Companhia de Jesus. 200 anos depois da restauração

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31 Julho 2014

"A história dos jesuítas é, entre outras coisas, a história de um antídoto potencial para antagonismos nacionais e para a guerra que estes resultam", escreve Thomas Worcester, SJ, em artigo publicado  pela revista America na edição de agosto de 2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Thomas Worcester, SJ, é professor de história na College of the Holy Cross, em Worcester, Massachusetts, e especialista em história religiosa e cultural. Editou, ao lado de James Corkery, a obra “The Papacy Since 1500: From Italian Prince to Universal Pastor (2010)” [O papado desde 1500: De um príncipe italiano a um pastor universal]. É o editor geral do “The Cambridge Encyclopedia of the Jesuits” [Enciclopédia Cambridge dos Jesuítas] (Cambridge University Press).

Eis o artigo.

Relembrando momentos difíceis para os jesuítas

Os jesuítas e outros colegas, colaboradores e amigos – e todos aqueles formados nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio – têm uma dívida de gratidão com o Papa Pio VII. Sem este pontífice, é justo dizer que não haveria a Companhia de Jesus hoje, nem escolas jesuítas, faculdades ou universidades; não haveria casas de retiro e nem revistas jesuítas. Pois foi Pio VII quem, no dia 7 de agosto de 1814, restaurou a Companhia de Jesus, cerca de quatro décadas depois de sua supressão pelo Papa Clemente XIV.

Este ano marca o 200º aniversário da restauração. Na verdade, este aniversário aconteceu em meio a tantos outros acontecimentos válidos de nota, os quais fornecem um contexto útil para os eventos que a rodearam. Estes aniversários também apresentam ocasiões excepcionais na escolha de quais aspectos de um evento histórico são lembrados, quais não são e de como o são lembrados. Vejamos.

Em 1814, aproximadamente 15 anos depois de dominar a Europa, o imperador francês Napoleão Bonaparte se viu rodeado pela Quádrupla Aliança entre a Inglaterra, Áustria, Prússia e Rússia, aliança que contava com o pelo apoio moral do papado. Durante boa parte das duas décadas anteriores, a França havia guerreado com o resto da Europa – estendendo os benefícios da Revolução Francesa, segundo alguns autores; subjugando através da violência vários Estados e seus povos, segundo outros. A violência aconteceu também dentro da França: o Reino do Terror enviou muitos à guilhotina sob suspeita de hostilidade para com a Revolução – por mais ínfima que fosse.

De 1814, a guerra deu lugar a uma paz relativa na Europa do século seguinte. Depois da derrota final de Napoleão, em 1815, não haveria outra guerra europeia geral até a Primeira Guerra Mundial. Foram muitas as vítimas de Napoleão, incluindo centenas de milhares de seus próximos soldados, muitos perdidos nas regiões geladas da Rússia. Papas também estiveram entre as vítimas de Napoleão. Pio VI morreu na França em 1799 como prisioneiro do imperador.

Os cardeais elegeram o Papa Pio VII no ano seguinte, em Veneza, o que provou ser uma decisão fortuita. Sem a coragem e perseverança de Pio VII, que reinou de 1800 a 1823, o papado poderia ter desaparecido por completo na esteira de Napoleão. Em 1801, o papa e o imperador entraram em acordo onde restauraram o episcopado e as estruturas diocesanas na França, porém não deixaram lugar para as ordens religiosas masculinas e femininas. Logo em seguida Napoleão quis mais de Pio VII, incluindo a dissolução dos Estados papais. O exército francês apreendeu este papa e, por fim, o levou para França como prisioneiro por sete anos.

Visto como uma espécie de mártir vivo por muitos na Europa, Pio VII era um sobrevivente da guerra e da intimidação de Napoleão altamente honrado. Tão logo Pio VII voltou triunfante para Roma em 1818, apressou-se em restaurar os jesuítas ao redor do mundo. Portanto, os aniversários da derrota de Napoleão (ou a libertação da Europa da dominação napoleônica) e da restauração dos jesuítas estão muito ligados entre si.

Em anos recentes, estudos da história jesuíta desde os fundadores da ordem, em 1540, à supressão de 1773 se tornaram importantíssimos, contando com grande número de conferências, teses, artigos e livros sobre o assunto. Estudos sobre a restauração e sobre a Companhia de Jesus restaurada continuaram, ao menos até agora, sendo um assunto de menor preocupação. Poucos jesuítas notáveis dos séculos XIX e XX, como Pierre Teilhard de Chardin ou Gerard Manley Hopkins, atraíram a atenção. Estes são exceções.

A Companhia no contexto

Claro que a história jesuíta não se desdobrou de forma isolada do resto do mundo. Em 1214, nasceu o futuro rei Luís IX da França, um rei que iria liderar cruzadas à Terra Santa, um rei destinado a ser canonizado santo. Foi o ancestral de muitos monarcas franceses, alguns dos quais eram grandes apoiadores da Companhia de Jesus e alguns dos quais certamente não eram. E 2014 também é um ano de aniversário na Grã-Bretanha. Em 1714, o Eleitor de Hanover sucedeu a rainha Ana como Jorge I, monarca da Inglaterra e Escócia, e com ele veio a garantia de uma sucessão protestante que continua até hoje.

Que a Companhia de Jesus sobreviveu a tudo após sua supressão pelo Papa Clemente XIV deveu-se, em grande parte, à Catarina, a Grande, quem, assim como Jorge I, foi uma protestante alemã que se tornou monarca fora das terras germânicas. Como czarina do Império Russo, Catarina se recusou a permitir que o documento papal de supressão fosse publicado em seus territórios, fazendo assim possível que os jesuítas continuassem o seu trabalho em escolas e em recrutar novos membros para si.

Sob a Casa de Hanover, os jesuítas na Inglaterra e seu império acabaram prosperando de tal forma superou aquilo que eles tinham condições de fazer sob os Tudors ou Stuarts. Uma das lições da história jesuíta é que seus amigos e apoiadores, ou ao menos as pessoas dispostas tolerá-los, podem ser encontrados em lugares surpreendentes e que algumas figuras que se poderia esperar serem fortes apoiadores da Companhia de Jesus nem sempre são assim.

Muitos dos vários aniversários que marcam este ano estão relacionados com a guerra, com a guerra europeia ou outras. Nos Estados Unidos, estamos marcando o sesquicentenário da Guerra Civil; este ano, o fundador do Cemitério Nacional Arlington, de 1864, vem recebendo atenção especial. Também lembramos o 50º aniversário da aprovação dos Direitos Civis de 1964.

Tais aniversários podem ajudar a desencorajar a idealização do passado, incluindo o passado jesuíta, como se este tivesse sido uma era dourada tão somente. Pois o passado jesuíta inclui a existência de escravos e outros atos de aquiescência com o que, hoje, vemos como abusos terríveis dos direitos humanos.

Não obstante, um outro aniversário de guerra está diante de nós: o centenário do início daquilo que se tornaria a Primeira Guerra Mundial. Como este momento será lembrado? Uma exposição em andamento na National Portrait Gallery, em Londres, apresenta uma seleção de fotografias da Grande Guerra que mostram rostos confiantes e mesmo triunfantes de líderes militares, mas também rostos cansados e desmoralizados de feridos e cicatrizados. Em Paris, pelo contrário, há uma exposição de fotografias publicadas no jornal Excelsior entre 1914 e 1918 que mostram muita coragem e determinação, com muito pouco para sugerir que a vitória alguma vez estivesse em dúvida. A guerra pode ser lembrada de muitas e diferentes formas.

A história dos jesuítas é, entre outras coisas, a história de um antídoto potencial para antagonismos nacionais e para a guerra que estes resultam. Desde o começo, os jesuítas constituíram um grupo internacional, pois os primeiros membros eram todos alunos estrangeiros em Paris. Uma vez aprovada pelo Papa Paulo III em 1540, a Companhia de Jesus em breve se tornou ainda mais internacional, na medida em que Francisco Xavier rumava para a Ásia e outros jesuítas se espalhavam ao redor do globo. Os jesuítas cruzaram (ou transgrediram) todos os tipos de fronteiras: geográficas, políticas, culturais, linguísticas, religiosas. Muitos dos mais famosos jesuítas a trabalhar na Ásia de língua portuguesa eram italianos, enquanto que não poucos jesuítas alemães trabalhavam na América Latina.

Por volta de 1700, os monarcas portugueses, espanhóis e franceses queriam se ver livres dos jesuítas, pois com sua maneira internacional de proceder, incluindo uma relação próxima com o papado, estes religiosos não mais se enquadravam no modelo de Igreja em que os chefes de Estado controlavam a Igreja em seus territórios. Os monarcas católicos do século XVIII também queriam o controle da educação em seus países, e os jesuítas eram vistos como um grande obstáculo nesse sentido.

Embora alguns historiadores argumentem que a arrogância jesuíta desempenhou um papel significativo na supressão da Companhia de Jesus – e isto pode mesmo ter tido alguma influência –, o fator mais importante foram as agendas centralizadoras das monarquias católicas, agendas que buscaram tornar a Igreja subordinada ao Estado. A pressão intensa dos monarcas sobre o Papa Clemente XIV foi a causa imediata da supressão em 1773.

A Companhia global

Em 2014, a Igreja Católica continua a marcar o 50º aniversário do Concílio Vaticano II (1962-1965), encontro ecumênico que ainda importa, em muitos aspectos, inclusive como no de demonstração (e de um ímpeto) de um catolicismo genuinamente global no serviço da paz mundial.

Uma Igreja global, não vinculada a algum país, língua ou cultura em particular, nem a alguma estrutura política, é algo que os jesuítas promoviam já no século XVI. Porém as facilidades para realizar viagens hoje e o acesso à internet tornaram isto muito mais viável do que nunca. Em 1964, o Papa Paulo VI inaugurou o modelo de um papa itinerante ao viajar à Terra Santa. O Papa Francisco recentemente marcou o 50º aniversário desta viagem com uma outra viagem a muitos dos mesmos lugares visitados, falando e rezando pela paz e reconciliação no Oriente Médio, a despeito dos prognósticos que negam esta esperança.

Pelo fato de vir da Argentina, o Papa Francisco também chama a atenção para a América Latina. O ano de 2014 marca um outro aniversário significativo para os jesuítas: o 25º aniversário do martírio, em 1989, ocorrido em El Salvador de seis jesuítas junto de uma trabalhadora doméstica e sua filha. Em especial, desde o Vaticano II, os jesuítas vêm claramente articulando uma visão de humanidade em que a dignidade humana e os direitos humanos transcendem as classes sociais e econômicas, as identidades raciais e étnicas e as fronteiras nacionais e políticas.

Trata-se de uma visão que custou a vida de muitos deles. Se a situação em El Salvador melhorou nos últimos anos, o custo de ser companheiros de Jesus, como os jesuítas se chamam, permanece. Os jesuítas não devem viver numa bolha protetora, em algum lugar à parte dos eventos duros, confusos e violentos do mundo, não obstante o quão atraente uma bolha assim pode às vezes parecer. No mundo, e engajados nas lutas por um mundo mais justo, os jesuítas foram vulneráveis a ataques de muitos tipos e assim continuam sendo.

No de século XVIII, poucos esperariam ou iriam prever a restauração universal da Companhia de Jesus. No entanto, ela aconteceu. Eu dou um curso aqui nos EUA, no College of the Holy Cross, sobre o papado no mundo moderno, começando por volta de 1500. Costumava dizer a meus alunos que jamais iríamos ver um papa jesuíta. Eu estava errado e repensei, felizmente, algumas coisas relacionadas ao papado e aos jesuítas. Digo a mim mesmo para estar aberto para mais surpresas ainda.

Neste ano de tantos aniversários, talvez o Papa Francisco, por seu exemplo, palavras e ações, pode ajudar os jesuítas, seus colegas, colaboradores, amigos e mesmo todo mundo a avançarem no sentido de reimaginar e repensar quem são e quem desejam ser no século XXI e além. Ao buscar em São Francisco de Assis o seu nome como bispo de Roma, Jorge Mario Bergoglio, SJ, já nos mostrou como podemos nos atentar sobre uma figura do passado no intuito de recriar e revigorar quem nós somos e apresentou muitos exemplos de como podemos tornar o serviço aos pobres e a promoção da paz centrais em nossas vidas.

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