Ratzinger: a Eucaristia existe para ser recebida

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02 Junho 2016

O ensaio desta página, é uma conferência que, em 1960, na véspera do Concílio Vaticano II, o então professor, de trinta e três anos de idade, catedrático de teologia fundamental na Universidade de Bonn, Joseph Ratzinger, realizou na "Obra Católica de formação religiosa" da cidade de Leverkusen.

Inédito na Itália até agora, "Ideias Fundamentais da Renovação Eucarística do século XX" apresenta o ensaio de abertura do primeiro dos dois tomos do 7º volume da Opera Omnia de Joseph Ratzinger - Bento XVI, que recolhe os escritos do Concílio e que a Libreria Editrice Vaticana publicará no outono próximo (RATZINGER, J. L’insegnamento del Concilio (Trad. Pierluca Azzaro). Vol. 7/1, Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2016.

O artigo foi publicado por Avvenire, 29-05-2016. A tradução é de Ramiro Mincato

Eis o artigo.

Nos últimos três ou quatro séculos, de forma bastante unilateral, acentuou-se o fato de que o próprio Deus está presente na hóstia consagrada. É algo, sem dúvida, importante e grande, e por isso, compreensível que toda atenção estivesse concentrada neste ponto. Mas, no entanto, isto não é o decisivo neste sacramento, e sobretudo, não é aquilo que Cristo queria, na verdade, com sua instituição.

O resultado da compreensão da Eucaristia, no passado, tinha sido, sobretudo, de que a Eucaristia era entendida como um sacramento para a adoração: Deus está presente, portanto, é preciso adorá-lo. O ostensório foi enriquecido cada vez mais (ele só existiu a partir do final da Idade Média), o tabernáculo tornou-se sempre mais majestoso, cobrindo quase toda a mesa do altar. Nasceram procissões e orações para a adoração eucarística. Mas, acima de tudo, quase não se ousava mais comungar.

Deus pode ser adorado: mas é possível também recebê-lo? Quem poderia ainda ousar a fazê-lo? Receber a comunhão tornou-se uma ocorrência rara, e já no dia seguinte não se ousava fazê-la novamente. Na consciência comum foi ficando impresso firmemente que a cada vez, antes de receber a comunhão, era necessário confessar-se. Se, pois, (muito raramente) se ousava comungar, o sentido desse ato foi compreendido principalmente como ato de adoração: Deus estava presente e era necessário glorificar sua grandeza.

Neste tipo de piedade havia, sem dúvida, muita coisa boa e sincera da qual hoje precisaríamos recuperar um pouco; talvez, hoje, tenhamos pouco temor e, às vezes, vamos à mesa do Senhor de maneira bastante superficial. Este conjunto de coisas, porém, não corresponde exatamente ao sentido originário do sacramento. O real significado deste sacramento pode-se muito bem reconhecer no sinal que Cristo escolheu. Nele sua presença é escondida atrás da figura do pão. Podemos nos perguntar simplesmente: o que é o pão na vida cotidiana? A resposta é fácil: é alimento.

Portanto, não é algo para olhar, mas para comer. Se o Senhor liga sua presença à figura do pão, o sentido de tal processo é absolutamente claro: também este pão santo, em primeiro lugar, não foi feito para ser contemplado, mas para ser comido. Isso significa que ele não permaneceu para ser adorado, mas acima de tudo para ser recebido. Mais do que dos tabernáculos de pedra, interessam-lhe os tabernáculos vivos, ter os homens cheios do seu Espírito, prontos em tornar presente o Espírito e a realidade de Jesus Cristo neste mundo.

Por sua natureza, portanto, a Eucaristia é uma realidade que deve ser recebida, é uma exortação para nos impregnar e preencher do espírito de Cristo, para erigir assim os tabernáculos de Deus lá onde realmente são necessários: no meio do mundo em que vivemos, entre os homens que estão ao nosso redor. Por esta razão, a mesa do altar, a refeição, é maior do que o tabernáculo, porque Cristo nos chama a sermos seus tabernáculos neste mundo, a termos a coragem do seu Espírito, o Espírito da verdade, de retidão, de justiça e de bondade.

A Eucaristia culmina na comunhão, quer ser recebida. Se refletirmos um pouco, aparecerá outro elemento. O que realmente acontece na Sagrada Comunhão? Todos comungantes comem de um e mesmo pão, Cristo, o Senhor. Eles comem na mesma mesa de Deus, em que não há diferença, em que empregador e empregado, alemão e francês, douto e ignorante, todos têm o mesmo valor.

Se querem pertencer a Deus, pertencem a única mesa: a Eucaristia reúne a todos num único banquete. E, como mencionado, em comum não há só a mesa, mas aquilo que é comido; realmente é, de fato, uma mesma e única coisa: todos comem do corpo de Cristo, porque todos estão unidos espiritualmente na mesma realidade fundamental que é Cristo, todos entram, por assim dizer, num único espaço espiritual que é Cristo.

Num momento de êxtase espiritual, Agostinho pensou ter ouvido a voz do Senhor, que dizia: "Eu sou o pão dos fortes. Toma e come. Não serás tu, no entanto, a transformar-me em ti, como acontece com o alimento comum, mas eu transformar-te-ei em mim". Isso significa que, na alimentação normal, o homem é mais forte do que o alimento. Ele o come, no processo digestivo é decomposto e (no que for útil) assimilado ao corpo, transforma-se em substâncias próprias do organismo, torna-se um pedaço de nós mesmos, transformado na substância do nosso corpo.

Na Eucaristia, o alimento, ou seja, Cristo, é mais forte e maior do que nós. De modos que o sentido deste alimento é exatamente o oposto: ele quer transformar-nos, assimilar-nos a Cristo, para que possamos sair de nós mesmos, ir para além de nós mesmos e nos tornar como Cristo. Mas isto significa que, por conseguinte, todos os comungantes, por meio da comunhão, são tirados para fora de si e assimilados ao único alimento, isto é, a realidade espiritual de Cristo. O que significa, por sua vez, que eles são também amalgamados entre si. São levados para fora de si, e conduzidos a um único centro.

Os Santos Padres dizem: estes se tornam (ou deveriam tornar-se) “Corpo de Cristo”. E este é o autêntico significado da Sagrada Comunhão: que os comungantes tornem-se entre si uma coisa só, por meio da uniformização a Cristo. O significado primário da comunhão não é o encontro do indivíduo com seu Deus - para isso haveria outras meios -, mas exatamente a fusão dos indivíduos entre si por meio de Cristo. Pela sua própria natureza, a comunhão é o sacramento da fraternidade cristã.

Isto parece-me extremamente importante no que diz respeito à recepção concreta da comunhão. Já em nossas orações, após a comunhão, deveríamos tomar consciência, sempre de novo, de que recebemos o sacramento da fraternidade e deveríamos tentar entender o compromisso que ele exige. Deste modo, deveríamos saber claramente que o catolicismo não se afirma unicamente numa relação vertical do indivíduo com Cristo e com o Pai, e nem mesmo apenas numa ligação com o vértice supremo hierárquico, o Papa, mas que pertence, essencialmente, à natureza do catolicismo também uma ligação horizontal, o vínculo dos comungantes e das comunidades eucarísticas entre si.

Afinal de contas, o nacionalismo dos povos católicos é algo do qual deveríamos nos envergonhar profundamente, pois mostra até que ponto o sentido autêntico da comunhão foi esquecido. Ser católico não significa apenas que todos nós dizemos "sim" a Roma, mas também, que todos nós dizemos "sim", reciprocamente, um ao outro, reconhecendo-nos como essa comunidade única daqueles que fazem parte no Corpo de Cristo e, por meio dele, do Espírito de Cristo.

Com esta base, a cristandade primitiva interpretou a natureza da Igreja. Dizia-se: a Igreja é o corpo de Cristo, e isso deve significar que é a comunidade daqueles que, juntos, recebem o Corpo de Cristo, são um para o outro uma coisa só. A natureza da unidade da Igreja realizava-se, visivelmente, por meio do fato de que as comunidades individuais comungavam entre si, ou seja, pelo fato de que cada cristão podia receber a comunhão em cada uma das comunidades cristãs e, portanto, todos, por meio de um só pão, sabiam estar unidos e vinculados ao único Senhor e ao seu Espírito. Hoje, precisamos de um pouco "desta consciência do que é a Igreja: a Igreja não é um partido e não é um sistema político, mas é a comunidade no Corpo do Senhor. Certamente precisa também de uma administração e de um aparato, mas é, essencialmente, muito mais do que isso. (...)

Depois de tudo o que foi dito, não podemos considerar a comunhão sacramental simplesmente como uma oração privada, onde o indivíduo encontra seu Deus, por mais que ele deva fazer também isso. A comunhão sacramental é mais: é o selo de pertença mútua dos cristãos entre si, através de sua ligação comum com Cristo. É por isso que esta é uma parte essencial da missa, em que celebramos esta nossa união como irmãos, por meio de nosso irmão, Jesus Cristo.

Com base nessa convicção, ao longo do percurso da renovação eucarística, nas últimas décadas, se reinseriu a comunhão dentro da missa, da qual tinha sido expurgada indevidamente, desde o final da Idade Média. Tinha-se chegado ao ponto de distribuir a comunhão somente fora da missa. De tal modo, a comunhão foi rebaixada a um ato de edificação privada, obscurecendo sua importância, isto é, de ser parte daquele evento global, que é a Santa Missa: o selo de fraternidade entre Deus e os homens, e, portanto, desde Deus, à fraternidade dos homens entre si; à inclusão de todos no acontecimento da cruz, de tal modo que o mundo inteiro, entregue a Deus, seja reconduzido ao seu verdadeiro sentido; ao chamado de cada indivíduo para ser tabernáculo vivo de Deus no mundo.

A “comunhão” é, por natureza, parte da Missa, e portanto, de norma, deve ser inserida nela. Se às vezes é preciso estar fora, como no caso da comunhão aos doentes, sua íntima correlação com a celebração da missa continua a subsistir. E não é bom, para o doente, saber que, com a santa comunhão, o evento da missa e com ela toda a Santa Igreja chega junto dele no leito de dor, de modo que ele assim toma parte da comunidade da Igreja, toma parte não só de Deus, mas do ato de amor do Senhor, do seu sacrifício que está por detrás da hóstia e do qual ela é penhor e testemunho?

A partir disso, desenvolveu-se uma nova compreensão da questão da frequência à sagrada comunhão. Comunhão não é recompensa para os particularmente virtuosos (quem, neste caso, poderia recebê-la, sem ser fariseu?), mas, em vez disso, é o pão dos peregrinos que Deus nos oferece neste mundo, que nos oferece dentro da nossa fraqueza. Ela é o nosso "sim" à Igreja, à comunidade daqueles que acreditam junto conosco; é a modalidade pela qual realmente e de fato nos unimos sempre de novo à Igreja; é aquele evento que, continuamente, nos chama para fora de todas as relações puramente terrenas e torna real o Divino-Eterno em nossas existências.

Por isso, é exatamente o homem em perigo que tem necessidade de contínua atualização de sua fé, por meio da qual, ele pode viver a comunidade de fé de maneira concreta. A comunhão dominical, portanto, deve ser uma contínua exortação a “comungar” em sua vida diária, ou seja, a viver como cristão; de fato, no início da Igreja, ser cristão era equivalente a ser "comungante”, a ser um dos que participavam na comunidade do corpo do Senhor, que é a Igreja.

Pelo fato de que a Igreja é comunidade eucarística - e que, consequentemente, ser cristão e ser "comungante" é a mesma coisa -, e ser cristão consiste simplesmente na participação no corpo do Senhor (circunstância da qual todo o resto deriva), resulta também a norma da frequência à comunhão: para a pessoa que trabalha – e que, portanto, dificilmente pode comungar diariamente - a comunhão dominical deveria ser a norma, enquanto que para a confissão, dependendo da disposição, poderia ser suficiente praticá-la mensalmente ou até mesmo trimestralmente.

Dizer que é impossível para um cristão normal viver sem cair em pecado mortal por tanto tempo, é uma afirmação que significa ter, ao mesmo tempo, em muito baixa consideração o cristão e em uma falsamente elevada consideração do pecado mortal. Um cristão que se esforça sinceramente para viver como cristão, não vive em estado de pecado mortal, pecado este que não acontece acidentalmente ou marginalmente: algo que acontece acidentalmente, por isso mesmo, não é um pecado mortal.

Creio que, aqui, realmente devemos mostrar mais coragem e mais fé. Todo nosso cristianismo poderia mudar seu rosto, se fosse de novo evidente que ser cristão e ser “comungante" é uma mesma e única coisa. Ser cristão deveria voltar a ser algo muito mais real, mais dinâmico, mais originário e genuíno. A consciência de pertença à comunidade eucarística poderia ser uma nova luz para a nossa vida diária. A Igreja recuperaria sua concretude, nosso ser cristão não seria apenas um dado estatístico, mas uma realidade viva.

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