Müller agora acredita que “pode haver atenuantes” no acesso à comunhão dos divorciados em segunda união

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31 Outubro 2017

Marcha a ré? As últimas palavras do cardeal Müller, outrora poderoso prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, acerca da Amoris Laetitia, resultam no mínimo paradoxais. Assim, no prefácio de um livro de Rocco Buttiglione, que será lançado em meados de novembro na Itália, com o título Respostas amigáveis aos críticos da Amoris Laetitia (edições Ares), o purpurado alemão ressalta que no caso da comunhão aos divorciados em segunda união “pode haver atenuantes”.

A reportagem é de Jesús Bastante, publicada por Religión Digital, 30-11-2017. A tradução é do Cepat.

Em seu texto, o filósofo Buttiglione, que se tornou um dos mais firmes defensores da exortação apostólica do Papa Francisco, responde às críticas dirigidas contra Bergoglio pelos cardeais das dubia, os intelectuais da Correctio Filialis e outros, entre os quais se inclui o próprio Müller. “Do fundo do coração, agradeço a Rocco Buttiglione pelo grande serviço que confere, com este livro, à unidade da Igreja e à verdade do Evangelho”, assume o purpurado.

Em tal prefácio, hoje antecipado por Vatican Insider, Müller qualifica como “lamentável” a “áspera controvérsia” sobre o capítulo dedicado à comunhão dos divorciados em segunda união. Esta questão, admite o cardeal, “foi elevada, falsamente, à categoria de questão decisiva do catolicismo e pedra angular ideológica para decidir quando se é conservador ou liberal, quando se está a favor ou contra o Papa”.

“Em meio a estas tentações cismáticas e desta confusão dogmática tão perigosa para a unidade da Igreja, que se baseia na verdade da Revelação, Rocco Buttiglione, como um autêntico católico de comprovada competência no campo da teologia moral, oferece, com os artigos e ensaios reunidos neste volume, uma resposta clara e convincente”, afirma Müller, que denuncia aos ‘críticos’ a Bergoglio, cujas inspirações nascem das famosas cinco dubia desses cardeais.

Na sequência, Müller entra nas duas teses principais do livro de Buttiglione, com as quais – afirma – “concordo com absoluta convicção:

1. As doutrinas dogmáticas e as exortações pastorais do oitavo capítulo da Amoris Laetitia podem e devem ser compreendidas em sentido ortodoxo.

2. Amoris Laetitia não implica qualquer mudança magisterial para uma ética da situação e, portanto, nenhuma contradição com a encíclica Veritatis Splendor, do Papa São João Paulo II.

Ao mesmo tempo e se referindo à “consciência subjetiva” que poderia permitir que um divorciado em segunda união pudesse comungar, o cardeal alemão sugere que “continua sendo válida a doutrina da Veritatis Splendor (art. 56; 79), inclusive no que diz respeito a Amoris Laetitia (art. 303), segundo a qual existem normas morais absolutas às quais não se confere nenhuma exceção”. E aponta que “é evidente que Amoris Laetitia (art. 300-305) não ensina e não propõe acreditar de maneira vinculante que o cristão, em uma condição de pecado mortal atual e habitual, possa receber a absolvição e a comunhão sem se arrepender de seus pecados e sem formular o propósito de já não pecar”.

No entanto, acrescenta, “existem diferentes níveis de gravidade segundo o tipo de pecado”. Assim, “para a imputabilidade da culpa no julgamento de Deus é necessário considerar os fatores subjetivos como a plena consciência e o deliberado consenso na grave falta contra os mandamentos de Deus, que tem como consequência a perda da graça santificante e da capacidade da fé em se tornar eficaz na caridade”, afirma, citando – como o Papa FranciscoSão Tomás de Aquino.

“Na avaliação da culpa pode haver atenuantes e as circunstâncias e elementos acessórios de um convivência irregular semelhante ao matrimônio também podem ser apresentadas diante de Deus, em seu valor ético, na avaliação de conjunto do julgamento (por exemplo, o cuidado dos filhos em comum que é um dever que deriva do direito natural)”, admite o ex-prefeito da Doutrina da Fé, que acrescenta que o Papa, na Amoris Laetitia, “não propôs nenhuma doutrina que deva ser acreditada de maneira vinculante e que esteja em contradição aberta ou implícita com a clara doutrina da Sagrada Escritura e com os dogmas definidos pela Igreja sobre os sacramentos do matrimônio, da penitência e da eucaristia”.

“As situações existenciais são muito diferentes e complexas, e a influência de ideologias inimigas do matrimônio, muitas vezes, é preponderante. O cristão pode se encontrar sem sua culpa na dura crise de ser abandonado e de não conseguir encontrar nenhuma outra rota de fuga a não ser se confiar a uma pessoa de bom coração e o resultado são relações semelhante às relações matrimoniais”, aponta Müller, que acrescenta que “é preciso uma particular capacidade de discernimento espiritual no foro interior, por parte do confessor, para encontrar um itinerário de conversão e de reorientação para Cristo que seja adequado para a pessoa, indo além de uma fácil adaptação ao espírito relativista do tempo ou de uma fria aplicação dos preceitos dogmáticos e das disposições canônicas, à luz da verdade do Evangelho e com a ajuda da graça antecedente”.

Após abordar a questão das nulidades e dos matrimônios civis, Müller aborda a polêmica suscitada pelas leituras do parágrafo 305 e da nota 351 da Amoris Laetitia. Em uma guinada de argumento, o cardeal sustenta que tal nota “não contém nada que contrarie” a indissolubilidade do matrimônio. “Os sacramentos foram estabelecidos para nós, porque nós somos seres corpóreos e sociais, não porque Deus os necessite para comunicar a graça. Justamente por isso, é possível que alguém receba a justificação e a misericórdia de Deus, o perdão dos pecados e a vida nova na fé e na caridade, mesmo que por razões exteriores não possa receber os sacramentos ou então tenha uma obrigação moral de não os receber publicamente para evitar um escândalo.

“Não se trata de um gradualidade da lei, mas, ao contrário, de sua aplicação progressiva a uma pessoa concreta, em suas condições existenciais concretas”, ressalta o ex-prefeito. “Não se trata de um pecador empedernido, que quer fazer valer, diante de Deus, direitos que não tem. Deus está particularmente perto do homem que segue o caminho da conversão, que, por exemplo, assume a responsabilidade pelos filhos de uma mulher que não é sua legítima esposa e tampouco negligencia o dever de cuidar dela. Isto também vale no caso em que ele, por sua fragilidade humana e não pela vontade de se opor à graça, que ajuda a observar os mandamentos, ainda não seja capaz de satisfazer todas as exigências da lei moral. Uma ação em si pecaminosa não se torna por isso legítima e nem sequer agradável a Deus. Mas, sua imputabilidade como culpa pode ser diminuída quando o pecador se dirige à misericórdia de Deus com coração humilde e reza: ‘Senhor, tem piedade de mim, pecador’. Aqui, o acompanhamento pastoral e a prática da virtude da penitência como introdução ao sacramento da penitência têm uma importância particular. Esta é, como diz o Papa Francisco, “uma via do amor”.

“Segundo as explicações de São Tomás de Aquino, que citamos, a Santa Comunhão pode ser recebida eficazmente só por aqueles que se arrependem de seus pecados e se aproximam da mesa do Senhor com o propósito de já não o cometer mais. Posto que cada batizado tem o direito de ser admitido na mesa do Senhor, só pode ser privado deste direito devido a um pecado moral, enquanto não se arrependa e seja perdoado. No entanto, o sacerdote não pode humilhar publicamente o pecador, negando-lhe publicamente a Santa Comunhão e prejudicando sua reputação frente à comunidade”, sustenta Müller, concluindo que, “após a penitência e a reconciliação (absolvição), a Santa Comunhão não deve ser negada nem sequer aos pecadores públicos, especialmente em caso de perigo de morte”.

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