George Pell criticado por bispo como “destruidor da unidade” em resposta aos casos de abuso sexual infantil

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26 Agosto 2015

O Cardeal George Pell “destruiu a unidade” da resposta da Igreja Católica aos casos de abuso sexual infantil, disse um bispo australiano à comissão real.

Dom Geoffrey Robinson, que desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento de resposta da Igreja australiana aos abusos sexuais infantis cometidos pelo clero, também disse que o Papa Francisco ainda está por demonstrar uma forte liderança nesta questão e que um de seus predecessores, João Paulo II, respondeu “de maneira pobre” às revelações de abuso infantil.

A reportagem foi publicada pelo jornal britânico The Guardian, 24-08-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa

Desde 1994 Robinson trabalhava com outros bispos numa resposta da Igreja australiana aos casos de abuso sexual a partir de uma iniciativa chamada “Towards Healing”. Quando esta iniciativa estava perto chegar a seu fim em 1996, Pell criou a “Melbourne Response”, separando a maior diocese do país daquilo que era uma resposta conjunta.

Robinson disse que Pell, então arcebispo de Melbourne, criou um programa rival porque queria ser visto como um líder no assunto.

“O que ele produziu possui muita coisa boa, mas eu via grandes problemas nele também”, disse Robinson à comissão real nesta segunda-feira ao falar sobre as respostas institucionais dadas a casos de abuso sexual infantil em Sydney.

“O principal [destes problemas] era que o primeiro ponto de contato para a vítima era um escritório na cidade (...) Eu achava que o sistema pedia demais, que as pessoas fossem a um escritório da cidade (...) e isso acabou destruindo a nossa unidade”.

Robinson disse que a resposta inicial da Igreja às revelações do abuso sistemático de crianças focou-se demais nos sacerdotes em vez das vítimas.

João Paulo II tratou o abuso de maneira deficiente”, disse ele. “Imaginem ele, em 1987, vindo até o microfone, na Praça de São Pedro, e dizer algo como isto: ‘Nesta semana recebi um relatório que me chocou muito. Ele fala de uma prática generalizada de abuso sexual de menores. 

Que terrível. Eu sou o responsável e sou eu que tenho que agir; apelo aqui a todos os bispos do mundo para que trabalhem comigo. Não há lugar na Igreja para este tipo de coisa. De agora em diante, parte do juramento de lealdade [ao papa] é ser leal às vítimas. Se vocês não forem leais às vítimas, não estarão sendo leais a mim’.

“Isso teria enviado uma mensagem a toda a Igreja. Em vez disso, o que vimos foi um silêncio, então os bispos foram leais ao silêncio.

“Estes problemas não se encaixavam na imagem que ele tinha de Igreja; ele não conseguiu lidar com a situação. Uma liderança forte por parte do papa teria sido algo maravilhoso. Não tivemos esse tipo de liderança, e nem estamos tendo agora, com o Papa Francisco”.

Há tempos Robinson tem falado contra a resposta inicial da Igreja às vítimas de abuso sexual infantil.

Ele sempre se opôs que os bispos lidem com os casos por si mesmos.

“A resposta dada estava demais orientada aos sacerdotes, em vez de se dirigir primeiramente às vítimas. Ela previa que cada diocese criasse a sua própria resposta e eu nunca quis isso; eu queria uma resposta única de todo o país”, disse ele.

“Já que cada bispo estava fazendo à sua própria maneira, achei que jamais teríamos uma resposta consistente, que jamais teríamos uma resposta boa”.

Um trecho de um documento de discussão foi lido diante da comissão, o qual deveria ser mantido em privado. Nele se ouviu que havia pecados piores do que abusar sexualmente de crianças, tais como o aborto ou homicídio.

Robinson ficou tão indignado com a citação que o copiou de forma que pudesse ser reproduzido.
“Eu acho que Deus se enfurece quando uma criança é violentada. Dizer que essas coisas são piores é um algo totalmente estranho a mim. Como posso me relacionar com pessoas que pensam dessa forma?”, disse.

Quando especulava sobre o que a Igreja poderia fazer para evitar futuros casos de abuso de crianças, Robinson falou de reformas.

“O celibato em si não é a causa dos abusos, mas acredito que o celibato obrigatório sim”, disse ele.

“Acho que a Igreja deveria analisar o celibato e, então, abandoná-lo”.

Robinson disse que a cultura da Igreja é muito dominada pelos homens e que permitir que as mulheres participem do clero era também uma proposta digna, mas que teria muita oposição no Vaticano.

Disse que aqueles que tomaram uma posição firme contra o abuso sexual de crianças corriam o risco de perder a confiança de seus sacerdotes.

Robinson citou Pell, que posteriormente se tornou cardeal e arcebispo de Sydney, como um exemplo de tal bispo, embora não detalhou por que achava que os sacerdotes perderam a confiança em Pell.

“Um bispo que perde o apoio de seus sacerdotes é um bispo mais ineficaz”, disse Robinson.
“A palavra mais comum que talvez tenhamos ouvido é ‘desengajamento’ (...) Este bispo em particular perdeu o apoio da maioria dos seus sacerdotes e isso o fez um bispo menos eficaz”.
Perguntado sobre a quem ele especificamente estava se referindo, Robinson respondeu: “O Cardeal Pell. A maioria dos sacerdotes queria que ele fosse transferido para outro lugar”.

Robinson, de 78 anos, ofereceu-se para vir à comissão assim que fosse possível, pois está com câncer terminal e queria dar o seu testemunho enquanto ainda podia. Ele trabalhou durante 50 anos como padre em Sydney e 31 anos como bispo.

Este religioso ficou chocado quando, em uma reunião em 1987, os bispos assistiram a uma apresentação sobre a extensão dos casos de abuso infantil cometidos por padres na Igreja australiana e no mundo.

“Foi um choque considerável para mim e acredito que para muitos dos outros bispos, porque, pela primeira vez, vimos que se tratava de um problema em grande escala presente na maioria dos países”, disse ele.

“Achei esta apresentação incrivelmente chocante. Eu realmente não fazia ideia de que os sacerdotes poderiam fazer tais coisas. Eu só tinha ouvido relatos até então, e agora estávamos diante de uma apresentação que não podíamos negar e que mostrou que se tratava de um problema sério”.

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