O novo fronte do papa pós-colonial. Artigo de Massimo Franco

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25 Junho 2014

A involução da situação política no Iraque e o impasse na Síria são duas faces desse perigo, que o Papa Francisco tentou frear e combater com iniciativas calibradas sob um perfil exclusivamente religioso: talvez justamente porque ele mediu todas as suas implicações estratégicas.

A análise é do jornalista italiano Massimo Franco, colunista político do jornal Corriere della Sera, em artigo publicado no caderno La Lettura do mesmo jornal, 22-06-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Segundo o analista político, "o Papa Francisco não é apenas um papa do pós-Guerra Fria. A sua proveniência do Ocidente extremo o torna uma espécie de pontífice pós-ocidental, que não reconhece as divisões Leste-Oeste, mas no máximo as entre Norte e Sul do mundo".

Eis o texto.

Está se materializando novamente o fantasma da "balcanização" do Oriente Médio: o verdadeiro pesadelo do Vaticano. O medo é o violento desmembramento das atuais nações daquele que, não por acaso, a Santa Sé define como "Oriente Próximo" e a criação de mini-Estados monorreligiosos e monopartidários.

Isso significaria a formalização da incompatibilidade entre fés diversas; a segregação de comunidades inteiras consideradas incapazes de conviver e, portanto, condenadas ou ao isolamento ou à guerra; e a destruição de qualquer ponte cultural entre Oriente e Ocidente.

A involução da situação política no Iraque e o impasse na Síria são duas faces desse perigo, que o Papa Francisco tentou frear e combater com iniciativas calibradas sob um perfil exclusivamente religioso: talvez justamente porque ele mediu todas as suas implicações estratégicas.

O que o papa argentino fez do verão passado até hoje foi a tentativa de demonstrar que o soft power, o poder da diplomacia e do diálogo entre as religiões podia mais do que as armas e a pressão militar; e que, por si só, os cálculos geopolíticos podem pouco, se não forem filtrados e completados com uma visão e uma análise das relações de força georreligiosas na região.

A sua recente visita a Israel acompanhado pelo rabino de Buenos Aires, Abraham Skorka, e por Omar Aboud, do Centro Islâmico Argentino, não era pensada para ter como testemunho dois velhos amigos de fés diferentes. A sua presença devia confirmar aos interlocutores palestinos, ortodoxos e judeus que o diálogo inter-religioso não era uma novidade para ele; que eles o tinham praticado durante anos na Argentina antes de ele se tornar papa. Em suma, que Francisco é um interlocutor aberto aos outros desde sempre.

É a oferta do "modelo Buenos Aires" em escala global. Ou, melhor, de uma receita latino-americana em puro estilo Bergoglio, que põe de lado os tabus e os paradigmas impostos por décadas pelo choque entre Ocidente e União Soviética; e, depois, dos conflitos com e dentro do mundo muçulmano que se seguiu aos atentados da Al Qaeda contra os Estados Unidos em 2001.

Sob esse aspecto, o Papa Francisco não é apenas um papa do pós-Guerra Fria. A sua proveniência do Ocidente extremo o torna uma espécie de pontífice pós-ocidental, que não reconhece as divisões Leste-Oeste, mas no máximo as entre Norte e Sul do mundo. Não só isso. O Vaticano é um defensor natural do multipolarismo: quanto mais numerosos forem os atores no cenário internacional, mais a Santa Sé pode esperar encontrar margens de manobra.

Por isso, o Vaticano sempre olhou com preocupação para o unipolarismo norte-americano dos anos de George W. Bush, suportando a opção militar não tanto no Afeganistão, mas sim no Iraque. Agora, ele está decidido a despedaçar o clichê que no mundo islâmico acabou por identificar o cristianismo com os conflitos do Ocidente: uma vulgata utilíssima ao fundamentalismo e letal para a Santa Sé. O motivo pelo qual a sua mensagem ao presidente russo, Vladimir Putin, abriu caminho, em setembro passado, foi definitivamente porque, no fundo, nem o Kremlin nem a Casa Branca queriam realmente uma intervenção militar na Síria; mas também porque Putin, pela primeira vez, não percebeu o Vaticano como uma espécie de prótese ou de corolário religioso da Aliança Atlântica: um preconceito herdado das décadas da Guerra Fria.

As raízes argentinas e sul-americanas de Francisco o credenciaram como uma figura diferente dos antecessores, como o polonês João Paulo II e o alemão Joseph Ratzinger: um outsider também geopolítico e, portanto, uma referência com a qual é possível dialogar em bases totalmente novas.

Na realidade, isso não significa o afastamento da Santa Sé de relações profundas e enraizadas com os EUA e com a Europa, embora os Estados Unidos sejam um universo desconhecido para o ex-arcebispo de Buenos Aires, que nunca pusera os pés lá até agora. Mas o Vaticano optou por se distanciar da imagem oferecida nos últimos anos pelo Ocidente, americano e europeu, nessa região do mundo. E tenta reafirmar a sua presença, levando em conta um contexto internacional totalmente modificado.

Trata-se de uma dissociação que começou com a intervenção anglo-americana no Iraque e que se acentuou durante as "primaveras árabes" de 2011. Depois de três anos, o fenômeno que despedaçou os velhos equilíbrios no Norte da África apresenta um balanço no mínimo controverso. As comunidades cristãs se viram esmagadas pela acusação de terem sido cúmplices dos velhos ditadores laicos, como Gaddafi na Líbia e Mubarak no Egito, que lhes é dirigida pelas novas elites islâmicas; e, paralelamente, de serem portadoras dos valores "corruptos" do Ocidente que acompanhou e apoiou militarmente essas revoltas.

O resultado foi o de acentuar as perseguições e de acelerar o êxodo forçado de centenas de milhares de cristãos: o mesmo fenômeno que está se replicando no Iraque. Sobre aquelas "primaveras", Vaticano e Rússia alimentavam reservas semelhantes, que a involução da situação confirmou. E foi o próprio resultado caótico das revoluções no Magrebe que sugeriu cautela sobre a Síria.

O juízo comum foi o de que o regime de Bashar Assad constitui o mal menor na Síria: ao menos para a numerosa comunidade ortodoxa, estreitamente ligada a Moscou por motivos econômicos, militares e familiares; e para a minoria católica que, no entanto, sente-se mais protegida e teme um regime infiltrado, se não hegemonizado, pela Al Qaeda.

Sob esse aspecto, Francisco usou o caso sírio tanto para reafirmar a presença vaticana na política externa depois de anos de imobilismo; quanto para tentar uma reaproximação entre a Igreja Católica e a Ortodoxa, em primeiro lugar russa.

O avanço dos guerrilheiros sunitas do Isis no Iraque, no entanto, corre o risco de catalisar a desintegração territorial não só do país que foi dominado por Saddam Hussein, mas da própria Síria. Está se concretizando – escreveu de Bagdá a agência católica de imprensa Asia News – "a hipótese, desde sempre hostilizada pela Igreja iraquiana, de uma divisão do país: xiita no sul e no leste, sunita a oeste, e curda no norte". Novamente, vem à tona a síndrome de um Oriente Médio "balcanizado": desmembrado começando pelo Iraque, com novas fronteiras em incubação.

Desta vez, elas não seriam traçadas pelas potências coloniais do Ocidente, mas sim por potentados religiosos fundamentalistas, com um efeito dominó difícil de se prever: certamente prejudicial para as minorias que temem ser expulsas em breve do seu mundo, entregando novamente um cristianismo do Oriente Médio sem mais fiéis, reduzido a um museu espiritual.

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