Dois anos. Papa Francisco, os pobres e o aguilhão do sistema econômico

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09 Março 2015

"Em suma, um Papa que aponta o indicador contra os 'gnomos das finanças'. Na primeira viagem de seu pontificado, a Lampedusa, Bergoglio denunciou 'a crueldade daqueles que, no anonimato, tomam decisões sócio-econômicas que abrem a estrada às tragédias das migrações", escreve Giacomo Galeazzi, vaticanista do jornal La Stampa, em artigo publicado por Il sismografo, 05-03-2015. ao refletir sobre os dois anos do pontificado do Papa Francisco. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o artigo.

Segundo meu parecer, a característica fundamental do pontificado de Jorge Mario Bergoglio é a profunda convicção que os pobres são o coração do cristianismo e não um apêndice do Evangelho. Por isso Francisco aponta no sentido de modificar, através da pregação, a mudança dos estilos de vida e de consumo. Sua luta é sem limite contra a cultura do desperdício: já quando era bispo de Buenos Aires e agora que o é de Roma.

O seu pensamento econômico vai além de Karl Marx contra a globalização da indiferença. Após a escolha de campo de Wojtyla a favor do Ocidente capitalista em relação ao Leste comunista e o modelo ratzingeriano das “elites criativas”, a “virada à esquerda” e o Evangelho social do Papa Bergoglio chamam à memória a abertura modernizadora vivenciada pela Igreja com a passagem de Pio XII a Roncalli.

Sua teologia é uma teologia da libertação que põe a misericórdia cristã no lugar máximo do marxismo. Francisco põe no centro os direitos dos últimos, sem os quais não há dignidade humana, exigindo a boa política para corrigir as distorções do capitalismo globalizado e a retomada de seu primado na cena pública para não deixar livre campo à economia, à religião da individualidade e aos interesses corporativos.

Segundo Bergoglio, redirecionar-se para o outro lado e experimentar enfado pelos pobres significa seguir “a lógica do mundo”. Com frequência, na bimilenar história da Igreja os pobres e a questão social têm sido considerados como apêndices do cristianismo. Ao contrário, Bergoglio insiste que os pobres estão no coração do cristianismo, pelo que, virar-se para o outro lado é como renunciar ao coração. Para ele, o olhar aos pobres não é exclusivista, mas antes a promessa de um olhar universal. É algo que é preciso começar a entender. Não só a guerra é mãe de tanta pobreza, mas a fome e a pobreza são mães da guerra e da violência. 

Em suma, um Papa que aponta o indicador contra os “gnomos das finanças”. Na primeira viagem de seu pontificado, a Lampedusa, Bergoglio denunciou “a crueldade daqueles que, no anonimato, tomam decisões sócio-econômicas que abrem a estrada às tragédias das migrações. Na América Latina sua batalha lhe ganhou a estima dos líderes do movimento pelos direitos humanos, como Alicia de Oliveira, e o respeito das mães da Praça de Maio, duríssimas nos confrontos da hierarquia católica.

Bergoglio jamais se dobrou aos caudilhos, militares ou políticos que se alternaram na condução da Argentina. Severo jesuíta de hábitos sóbrios, ele gostava de circular por sua cidade de ônibus, vestido como simples padre. Aos 35 anos já era provincial, isto é, chefe dos jesuítas da Argentina.

Na terrível prova da ditadura militar, Bergoglio se movimentou para salvar padres e leigos dos torturadores. Dele se dizia antes do conclave: “Bastar-lhe-iam quatro anos para mudar as coisas”.

Péssimas as relações com Menem e Duhalde, gélidas com de la Rua (Bergoglio foi encontrá-lo aos 12 de dezembro de 2000, para adverti-lo do risco de uma revolta popular, que estourou um ano após), frias com Kirchner. Foram boas, ao invés, as relações com Luis D’Elia e o movimento dos piqueteiros: um dia Bergoglio chamou o Ministro do Interior para lamentar-se da polícia que espancara uma mulher inerme.

Nos pobres Francisco vê a presença de Jesus. Para desenvolver sua missão Bergoglio parte dos pobres de modo muito concreto e não ideológico e, assim fazendo, açoita o sistema econômico, político e social com força profética. No torvelinho da crise econômica jamais viveu a tentação ideológica do marxismo revolucionário.

Ao mesmo tempo, no entanto, Bergoglio jamais se filiou àquela ala de Igreja que na Argentina justificava as desigualdades e a exploração. Francisco colocava a Igreja de Roma, sensível e misericordiosa, nas fronteiras do mal-estar. Também antes de tornar-se bispo, Bergoglio era muito sensível com os pobres. Isso deriva da centralidade, em sua vida, da mensagem evangélica.

No Evangelho, de fato, têm parte extremamente relevante os pobres, os famintos. A chave para entender Francisco é o primado do humano sobre o econômico. Ele sempre julgou o capitalismo pelos frutos e é a esta ausência de preconceitos que Bergoglio deve o seu não ser ideológico.

Através da pregação, quereria acionar um movimento contra a cultura consumista do desperdício. Para ele, os pobres são a Igreja e por isso manifesta a uma opinião pública mundial frequentemente distraída como a luta à pobreza e à fome seja um fato decisivo e uma realidade com a qual a gente deve mensurar-se constantemente.

Além disso, Francisco também exorta a acolher a quem foge da guerra e da fome. Livrar o mundo da fome o libera da contaminação da guerra. Os conflitos sociais são mais prováveis quando os benefícios do crescimento econômico não chegam aos mais pobres.

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