A Gaudium et Spes 50 anos depois e o Papa Francisco como o parteiro de uma igreja global. Conferência de Massimo Faggioli

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21 Maio 2015

Massimo Faggioli

“Gaudium et Spes” 50 anos depois: seu sentido para uma Igreja aprendente foi o tema da conferência de Massimo Faggioli na manhã de 20-05-2015. Professor na University of St. Thomas, nos Estados Unidos, o historiador italiano iniciou sua fala no II Colóquio Internacional IHU – O Concílio Vaticano II: 50 anos depois. A Igreja no contexto das transformações tecnocientíficas e socioculturais da contemporaneidade recuperando a importância do resgate do Concílio Vaticano II por ocasião de seu 50º aniversário. 

 

Faggioli questionou se a eleição do Papa Francisco não mudou o papel do Vaticano II na Igreja Católica. Para ele, muitas das mudanças que temos presenciado desde sua escolha em março de 2013 estão relacionadas com o papel da Gaudium et Spes, a constituição pastoral sobre a Igreja no mundo moderno. “Agora está claro que o pontificado do Papa Francisco produziu uma das mais surpreendentes inversões de destinos referentes ao legado teológico de um concílio ecumênico, e isso se aplica especialmente à constituição pastoral Gaudium et Spes, cuja história no Vaticano II e cuja recepção após o Vaticano II são particularmente significativas para entender todo o Vaticano II.”

Documento que ficou praticamente “esquecido” durante o papado de Bento XVI, a Gaudium et Spes é citada com frequência pelo Papa Francisco. “Não há muita dúvida de que a constituição pastoral é o documento-chave do Vaticano II para orientar nossa compreensão do Papa Francisco e sua relação tanto com o próprio Concílio quanto com o período pós-conciliar. O renascimento de Gaudium et Spes é visível em tudo que ele diz e faz, e especialmente em seus dois mais importantes atos: no título do mais importante documento de seu pontificado até agora, desde a exortação Evangelii Gaudium (24 de novembro de 2013) até a bula Misericordiae Vultus de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia (13 de março de 2015).”

Recepção teológica do Vaticano II

Uma espécie de “epítome” do Concílio. É isso que a Gaudium et Spes é, para bem e mal, observa Massimo Faggioli. “Neste sentido, ela é alvo da postura anti-Vaticano II que se expressa mais com repúdio e desprezo do que com críticas teológicas. Em retrospecto, as pessoas que resumiram Gaudium et Spes na famosa manchete “A pílula e a bomba” não tinham ideia do prejuízo que estava sendo causado à recepção do documento. Os efeitos devastadores da bomba atômica foram vivenciados figurativamente pela paisagem cultural e moral da constituição pastoral – a primeira vítima do debate às vezes monotemático e legalista pós-Vaticano II sobre matrimônio, família e reprodução”.

E continua: “Está claro que Gaudium et Spes é o mais perfeito exemplo de um problema na recepção de um documento do Concílio Vaticano II – uma recepção dividida segundo linhas divisórias teológicas que se sobrepuseram a uma rejeição teológico-política do Vaticano II em geral e, especialmente, do documento que abre a teologia católica para uma Igreja verdadeiramente global”.

A certa altura, pontua Faggioli, é preciso escrever uma história de recepção teológica do Vaticano II, “especialmente da recepção de Gaudium et Spes, e seu papel na cultura do ensino superior católico. Essa questão também não deixa de ser política, mas é, antes de mais nada, cultural”.

Igreja aprendente e crise do bem comum

Massimo Faggioli observou que a Gaudium et Spes é endereçada “a todos os homens e mulheres de boa vontade, e isso prepara o terreno para uma Igreja que ensina, mas também aprende”. Mas como, de que forma essa Igreja está aprendendo? Como uma Igreja que tem apreço pelos pobres e sua própria pobreza como humildade, a Igreja visionada por Gaudium et Spes opera no mundo do conhecimento com sobriedade, austeridade, simplicidade, agilidade mental, castidade intelectual, mas também magnanimidade e generosidade cultural.

E concluiu: “A crise da ideia de “bem comum” em alguns quadrantes católicos é um produto do cinismo contra o Vaticano II e do pouco caso feito de Gaudium et Spes em particular. Sem a cosmovisão universal-cosmológica da constituição pastoral, a modernidade se torna facilmente o triunfo de narrativas identitárias.

O Vaticano II como um “rótulo em si mesmo”

Inúmeras e candentes questões marcaram o momento do debate a seguir à conferência de Massimo Faggioli. Afonso Murad, doutor em Teologia Sistemática pela Universidade Gregoriana e professor de Teologia na Faculdade Jesuíta – FAJE, em Belo Horizonte, iniciou os questionamentos se referindo à hermenêutica do reconhecimento e história como locus teológico. O pesquisador italiano respondeu que seu trabalho é tentar entender o que está acontecendo na Teologia a partir de uma perspectiva histórica. Nesse contexto, a influência do ambiente dos Estados Unidos em sua pesquisa é decisiva. “O reconhecimento nos EUA desempenha um papel muito particular e específico no sentido de que a Teologia da Libertação, a Teologia Feminista e a Indígena fazem parte desse reconhecimento. No establishment católico norte-americano existe essa impressão de que na década de 1970 reconhecemos demais, e agora está na hora de ‘desreconhecer’ algo”, constatou.

Isso tem consequências enormes para a forma como fazemos teologia, disse. A primeira vítima dessa reação contra o reconhecimento é dizer que a Gaudim et Spes “entregou” a Igreja de mão beijada para o mundo. Some-se a isso que, num contexto eclesial específico como os EUA, aceitar o Concílio Vaticano II é um rótulo em si mesmo. “Lá, se você trabalha com o Concílio Vaticano II e o menciona de qualquer forma, imediatamente você é colocado na ‘caixinha’ daqueles que são a favor do mundo e, em certo sentido, contra a Igreja. Imagino que tal não seja a a situação aqui, ou pelo menos espero que não seja. Posso dizer que isso é uma das coisas mais chocantes que vi nos EUA”.

Faggioli revelou, ainda, que o cânone teológico no EUA oscila entre o pensamento de Agostinho e Tomás de Aquino. “A Gaudium et Spes é uma espécie de terra de ninguém, porém ela continua tendo muito a dizer a todos nós. Meu esforço talvez pareça a vocês excessivo ou demasiado ansioso, mas o objetivo é salvar esse documento do desprezo, negligência, negação e desautorização”.

“Deshelenização” do catolicismo

Outra questão surgida no debate pretendia saber a importância de se praticar uma “deshelenização” do catolicismo. Em Regensburg, Bento XVI afirmava a importância da filosofia grega para a Europa. Francisco, na Evangelii Gaudium chama a atenção para o fato de que o Evangelho não é cultural pura e simplesmente, mas deve representar a todas as culturas. Para Faggioli, existe uma grande diferença entre o que Bento XVI disse em Regensburg, e o que Francisco diz e o que ele realmente é. A mudança vai do eixo Jerusalém, Atenas a Roma.

O Papa Francisco interpreta o Concílio Vaticano II e a Gaudium et Spes profundamente. Esse documento diz que o catolicismo não é uma cultura, mas tem muitas culturas em si. Surpreendentemente, o empreendimento mais importante para os católicos nos últimos 25 anos nos EUA foi a criação de faculdades que estudam o catolicismo como um pacote cultural, que significa uma cultura de casamento, sexualidade e da arte (a europeia, italiana e medieval do barroco, somente). Nesse sentido existe uma rejeição da Gaudium et Spes, que afirma que o catolicismo não é algo cultural, apenas.

O teólogo Paulo Süess questionou Faggioli sobre seu ponto de vista acerca de uma hermenêutica de reconhecimento não ser suficiente. Que Evangelho é esse que se incultura, quis saber. “A Igreja tem que voltar e aprender com Jesus Cristo. A Igreja do Concílio Vaticano II é uma Igreja que tenta se parecer mais com Jesus Cristo e menos com Carlos Magno ou Constantino”, argumentou Faggioli.

Realidade empacotada

José Oscar Beozzo perguntou acerca do paradoxo de que na América Latina o documento do Vaticano II que mais bem recebido foi a Gaudium et Spes. Faggioli admoestou que ao mesmo tempo em que isso se deu em nosso continente, há uma crítica muito diferente a essa constituição conciliar. “Esse documento trouxe o mundo para dentro da Igreja. Em Medellin se perguntou a qual mundo deveríamos estar ligados. Lemos a modernidade sob os olhos dos pobres e excluídos, afinal?”

Elias Wolff, da PUC Paraná, quis saber se é possível a igreja aprender com os legados das outras religiões, ampliando e fortalecendo uma Teologia que reconheça a positividade das tradições religiosas. “O parágrafo 22 da Gaudium et Spes é um dos mais importantes nesse sentido”, frisou Faggioli. “Penso que o que esse documento reconhece que há uma realidade lá fora, e que precisamos compreender e nos reconciliarmos com uma compreensão do papel salvífico de Jesus. Precisamos ver a realidade como algo que não é um acidente da história, mas algo que faz perguntas a nós, que nos interpela. A Gaudium et Spes não nos dá todas respostas, mas continua lançando perguntas que continuam válidas”.

E emendou: “Se nós empacotarmos a realidade bem o suficiente, podemos ignorar essas questões. Se tornarmos as pessoas ricas e contentes o suficiente, dando-lhes drogas lícitas grátis, não será preciso nos preocuparmos. A Gaudium et Spes reconhece as contradições em nosso mundo, e isso é uma porta aberta para nossa tarefa atualmente”.

Falarmos em uma nova igreja global significa que estamos extraindo novas respostas de Gaudium et Spes que não extraíamos antes. Para Faggioli, “o Papel de Francisco é o de parteiro dessa igreja global. Naquilo que ele diz, podemos aponta-lo como o porta voz de um tempo. E a Gaudium et Spes está passando por um novo processo de interpretação”.

Por Márcia Junges | Foto: João Vitor Santos

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