram na Igreja pós-conciliar: mas que tipo de leitura oferecem do Concílio? O que realmente aprenderam com o Vaticano II? Como interpretam a sua "virada pastoral"?

Sobre tudo isso, Weigel não tem nada a dizer. Se falasse, iria se chocar, inevitavelmente, contra Francisco... Publicitariamente, ele deve apenas afirmar a "fidelidade conciliar" daqueles que desmentem o Concílio. Mas, com jogos de palavras, não se pode fazer uma teologia séria. Weigel, porém, é coerente, mesmo na arrogância, quando, deslizando evidentemente sob a pressão das suas próprias palavras, escreve que esses líderes ortodoxos e dinâmicos, defensores da tradição, "não estão dispostos a aceitar instruções sobre como proceder com a nova evangelização dos líderes católicos da Alemanha, Itália, Inglaterra ou de qualquer parte em que a missão evangélica fracassou manifestamente".

O Sínodo, talvez, deveria assumir o marketing missionário como critério para dar ou negar a palavra? Trata-se de palavras sem controle crítico, marcadas por hostilidades viscerais contra a Igreja conciliar e, por isso, bastante perigosas.

3. O uso sofístico dos argumentos

Faz parte da retórica tradicionalista silenciar o interlocutor teológico, opondo-lhe os resultados "pastorais" da tradição a que pertence. Típico desse procedimento rude e mal-educado – mais digno de tradicionalistas despreparados do que de pacatos pensadores – é o modo constante com que Weigel insulta Kasper e, com ele, todos os bispos alemães, movendo os seus pensamentos a "causa" do desastre cultural das suas Igrejas.

Um juízo tão sumário e injusto – que chega a banalizar a sua posição como uma questão de "dinheiro" – denota uma fraqueza de argumentos e uma falta de respeito bastante desconfortante. É um uso "publicitário" da linguagem da tradição que tem muito a ver com "operações de marketing" e pouco com um pensamento meditado e profundo sobre a tradição que se pretende mediar.

A inversão da realidade e a incompreensão entre o que é bem e o que é mal é típico da linguagem do "profeta da desgraça", que Weigel interpreta sem economia de retórica. E é tão implacável nesse ato de denúncia a ponto de chegar a desqualificar a obra do Sínodo falando de "adoção da linguagem da revolução LGTB no relatório intermediário". Desqualificar totalmente a obra de Baldisseri e de Forte, ridicularizar o pensamento e o episcopado alemão: essa parece ser a intenção, para a qual não era necessário incomodar nada mais do que alguns artifícios retóricos. A questão matrimonial continua sendo, em tudo isso, absolutamente marginal. Um mero pretexto para uma batalha política: como agrada tanto ao Il Foglio.

4. O "Terceiro Mundo" como suporte retórico

No jogo de espelhos desse observador ideológico demais, a frente da novidade dinâmica é representada agora pela "Igreja africana". Com um giro de valsa bastante inesperado, a diferença cultural da tradição africana é ultrapassada e reconduzida, essencialmente, à reconfirmação da tradição medieval romana. Uma bela confusão, não há dúvida sobre isso.

E a confusão não está na legítima defesa, por parte dos pastores africanos, da diferença entre a sua cultura e a cultura europeia. Isso deve ser honrado e é fruto verdadeiro e sério da "revolução conciliar", que realmente internacionalizou a Igreja. O problema, ao contrário, está na utilização instrumental, por parte do ideólogo norte-americano, de uma sociedade com um forte princípio de autoridade – como a africana – para contestar a evolução de uma teologia do matrimônio que se coloque, justamente, "além da Dignitatis humanae" e não aquém.

Uma coisa são as legítimas reivindicações das Igrejas africanas; outra coisa é a presunção de poder aplicar diretamente o princípio da autoridade, em qualquer lugar, sem a mediação da consciência do sujeito. Porque "Deus quer". A pretensão de Weigel é aqui um sofisma não apenas frágil, mas também institucionalmente bastante perigoso. É uma forma, nem mesmo muito escondida, de imperialismo eclesial.

5. Um diagnóstico reacionário e uma terapia inadequada

Todos os lugares-comuns da polêmica que o tradicionalismo levantou contra o Sínodo – mas ainda antes contra o Vaticano II – estão presentes nesse infeliz texto de Weigel. Não há nenhum reconhecimento das dificuldades reais da família em um contexto realmente pluralista e verdadeiramente multicultural.

Cada questão é reduzida, simplisticamente, na reiteração da doutrina medieval do matrimônio, com uma cegueira e, ao mesmo tempo, com uma arrogância realmente raras. O elogio da família feliz – em algumas passagens de maior qualidade e de sincera abertura – assemelha-se, porém, a uma propaganda de TV do que com um discurso pastoral fundamentado e responsável. Quão diferente, na cultura anglo-saxônica, parece ser a leitura da "modernidade católica" proposta por C. Taylor.

Mas, além disso, não é muito curioso que, no plano da configuração do matrimônio, todos os fantasmas "antimodernistas" sejam evocados. Acima de tudo, aquele fantasma que se chama "liberdade" e que deve ser desmentido a todos os custos, reduzindo-o a – e acusando-o de – "comunismo", "relativismo", "homossexualismo".

Weigel, no entanto, sabe bem que uma "comunhão" que não seja "plenitude de liberdade" não tem nada a ver com Deus. E esse é o problema que o Sínodo de 2015 deve enfrentar: a comunhão dos cônjuges e das famílias é ameaçada pela liberdade dos sujeitos ou, em última análise, é ordenada justamente a ela?

Parece que Weigel escreveu o seu texto levando em consideração as questões de uma direita política que deve vencer as eleições nos EUA, e não os problemas de uma Igreja que deve cuidar das próprias famílias, felizes e infelizes, alegres ou feridas.

Weigel assume o Sínodo e a Igreja que nela se expressa como "campo de batalha". Não mostra ter ideia alguma da Igreja como "hospital de campanha" ou como "campo de refugiados". Ao contrário, na sua Igreja, não há necessidade de um hospital qualquer. Parece-lhe faltar, como muitas vezes diz o Papa Francisco, o olhar justo para compreender a questão. E, portanto, ele parece não ver o campo justo onde se possa acolher e cuidar, e não onde se possa repelir e derrotar.

Para um Sínodo, que é um caminhar comum, a direção do "olhar" não é uma questão que se possa deixar de lado, e a definição do "campo" não é um opcional reservado ao natural comércio do mercado. Ao menos sobre isso, Weigel também deveria compartilhar o caminho, para se deixar olhar pelo outro necessitado de cuidados, e não simplesmente para identificar o inimigo a ser batido.

Mas a tentação do "não" à liberdade, a velha tentação apologética, vence as resistências. A virada pastoral do Vaticano II continua sendo, para Weigel, uma palavra ainda incompreendida.

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