Onde o Papa Francisco aprendeu sobre humildade

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27 Agosto 2015

"Na medida em que se passavam os primeiros meses do papado de Francisco, os seus gestos – como o de ir morar numa residência simples dois quartos no Vaticano – surpreenderam e mesmo chocaram muitas pessoas. Mas desde então se tornou claro que tais gestos não são respostas espontâneas ou aleatórias a situações em que ele acontece de se encontrar. Estes gestos são planejados para definir o que, com efeito, é o programa de seu pontificado. Alguns são dirigidos ao mundo e chamam a atenção dos meios de comunicação, mas outros são direcionados ao establishment clerical e aos fiéis comuns", escreve Paul Vallely, em artigo publicado pela revista The Atlantic, 23-08-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa

Eis o artigo

Para o pontífice, ser humilde é menos um traço de caráter do que uma escolha calculada.

“Onde está minha mala?”, perguntou o Papa Francisco. A comitiva papal havia chegado no Aeroporto de Fiumicino em Roma para a primeira viagem do pontífice ao exterior. Jorge Mario Bergoglio era papa havia apenas quatro meses e agora estava com destino ao Rio de Janeiro, onde 3,5 milhões de jovens de 178 países estavam à sua espera para cumprimentá-lo no Dia Mundial da Juventude, no Brasil. E ele não conseguia encontrar sua pasta.

“Ela foi levada a bordo do avião”, explicou um assessor.

“Mas eu quero carregá-la”, disse o pontífice.

“Não precisa, ela já está lá dentro”, o assistente respondeu.

“Tu não entendeste”, disse Francisco. “Vai ao avião. Pega a bolsa. E trá-la de volta aqui, por favor”.

Os profissionais de imprensa, que já estavam esperando no avião, logo viram de suas janelas que o Papa Francisco estava se movendo de propósito entre uma multidão de funcionários a caminho da aeronave, carregando uma mala preta na mão esquerda. A cena entrou para a história: os papas nunca antes haviam carregado a sua própria bagagem.

Durante uma coletiva de imprensa no avião uma hora e meia mais tarde, depois que o papa havia falado longamente sobre os jovens que não tinham emprego e que se sentiam descartados por uma sociedade em que as pessoas idosas há muito vinham sendo tratadas também de forma descartável, um repórter perguntou o que havia dentro da mala. “As chaves para a bomba atômica não estão nela”, brincou Francisco. Então, o que ela continha? “O meu barbeador, o meu breviário, o meu diário, um livro para ler – sobre Santa Teresa de Lisieux, de quem sou devoto (...). Eu sempre levo esta mala quando viajo. Isso é normal. Temos de nos acostumar com isso”, acrescentou.

É uma nova normalidade: Francisco se apresentou ao mundo como um ícone da simplicidade e da humildade, evitando as limusines papais e o Palácio Apostólico, preferindo usar um Ford Focus e morar na casa de hóspedes do Vaticano. Mas ser uma pessoa simples pode ser um negócio complexo se se é o líder de uma das maiores denominações religiosas do mundo e também um chefe de Estado. E a história da vida de Francisco mostra que a humildade não é uma qualidade inata sua, mas uma escolha religiosa e, às vezes política, calculada.

* * *

O progresso do Bergoglio na Companhia de Jesus, ordem religiosa dentro da Igreja Católica também conhecida como os jesuítas, foi bastante rápido. Em abril de 1973, com apenas 36 anos de idade, ele foi escolhido para ser o Superior Provincial, o chefe de todos os jesuítas em seu país natal, a Argentina, bem como do país vizinho, o Uruguai. Mas as tensões produziram facções bergoglianas e antibergoglianas que dividiram a província em duas e que, ulteriormente, fez com que a sede dos jesuítas em Roma mandasse Bergoglio para Córdoba em exílio; Córdoba é a segunda maior cidade da Argentina, distando cerca de 640 quilômetros da capital.

Havia duas áreas principais, e interligadas, de conflito. Uma era de cunho religioso; a outra, político. A divisão religiosa tinha a ver com o Concílio Vaticano II, que abalou a Igreja Católica em suas bases entre os anos de 1962 e 1965. O Vaticano II abriu as janelas da Igreja em busca de uma maior interação com – e influência sobre – a sociedade secular. Na medida em que os diferentes segmentos da Igreja começaram a explorar a forma de aplicar as ideias do Concílio, ocorria uma polarização – e então um aprofundamento – entre as facções conservadoras e progressistas dentro dos jesuítas argentinos. Os conservadores queriam manter o foco sobre a sua vida religiosa interior e continuar com o seu papel social tradicional de educar a próxima geração de elite rica do país. Os progressistas queriam uma espiritualidade mais voltada para o externo e uma mudança no trabalho junto aos iletrados pobres que viviam nas favelas. A divisão política centrava-se na Teologia da Libertação, abordagem do ensino católico que declarava a necessidade de libertar os pobres não apenas espiritualmente, mas também das condições econômicas, políticas ou sociais injustas. Os progressistas estavam entusiasmados. Os conservadores rejeitavam esta teologia como sendo marxista e uma forma de permitir que o comunismo entrasse na América Latina pela porta dos fundos.

Segundo o próprio, Bergoglio era um animal político. Enquanto adolescente, interessou-se pela relação entre fé e comunismo. Porém a sua formação política de centro ocorreu no contexto do peronismo, um amálgama peculiarmente argentino de forças não associadas entre si em nenhum outro lugar: os militares, os sindicatos e a Igreja. Chamado assim após o General Juan Domingo Perón, que foi presidente da Argentina durante uma década a partir de 1946, o peronismo tem suas raízes nos ensinamentos sociais católicos e envolvia uma nova industrialização para impulsionar a economia e uma redistribuição substancial de riqueza a fim de garantir que a classe trabalhadora se beneficiasse dela. Os peronistas se consideravam socialistas, mas muitas das suas políticas estavam mais próximas do fascismo da Itália de Mussolini ou da Espanha de Franco. O que diferenciava o peronismo era a maneira como reunia a força física dos militares e da autoridade moral da Igreja para impor políticas autoritárias, que incluíam a supressão da oposição e da imprensa.

Esta falta de consistência ideológica levou o movimento peronista a se dividir em facções dissidentes. Alguns esquerdistas extremos desenvolveram posturas anticlericais, anticatólicas. Os peronistas de direita viram-se como os defensores da nação, da propriedade privada e enxergaram o catolicismo como uma força contra os movimentos ateu e comunista. Estas facções peronistas não apenas discordavam; elas também organizavam esquadrões da morte que percorriam as ruas alvejando opositores. Entre 1973 e 1976, praticamente uma guerra civil reinou nas ruas de Buenos Aires. Alguns historiadores sustentam que, nestes três anos, morreram tantas pessoas quanto durante os anos de ditadura militar na chamada Guerra Suja, que se seguiu a um golpe militar em 1976 e que durou até 1983. Os jesuítas estavam divididos de forma semelhante. Os progressistas ficaram do lado de movimentos políticos de base que trabalhavam junto com os pobres. Outros, como Bergoglio, estavam mais inclinados a ver o peronismo e o Estado como o veículo para a resolução dos problemas sociais.

Dado que crescia a polarização entre uma esquerda ateia e contrária à Igreja e uma direita que alegava estar agindo em defesa da mesma Igreja e de seus valores, Bergoglio descobriu que era impossível manter-se no meio-termo. Ele reprimiu a Teologia da Libertação dentro dos jesuítas. Os progressistas de dentro da ordem o acusaram de estar em conluio com a visão de mundo da direta, se não ao menos com suas táticas. Olhando para o passado, ele admitiu, em sua primeira entrevista como papa: “Tive de lidar com situações difíceis, e tomei decisões de forma abrupta e por mim mesmo. A minha maneira autoritária e rápida de tomar decisões me levou a ter problemas graves e a ser acusado de ultraconservador”.

A luta titânica pela alma do catolicismo se seguiu. Bergoglio teve forte apoio dentro dos jesuítas quando se tornou o Superior Provincial em 1973. Mas na época em que ele acabava o seu período de reitor do seminário jesuíta de Buenos Aires em 1986, os que o detestavam começaram a superar em números aqueles que o amavam. Em 1990, o seu apoio dentro da ordem havia sido corroído por seu estilo autoritário e por sua incapacidade incorrigível, nas palavras do padre jesuíta Frank Brennan, “de deixar ir as rédeas do poder quando um provincial jesuíta de um matiz diferente estava em sua presença”. Um outro jesuíta me disse: “Ele levava as pessoas realmente à loucura com a sua insistência de que só ele conhecia o jeito certo de fazer as coisas. No final, os demais jesuítas disseram: ‘Basta’”.

Na época em que foi enviado ao exílio, de acordo com um jesuíta de posição elevada em Roma, cerca de dois terços dos jesuítas da Argentina haviam perdido a paciência com ele. Em sua primeira entrevista depois de se tornar papa, Francisco atribuiu essa dinâmica ao seu próprio estilo “de governo como um jesuíta iniciante. (...) Eu me vi provincial quando ainda era muito jovem. Eu tinha apenas 36 anos. Foi uma loucura”. Como jovem sacerdote em posições poderosas de liderança, Bergoglio não tinha a maturidade que precisava para lidar com as pressões conflitantes das facções jesuítas, com o Vaticano e com uma ditadura militar implacável.

Em resposta a estas clivagens no seio da comunidade jesuíta argentina, os líderes jesuítas em Roma finalmente decidiram despir Bergoglio, então com 50 anos, de toda a responsabilidade. Em 1990, ele foi enviado a Córdoba para viver numa residência jesuíta, orar e trabalhar em sua tese de doutorado. Porém não fora autorizado a rezar a missa em público na igreja local. Ele apenas poderia ir lá para ouvir confissões. Não tinha permissão para dar telefonemas sem autorização. As suas cartas eram controladas. Os seus partidários foram orientados a não contatá-lo. O esquecimento de seus colegas era para ser total.

* * *

Em Córdoba, Bergoglio voltou-se para dentro de si. O seu principal compromisso espiritual público era ouvir confissões. Ele passou muito tempo olhando para fora da janela e andando pelas ruas, da residência jesuíta até a igreja ao longo de uma estrada que passava por muitas áreas diferentes da cidade. Pessoas de todas as camadas sociais – professores, estudantes, advogados e pessoas comuns – visitavam a igreja para o sacramento penitencial. Ele reconheceu esta sua interação com os pobres particularmente comovente.

“Para Bergoglio, Córdoba era um lugar de humildade e humilhação”, disse o Pe. Guillermo Marco, que mais tarde seria o braço direito de Bergoglio em assuntos públicos na arquidiocese de Buenos Aires. Parece ter havido mais aqui do que a aprendizagem a partir da experiência. Mais tarde também, Francisco admitiu ter cometido “centenas de erros” em seus anos como líder de jesuítas na Argentina. Córdoba foi, segundo revelou em sua primeira entrevista como papa, “um momento de grande crise interior”.

Em 1992, quando Bergoglio voltou a Buenos Aires como bispo auxiliar, remodelou totalmente a abordagem do que significa ser um líder. O seu estilo se tornou delegatório e participativo. E a sua maneira de trabalhar era nitidamente diferente. Ele desenvolveu o que se tornaria um de seus hábitos mais conhecidos: finalizar todos os encontros pedindo aos demais que orassem por ele.
Para o novo Bergoglio, humildade era mais uma postura intelectual de que um temperamento pessoal – uma ferramenta que ele desenvolveu em sua luta contra o que havia aprendido como sendo os pontos fracos de sua própria personalidade, com as suas camadas rígidas, autoritárias e egoístas. Em Córdoba, Bergoglio teve dois longos anos para refletir sobre a sua liderança de divisão junto aos jesuítas na Argentina, e sobre o que ele tinha feito de errado – ou de forma inadequada – durante a Guerra Suja.

Mas a mudança adveio não só disso: a história também foi um fator importante. O mundo havia mudado ao seu redor. As primeiras impressões políticas de Bergoglio formaram-se na era da Guerra Fria, em meio ao temor de que o comunismo ateu ao estilo soviético suplantaria tanto o capitalismo como o catolicismo na América Latina, com Cuba sendo o seu ponto de apoio. Mas então o Muro de Berlim ruiu. A União Soviética e o seu império entraram em colapso. O ensino católico convencional absorveu as ideias-chave da Teologia da Libertação – por exemplo, a ideia de que o pecado não apenas reside nos atos maus dos indivíduos, mas também pode estar incorporado nas estruturas econômicas desiguais. A globalização apenas internacionalizava tal injustiça. E esta verdade se fez mais evidente para Bergoglio com a crise econômica que surpreendeu a Argentina em 2001, quando metade da população mergulhou abaixo da linha de pobreza. As soluções macroeconômicas projetadas em Washington pelo Fundo Monetário Internacional – FMI reforçaram certas políticas de austeridade, o que que tornou a vida mais difícil para os mais pobres. Bergoglio começou a ser altamente crítico das fórmulas econômicas do capitalismo moderno; tornou-se particularmente crítico dos mercados financeiros especulativos pela capacidade deles de prejudicar a economia real. Criticar a exploração dos pobres não significava mais correr o risco de ser visto como estando do lado do marxismo antirreligioso. Bergoglio começou a pensar diferentemente sobre a pobreza extrema. Ele começou a falar como um teólogo da libertação.

* * *

Bergoglio é um pragmático, em lugar de um ideólogo. Em seus anos de jovem mais conservador, ele adotava estilos de adoração, disciplina e teologia pré-Vaticano II. Isso porque achava que estes funcionavam melhor, disse Miguel Yanez – seu aluno em 1975. Mas, como bispo e arcebispo, ele acolheu muitas das doutrinas centrais da Teologia da Libertação – sobre pobreza, desigualdade econômica e justiça –, porque elas se encaixavam em suas prioridades modificadas.

Na medida em que se passavam os primeiros meses do papado de Francisco, os seus gestos – como o de ir morar numa residência simples dois quartos no Vaticano – surpreenderam e mesmo chocaram muitas pessoas. Mas desde então se tornou claro que tais gestos não são respostas espontâneas ou aleatórias a situações em que ele acontece de se encontrar. Estes gestos são planejados para definir o que, com efeito, é o programa de seu pontificado. Alguns são dirigidos ao mundo e chamam a atenção dos meios de comunicação, mas outros são direcionados ao establishment clerical e aos fiéis comuns.

No avião papal, quando o Papa Francisco voltava do Brasil a Roma, um outro incidente chamou a atenção do mundo para a acolhida do novo pontífice daqueles a quem a Igreja e a sociedade haviam marginalizado ou excluído. Em sua coletiva de imprensa a bordo do avião, perguntaram-lhe se era verdade que havia lobby em prol dos homossexuais no Vaticano, conforme fora noticiado com base nos documentos então vazados do Vaticano, que faziam referências a esta prática, ao “lobby gay”. A isso o papa respondeu: “Acho que devemos distinguir entre o fato de ser gay e fazer lobby gay. Porque nenhum lobby é bom. Isso é o que é ruim. Se uma pessoa é gay e procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?

Estas cinco palavras – “Quem sou eu para julgar?” – reverberaram ao redor do mundo. Elas não alteraram a doutrina católica, mas, juntamente com várias outras respostas que ele deu aos jornalistas naquele voo, enviaram sinais de atitudes transformadas em muitas áreas. No entanto, foi o comentário sobre não julgar os gays o que chamou a atenção da mídia. A revista The New Yorker intitulou assim a sua reportagem: “Francis Redefines the Papacy” [Francisco redefine o papado]. O que fez esta resposta tão interessante, disse o comentarista católico americano Michael Sean Winters, foi que não era apenas uma mensagem sobre a homossexualidade. “Isso foi acidental”, disse Winters. “O Papa Francisco estava, na verdade, nos falando algo sobre o que ele pensa que significa ser um cristão, e especialmente um líder cristão”.

Na verdade, foi mais do que isso. Confirmo ficou claro alguns meses atrás, quando o papa publicou a sua importante encíclica sobre o meio ambiente, Laudato Si’, ele não está apenas se dirigindo aos católicos ou cristãos, mas, nas próprias palavras desse documento, ele está falando a “todas as pessoas de boa vontade”. Tendo ele próprio se transformado, parece que Francisco quer que todo o mundo passe por uma conversão semelhante.

Nota:

Este artigo foi adaptado do livro de Paul Vallely intitulado “Pope Francis: The Struggle for the Soul of Catholicism”.

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