O Papa Francisco e seu passado “demasiado jesuíta”

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Por: Jonas | 14 Março 2014

Ele conheceu Jorge Mario Bergoglio a mais de 30 anos atrás. O Papa foi seu provincial, seu formador e seu amigo. O jesuíta argentino Humberto Miguel Yañez sempre manteve boa relação com Francisco, inclusive quando se distanciou da Companhia por suas responsabilidades como bispo. 

A entrevista é de Andrés Beltramo Álvarez, publicado por Vatican Insider, 13-03-2014. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Um ano de pontificado é pouco tempo para fazer um balanço?

Já existem muitos aspectos que se destacam. O primeiro é o seu novo estilo, é um Papa original. Não tem o estilo formal dos Papas reis. Bergoglio não tem nada de rei. Nesse sentido, é uma grande mudança, pela qual muitos ainda estão impactados e custam aceitar. Por isso, não ocupa os aposentos pontifícios, vive na Casa Santa Marta para ter contato com as pessoas. Um estilo de vida mais dos religiosos. Essa é outra de suas características, é um Papa religioso depois de muitos séculos e o primeiro jesuíta. Tudo isso se percebe em seu modo de agir, de ser e de tratar as pessoas. Não ama em nada o protocolo. Um estilo simples, singelo, espontâneo, natural. Isso chama a atenção, que seja tão normal.

É um Papa realmente jesuíta? Quanto de jesuíta Francisco possui?

Há uma anedota que se escuta pelos corredores nesses dias: “Tem nome franciscano, se veste como dominicano, mas no fundo é jesuíta”. É profundamente jesuíta, isso não perdeu. A Companhia de Jesus tem um carisma eclesial, de abertura e diálogo com todos. Isso ele colocou em prática desde quando era bispo. Teve uma evolução e isso o preparou para o posto que agora possui. Ao mesmo tempo, não obstante, sua grande abertura, não perde a capacidade de condução. Em definitivo, é ele quem decide, o que é muito bom. É uma pessoa que jamais se deixou pressionar por alguém, é muito livre e isso se nota. Não é que finge escutar e já tem pensado o modo como atuar. Ao processo de diálogo, vai somando um discernimento espiritual. Isso lhe dá uma perspectiva não ideológica e uma grande imprevisibilidade.

O que pode significar para a Companhia este pontificado? Depois dos problemas do passado recente, Francisco está promovendo uma espécie de “reforma” para os jesuítas?

Acredito que sim, já nos lançou algumas indicações que nos deixaram pensando. Sobretudo, na última homilia que nos dirigiu na Igreja de Jesus (de Roma), por ocasião da canonização de Pedro Fabro. Recordou-nos que o jesuíta é uma pessoa incompleta, queria nos dizer que devemos estar sempre em busca. Essa ideia, junto com a de ir às periferias existenciais, está nos sacudindo para continuar um caminho de criatividade, que a Companhia teve, após o Concílio Vaticano II, com as dificuldades que isso trouxe, com os erros que cometeu. Contudo, nem tudo foram erros, deu à Igreja um Papa. Apesar dessa etapa pós-conciliar ter sido a mais traumática desde a fundação. O fato de ter ocorrido tensões com os Papas, com Paulo VI e João Paulo II, é algo novo na história da Ordem. Nesse momento, o Papa jesuíta ao invés de nos dizer: “Rapazes, fiquem calados, não façam barulho”, melhor, disse-nos totalmente ao contrário: “Sigam adiante pela fenda da tradição da Companhia”.

No entanto, é também uma dupla mensagem, porque Bergoglio tem uma ideia muito clara do carisma original da Companhia. Pede-lhes para irem às periferias, mas não que a atravessem, não é assim?

Para ir às periferias é preciso fazer como Pedro Fabro, com uma profunda espiritualidade. Isso ele apontou (o Papa) claramente na homilia do dia 3 de janeiro. É claro que os problemas da Companhia foram por uma virada ao social, descuidando-se da dimensão espiritual, que não é um problema novo na Igreja, mas que na etapa pós-conciliar foi bastante crítico. Isso provocou a queda em concepções ideológicas ou posturas radicalizadas que no fundo desfiguram o Evangelho.

Bergoglio encarna essas turbulências que a Companhia viveu, desde sua difícil saída do provincialado na Argentina e seu posterior “exílio” em Córdoba. De fato, alguns jesuítas confessaram que tiveram uma imagem muito ruim dele como arcebispo de Buenos Aires. Estão diante de uma oportunidade histórica de curar essas feridas do passado recente?

Ele as conhece por dentro e reagiu a essas turbulências, em seu momento, com uma posição muito clara, muito definida. Sua postura esteve em continuidade com o Concílio. Porém, em seu momento, não foi entendido, talvez porque foi um pouco visionário, profético.

Foi demasiado jesuíta para os próprios jesuítas?

(Sorri). Em certo sentido, sim. Ele entendeu muito bem a proposta do Concílio de voltar às fontes. A nós nos fez estudar os exercícios, as Constituições da Companhia, as missões jesuíticas. Mas, não para ficarmos por dentro,mas para irmos aos pobres, para nos comprometermos com eles. Nele existe essa tensão entre a espiritualidade e a ação. O difícil é manter essa tensão em equilíbrio, porque esse equilíbrio se rompe quando vamos aos extremos. É um equilíbrio muito frágil, ao qual somos chamados a manter a partir da oração.

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