Francisco e a teologia da bagagem de mão. Artigo de Enzo Bianchi

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24 Julho 2013

O Papa Francisco acendeu nos corações uma expectativa, esperanças de uma Igreja que se renova, que continua a sua incessante reforma. Isso depende de alguns gestos: pela primeira vez um papa subiu a escada do avião carregando nas mãos a sua maleta, sem confiá-la aos seus colaboradores.

A opinião é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 23-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Muitos estão falando de novo de "primavera da Igreja", inaugurada pelo Papa Francisco. Quem viveu a primavera anunciada por Pio XII em maio de 1958 e inaugurada pelo Papa João XXIII e pelo Concílio Vaticano II, não esperava mais uma nova estação rica em esperança e aberturas. Principalmente depois das duas últimas décadas.

E ao invés? Isso também deve ser reconhecido: o Papa Francisco acendeu nos corações uma expectativa, esperanças de uma Igreja que se renova, que continua a sua incessante reforma. Esse juízo positivo e acima de tudo essa expectativa dependem de algumas palavras e de alguns gestos: como os feitos nessa segunda-feira, que nos mostram pela primeira vez um papa subindo a escada do avião carregando nas mãos a sua maleta, sem confiá-la aos seus colaboradores.

Como se Francisco dissesse: ninguém deve portar um peso no meu lugar. E depois, tendo aterrissado no Brasil, subiu em um pequeno carro, um Fiat Idea, que era o menor carro do cortejo. Comecemos, portanto, pelos gestos. Em quatro meses, não podem ser muitos, mesmo que aqueles poucos tenha sido imediatamente relatados como "os floreios do Papa Francisco", por serem simples, eloquentes e também singulares, como as do Pobrezinho de Assis. Eleito papa no dia 13 de março, Francisco se assomou à Praça de São Pedro e, antes de conceder a bênção apostólica ao povo, pediu que o povo invocasse para ele a bênção de Deus e se inclinou em um silêncio de adoração a Deus, de oração a Deus, mas também de profunda comunhão.

Essa ação de Francisco, que surpreendeu e tocou os corações daqueles que no mundo queriam conhecer a identidade do novo papa, deve ser avaliada em si mesma, como um gesto seu, pessoal, que pertence ao seu estilo no exercício do ministério pastoral. Sim, com o Papa Francisco sentiu-se "algo de novo hoje debaixo do sol" (Giovanni Pascoli)... E assim, sem aumentar, mas também sem esquecer tal ato, é preciso contar a sua vontade de simplicidade, da qual os crentes tinham nostalgia desde a morte do Papa João XXIII.

A sua veste sóbria, a sua cruz peitoral não de ouro e não cheia de joias, o desaparecimento do trono e dos ouropéis que lembravam "os direitos da coroa", a sua viagem no ônibus com os outros cardeais para retornar à Casa Santa Marta, o fato de se sentar à mesa dos coirmãos para as refeições, sem pensar logo em uma mesa sua e nos seus convidados, o fato de cumprimentar com entusiasmo e envolvimento nos abraços e nos apertos de mão aqueles que o encontram, a sua linguagem muito humana: tudo isso nos deu uma nova imagem do bispo de Roma.

É tolice fazer comparações com os papas anteriores, assim como será tolice fazer comparações com o que vier, mas o que deve ser enfatizado é que as pessoas sentem que este papa é um homem. Disse-se do Papa João XXIII: "Um cristão no trono de Pedro"; diz-se do Papa Francisco: "Um homem tornou-se bispo de Roma".

Quanto à liturgia, nela não há atitudes hieráticas, ele não assume perfis de baixo-relevo assírio: senta-se em uma poltrona, e não em um trono de reis, faz a homilia de pé do ambão, como todos, abandonou vestes que, embora dignas, não representavam mais o sentimento geral que quer sobriedade na liturgia. Além disso, não se pode esquecer um gesto litúrgico do qual o Papa Francisco efetivamente ampliou a interpretação de modo inédito e talvez até "escandaloso" para alguns católicos: o gesto do lava-pés, que sempre foi realizado em São Pedro com clérigos, cônegos, cardeais.

Pois bem, o Papa Francisco, em continuidade com o que havia feito no seu ministério episcopal em Buenos Aires, saiu do Vaticano para ir para a prisão juvenil romana de Casal del Marmo, onde lavou os pés de 12 detidos, incluindo duas jovens e alguns não batizados. Verdadeira interpretação inovadora! O Senhor lavou os pés ao longo de toda a sua vida, isto é, se fez servo de homens e mulheres marcados pelo sofrimento, pela doença, pela necessidade, pela pecado: isso nos lembra o exeghésato (Jo 1, 18) criativo com o qual o Papa Francisco narrou Jesus...

Mas o gesto até agora mais eloquente certamente foi a primeira viagem apostólica ao santuário dos últimos, da humanidade sofredora, àquele mar que, em vez de ser uma ponte de fraternidade, tornou-se para muitos pobres do mundo, que tentam ir rumo ao pão, um lugar de morte. Sem palavras demais, denunciou o egoísmo da margem europeia do Mediterrâneo, tentou causar um sentimento de vergonha naqueles que querem rejeitar esses pobres ou que tentaram não ouvir o seu grito. Aquelas margens europeias, infelizmente, são habitadas principalmente por cristãos e pessoas que se dizem cristãs a ponto de querer defender a sua identidade e os valores cristãos. Enquanto jogava aquela coroa de flores rumo aos afogados no mar, enquanto pedia perdão a Deus e às vítimas, nos sentimos, também nós, como Caim, incapazes de ser guardiões dos nossos irmãos. Sentimos ser dirigida a nós a pergunta: "Homem, onde estás? Que humanização é a sua?...". Em Lampedusa, o grito de Francisco foi um grito de homem a toda a humanidade.

"Esse papa fala demais", disseram alguns. Com efeito, todos os dias, Francisco nos dá uma breve homilia que, além de ser um ato litúrgico importante por si só, pronunciada pelo papa, impõe-se pela sua qualidade magisterial de ensino. Limitando-se a um exame estatístico do léxico do Papa Francisco, pode-se notar que a palavra que se repete mais frequentemente nas suas intervenções públicas é "alegria" (mais de 100 vezes), seguida por "misericórdia" (quase 100), que, unida a "perdão", dá um total de cerca de 150 ocorrências. Depois, "humilde-humildade" (65 vezes), "pobre-pobreza" (40 vezes).

Diante desses dados, parece-me urgente não tanto fazer uma escolha e discutir singularmente os vários termos, mas sim fazer emergir o pensamento do Papa Francisco na sua novidade, que hoje tem uma decisiva "performance" no coração de quem o ouve. Acima de tudo, Francisco tem uma visão de uma Igreja em êxodo, de uma Igreja em movimento e que tem a audácia de sair, de sair de si mesma. Para ser fiel à sua missão e à sua identidade, a Igreja deve sair, porque – são palavras pronunciadas por ele em uma entrevista de 2007 – "continuar sendo, permanecer fiéis implica uma saída. Justamente, se permanecemos no Senhor, saímos de nós mesmos". Sair para caminhar, para construir pontes e ir em frente, como fez o apóstolo Paulo. Portanto, "quando a Igreja perde essa coragem apostólica torna-se uma Igreja parada, uma Igreja ordenada, bonita, tudo bonito, mas sem fecundidade, porque perdeu a coragem de ir para as periferias, aqui onde estão tantas pessoas vítimas da idolatria, da mundanidade, do pensamento fraco... Aqueles que não caminham para não errar, cometem um erro mais grave" (Homilia do dia 8 de maio de 2013).

E na collatio realizada com os movimentos eclesiais na vigília de Pentecostes (18 de maio de 2013), Francisco afirmou: "Não se fechem, por favor! Esse é um perigo: fechamo-nos na paróquia, com os amigos, no movimento, com aqueles com os quais pensamos as mesmas coisas... Mas vocês sabem o que acontece? Quando a Igreja se torna fechada, adoece, adoece... A Igreja deve sair de si mesma. Para onde? Rumo às periferias existenciais, sejam quais forem, mas sair... Eu prefiro mil vezes uma Igreja acidentada, que incorreu em um acidente, do que uma Igreja doente de fechamento".

Em seguida, ofereceu uma verdadeira "pérola" de interpretação das palavras do Senhor Jesus em Apocalipse 3, 20 ("Eis que estou à porta e bato"). "Façam a si mesmos esta pergunta: quantas vezes Jesus está dentro e bate à porta para sair, para sair para fora, e nós não o deixamos sair, por causa das nossas seguranças, porque muitas vezes estamos fechados em estruturas caducas, que servem apenas para nos tornar escravos, e não livres filhos de Deus? Nessa 'saída' é importante ir ao encontro. Esta palavra para mim é muito importante: o encontro com os outros".

O Papa Francisco conhece bem a situação da Igreja e, em particular, a da hierarquia e das instituições que deveriam estar a serviço da própria Igreja. Ele sabe que para todos "a tentação é a de um cristianismo sem cruz, que para no meio do caminho... É a tentação do triunfalismo. Nós queremos o triunfo agora, sem ir para a cruz, um triunfo mundano. O triunfalismo paralisa a Igreja, paralisa os cristãos. A Igreja triunfalista é feliz assim, bem sistematizada, com todos os escritórios, tudo no seu lugar, tudo bonito e eficiente. Mas é uma igreja que renega os mártires... Pensa somente nos triunfos, nos sucessos, e não conhece a regra de Jesus: a regra do triunfo através do fracasso, do fracasso humano, do fracasso da cruz" (Homilia do dia 29 de maio de 2013).

E ainda: "Se seguirmos Jesus como uma proposta cultural, usamos esse caminho para ir mais alto, para ter mais poder. E a história da Igreja está cheia disso, começando por alguns imperadores e, depois, por tantos governantes e tantas pessoas, não? E também alguns – não quero dizer muitos, mas alguns – padres, alguns bispos, não? Alguns dizem que são muitos... Mas alguns que pensam que seguir Jesus é fazer carreira" (Homilia do dia 28 de maio de 2013).

É significativo que à pergunta direta de uma menina: "Mas tu querias ser papa?", ele respondeu: "Tu sabes o que significa que uma pessoa não queira tão bem a si mesma? Uma pessoa que quer ser papa não quer bem a si mesma, e Deus não a abençoa. Não, eu não quis ser papa..." (Collatio do dia 7 de junho). Sim, Francisco não era um bispo empenhado em fazer carreira eclesiástica!

É preciso recordar o motivo que levou o Papa Francisco a assumir esse nome: ele confessou que a inspiração lhe veio do amigo cardeal Cláudio Hummes, que se sentava ao seu lado e lhe disse: "Lembre-se dos pobres". Por isso, Francisco logo confessou o seu desejo que, na realidade, parece ser um verdadeiro manifesto: "Eu quero uma Igreja pobre e para os pobres" (Audiência aos representantes das mídias, 16 de março de 2013).

Não só uma Igreja que se coloca a serviço dos pobres, que atua em seu favor, mas também uma Igreja que se faz pobre percorrendo o itinerário da encarnação, a "via" do Senhor que "sendo rico se fez pobre por nós" (cf. 2Cor 8, 9) para compartilhar em tudo a condição humana. Eis, então, posto com autoridade o primeiro ponto decisivo para uma reforma da Igreja. O Papa Francisco provém daquela periferia do mundo que elaborou a "necessidade da opção preferencial pelos pobres, primeiros destinatários de direito do evangelho", e justamente por isso está habilitado a fazer com que a Igreja volte à condição desejada por Jesus. Não pauperismo ideológico, não romantismo de uma pobreza formal, mas a Igreja ou é pobre – mesmo tendo meios para a sua vida no mundo – ou é mundana, também ela a serviço dos ídolos do dinheiro e do poder, em grave contradição com relação à forma da encarnação do seu Senhor!

Mas o Papa Francisco também manifestou a sua vontade de uma reforma do papado e da Cúria que está a seu serviço. Há ao menos cinco séculos, sempre se volta a falar da reforma da Cúria Romana, mas esta só pode ser substancialmente reformada se se der nova forma e nova compreensão ao ministério petrino do bispo de Roma. Os católicos nunca renunciarão ao ministério de confirmação na fé e de comunhão próprio do bispo de Roma, mas sabem também que a forma que ele assumiu ao longo dos séculos variou e ainda pode mudar.

É graças ao papado que a Igreja Católica permaneceu unida ao longo dos séculos, mas continua sendo verdade que a estrutura do papado nem sempre foi conforme ao evangelho e que deve ser reformada todas as vezes em que se compreende essa urgência evangélica.

Hoje, a partir especialmente das indicações do Concílio Vaticano II, sente-se a necessidade de que o papa não apareça como o "bispo universal", mas sim o bispo da Igreja de Roma "que preside na caridade". A essa eclesiologia de comunhão, portanto, é preciso dar mais força e implementar a "sinodalidade", essa categoria do "caminhar juntos" entre papa, bispos e povo de Deus.

Na homilia do dia 29 de junho, em São Pedro, o Papa Francisco especificou que o ministério do sucessor de Pedro, como confirmação na unidade, deve harmonizar o primado com o sínodo dos bispos e deve trilhar o caminho da sinodalidade. Essas são palavras marcadas por uma radical novidade na boca de um papa: até agora, pertenciam somente aos teólogos.

Francisco está se manifestando como um papa do êxodo, que pode mostrar a todos os cristãos o dinamismo de uma comunhão em que "o amor é a primeira verdade" (Homilia do dia 4 de maio de 2013). O Papa Francisco en-sina, faz sinal indicando sempre a Jesus Cristo, aquele ao qual deve-se voltar o nosso olhar. Por isso, aos representantes dos movimentos eclesiais que gritavam: "Francisco, Francisco!", ele respondeu: "Eu gostaria que vocês gritassem: 'Jesus, Jesus é o Senhor, e está no meio de nós'. De agora em diante, nada de 'Francisco', mas sim 'Jesus'".

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