O novo frustrou a busca de alternativas. Vem aí a política de ciclo curto. Entrevista especial com Rudá Ricci

As possibilidades de reação dos brasileiros nas eleições municipais "são múltiplas", a depender das mudanças de humor do eleitor e das perdas sociais, diz o sociólogo

Eleições | Foto: Marcelo Camargo - Agência Brasil

Por: João Vitor Santos | Edição: Patricia Fachin | 30 Outubro 2020

“O Brasil está recheado de figuras públicas que povoaram as crenças dos brasileiros pobres”, diz o sociólogo Rudá Ricci. Foi assim com Vargas, Lula e tantos outros políticos e “celebridades” e o mesmo se repete, ao menos até o momento, com o presidente da República, Jair Bolsonaro. “Somente a imagem de Bolsonaro permanece em pé, ao menos até aqui: seu próprio governo, aliados e clones deram errado. Veja o caso do Partido Novo como ilustração: será o maior fracasso partidário destas eleições municipais, obtendo menos de 2% de intenção de votos nas capitais do país até aqui”, exemplifica.

 

Nesta entrevista, concedida por e-mail para a IHU On-Line, Ricci comenta os efeitos da aliança do presidente com o Centrão e diz que, nas eleições municipais deste ano, o “eleitor empobrecido”, que apostou na “mudança radical com Bolsonaro”, mostrará sua “mudança de humor” diante dos recorrentes discursos do novo que foi vitorioso nas eleições passadas. “O novo frustrou o eleitor em busca de alternativas”, assegura.

 

No pleito deste ano, acentua, dois fenômenos se destacam: “O totalmente inovador e o ‘apolítico’ ou inexperiente na política estão sendo rejeitados. Segundo: há uma evidente troca de pele entre as forças políticas do país, em especial, na esquerda”. Este, adverte, “talvez seja o momento mais crítico das forças progressistas do nosso país, sobretudo da esquerda brasileira, que parece desmotivada e desorganizada”. A tendência, diante da descrença em relação à esquerda e ao novo, é que as próximas eleições sejam marcadas pela “política de ciclo curto” e haja um “rechaço das soluções liberais e de extrema direita que, afinal, aumentaram a desigualdade social no Continente”, aposta.

 

Rudá Ricci (Foto: Ricardo Machado/IHU)

Rudá Ricci é graduado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, mestre em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp e doutor em Ciências Sociais pela mesma instituição. É diretor geral do Instituto Cultiva, professor do curso de mestrado em Direito e Desenvolvimento Sustentável da Escola Superior Dom Helder Câmara e colunista Político da Band News. É autor de Terra de Ninguém (Ed. Unicamp, 1999), Dicionário da Gestão Democrática (Ed. Autêntica, 2007), Lulismo (Fundação Astrojildo Pereira/Contraponto, 2010) e coautor de A Participação em São Paulo (Ed. Unesp, 2004), entre outros.

 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - O senhor observa que as últimas pesquisas nacionais apontam uma “autonomização da imagem” do presidente Jair Bolsonaro. O que isso significa?

Rudá Ricci - Trata-se, ainda, de uma constatação a partir de algumas pesquisas recentes realizadas por vários institutos de pesquisa que convergem para esta conclusão. No caso, a imagem pública de Jair Bolsonaro não estaria relacionada com a avaliação de seu governo (em queda de aprovação). Como se a liderança tivesse intenções melhores que a de sua capacidade de gestão ou, ainda, que não conseguiu assessores à altura de suas intenções. Bolsonaro, lembremos, por muitas vezes afirmou que não entendia de muitos temas centrais de um chefe de governo, como a administração da economia nacional. Ele se fez como um político do baixo clero, da porção marginalizada da sociedade brasileira. Esta pode ser uma das pistas para avaliar este enigma.

 

 

IHU On-Line - Como a aliança com o Centrão pode estar influenciando nesse cenário?

Rudá Ricci - Toda vez que os partidos que forjaram o Centrão estiveram aliados a um governo, geraram um plus nos seus índices de aprovação. E eles se aliaram a vários governos desde o fim do regime militar. Possuem certa capilaridade, governam muitos municípios, são os políticos do “toma lá, dá cá” que transformam a prática política em um mercado pragmático em que as utopias são substituídas pela crueza do ganho de momento. De certa maneira, este cinismo ou niilismo político se adequa a certo desalento e frustração do eleitor médio brasileiro.

Pesquisa realizada pela professora Walquíria Leão Rego, que deu origem ao livro Vozes do Bolsa Família, indica esta crença dos desvalidos socialmente em nosso país de que todo político é igual, faz parte de uma elite insensível e o que o diferencia é o resultado concreto das ações dele em suas vidas ou sua origem social. Contudo, esta hipótese de o Centrão blindar a figura de Bolsonaro não parece muito sólida na medida em que a aliança se deu recentemente e em virtude de os caciques do Centrão estarem no front das eleições municipais, onde os candidatos declaradamente bolsonaristas não estão indo muito bem. Talvez o Centrão tenha estabilizado a figura de Jair Bolsonaro e conseguido dar um tom mais pragmático à sua gestão, mais ao sabor do eleitor médio brasileiro, pragmático e sem grandes expectativas futuras em relação à performance dos políticos do país.

 

 

IHU On-Line – Se, por um lado, a aliança com o Centrão parece se estabelecer, de outro lado, onde está a oposição e a construção de alternativas a Bolsonaro?

Rudá Ricci - A oposição criou um mundo paralelo como a maioria dos brasileiros (que decretou unilateralmente o fim da pandemia em nosso país). Faz críticas pontuais ao governo federal, não mobiliza, não tem energia para criar alternativas ao governo de Jair e se joga nas eleições municipais. Este, talvez, seja o momento mais crítico das forças progressistas do nosso país, sobretudo da esquerda brasileira, que parece desmotivada e desorganizada. Não houve nem mesmo a tentativa de canalizar ações de solidariedade que se multiplicaram país afora de abril a junho deste ano. Até esta onda de solidariedade já revela arrefecimento.

Esta ausência de protagonismo e liderança alternativa vem alimentando um certo niilismo de determinado segmento progressista brasileiro que dissemina um discurso derrotista, sem perspectiva de futuro e que, muitas vezes, valoriza mais uma iniciativa dos setores mais conservadores ou de direita que os de seus próprios aliados. Percebe-se claramente tal derrotismo a partir da série de vitórias recentes das forças progressistas na América Latina. Os comentários em série nas redes sociais lamentavam que no Brasil tudo é diferente e que o brasileiro continua hibernando.

 

IHU On-Line - O senhor também tem destacado certa rejeição a candidatos bolsonaristas nas eleições deste ano. O que isso indica?

Rudá Ricci - Indica justamente a onda de mudança de humor do eleitor brasileiro em relação ao discurso do novo que se apresentou vitorioso nas eleições municipais passadas e embalou a vitória de alguns candidatos a governador em 2018. O novo frustrou o eleitor em busca de alternativas. Parece haver relação com o ataque sem tréguas que a grande imprensa e a direita brasileira desfecharam contra as políticas sociais arrojadas e o projeto desenvolvimentista implementados pelo lulismo. A despeito de diversos erros políticos, o lulismo melhorou a vida dos mais pobres. Contudo, foi vendida a interpretação de que os governos roubaram recursos ou que gastaram o que não se tinha para implantar tais medidas e, assim, mergulharam o país numa crise econômica. Em outras palavras, o Brasil não tem como melhorar e o melhor é se manter como sempre.

O eleitor empobrecido, contudo, tentou apostar na mudança radical com Bolsonaro, o candidato antissistêmico e radical, desbocado e bonachão e apostou, ainda, nos seus aliados ou candidatos que se apresentavam como clones de Jair. Resultado: somente a imagem de Bolsonaro permanece em pé, ao menos até aqui: seu próprio governo, aliados e clones deram errado. Veja o caso do Partido Novo como ilustração: será o maior fracasso partidário destas eleições municipais, obtendo menos de 2% de intenção de votos nas capitais do país até aqui.

 

 

IHU On-Line - Bolsonaro é um novo ‘líder teflon’, em que tudo que o cerca desaba, mas nada ‘cola nele’ e ameaça a popularidade? Como compreender essa relação dos brasileiros com esses líderes que parecem ser maiores que seus partidos, alianças e governos?

Rudá Ricci - O brasileiro médio é um crédulo. É o que lhe resta num país rico (8ª economia mundial) e profundamente desigual (o 7º país mais desigual do planeta). Pior: o pobre brasileiro faz parte de uma tradição familiar de pobreza, o que cria certa convicção de que vivemos num país de castas, em que nascemos com um destino escrito nas estrelas e nesta tradição social. Qual seria a saída para a superação desta marginalização? O que as pesquisas estão indicando é um mix de crenças:

a) a saída por meio do esforço pessoal;

b) a ajuda da família e de Deus;

c) a necessidade de intervenção do Estado com políticas sociais que lhes dê chance para mostrar seu valor;

d) a busca de um ídolo ou Messias para fazer a mudança radical desta lógica política imposta por elites.

Deste amálgama nascem lideranças com esta característica de todo ídolo: a esperança de cada marginalizado sem força é projetada na figura do ídolo forte. Foi assim com Pelé, Ayrton Senna, com Lula, com vários momentos da liderança de Getúlio Vargas. O Brasil está recheado de figuras públicas que povoaram as crenças dos brasileiros pobres.

 

 

IHU On-Line - Que leitura o senhor faz da corrida pelas prefeituras nas principais capitais?

Rudá Ricci - Primeiro, o que já disse: o totalmente inovador e o “apolítico” ou inexperiente na política estão sendo rejeitados. Segundo: há uma evidente troca de pele entre as forças políticas do país, em especial, na esquerda. O PT aparece com muitas dificuldades na região Centro-Sul (no que tange às capitais) e se desloca, ainda que timidamente, para o Nordeste. O PSOL parece capitalizar parte do espólio eleitoral petista. Temos, ainda, uma performance importante do PCdoB em Porto Alegre. Há, ainda, uma dispersão de lideranças do bloco progressista que migraram para partidos menores ou de baixa visibilidade, o que dificultará a análise dos resultados eleitorais.

Do outro lado, os candidatos declaradamente identificados com o bolsonarismo estão sendo derrotados. Arrisco dizer que, até aqui, parece que o eleitor desistiu de apostar em mudanças bruscas. Neste sentido, com raras exceções, quem não tem relação com a frustração recente de suas gestões, mas possui um recall positivo, está saindo muito bem deste pleito.

 

 

IHU On-Line - A partir do que o senhor tem visto na campanha deste ano, desde alianças a ataques, o que é possível projetar para as eleições presidenciais?

Rudá Ricci - Nada. Este tipo de projeção é o atalho mais rápido para o erro de análise. Eleição municipal não tem relação direta com eleições nacionais. Num país com tantas mudanças no humor do eleitor e com desastres sociais e perda de sistemas de proteção social, as possibilidades de reação do brasileiro são múltiplas.

 

IHU On-Line - Falando sobre atritos palacianos no governo de Jair Bolsonaro, o ex-porta-voz da presidência, general Rêgo Barros, tem feito manifestações públicas de desencanto com o governo e, especialmente, com a figura do presidente. O que isso indica?

Rudá Ricci - Evidentemente que os militares já devem ter percebido que tentar governar o Brasil é péssimo para sua imagem. Eles não têm formação política e profissional para esta empreitada. À medida que os fracassos e a crise social ganham volume, o descontentamento se amplia. Contudo, uma das saídas dos militares no governo foram os acordos forjados com o Centrão, sob liderança do general Luiz Eduardo Ramos. Este, aliás, é o motivo das rusgas do ministro do Meio Ambiente com o general Ramos: a vinda do Centrão escanteou os ministros “ideológicos” ou histriônicos do governo federal. O fato é que esta guinada ao Centrão é uma prova de que o projeto original do governo cívico-militar de Bolsonaro deu com os burros n’água.

 

 

IHU On-Line - No que diz respeito à saúde, Jair Bolsonaro desautoriza o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e pauta um debate sobre a não obrigatoriedade da vacina contra a covid-19. O que está por trás de todas essas polêmicas? Como o senhor lê esses bastidores e o envolvimento do parlamento e do Judiciário nessa discussão?

Rudá Ricci - Mais de 40% da população brasileira afirma que só tomará a vacina depois de os primeiros brasileiros serem testados. Portanto, há grande desconfiança de parte significativa dos brasileiros em relação à vacina. Bolsonaro, neste sentido, surfa nesta onda niilista. Ele se torna expressão desse pensamento médio nacional.

 

 

IHU On-Line - Qual a sua análise do plebiscito e da conjuntura chilena? O que diz à realidade brasileira, especialmente à esquerda?

Rudá Ricci - Argentina, Chile, Bolívia e, possivelmente, EUA indicam o esgotamento dos discursos histéricos de extrema direita no Continente. Não se trata, evidentemente, de uma guinada nítida à esquerda. Poderemos estar vivendo o que eu denomino de “política de ciclo curto”, ou seja, uma crise de legitimidade permanente dos governantes. Esta crise se deve à fragmentação da sociedade contemporânea em múltiplos interesses comunitários – devido ao ressentimento e frustração com governos de vários tipos e desencanto com a democracia representativa – e à incapacidade de governos sustentarem políticas de bem-estar social em função das oscilações da economia mundial e disputas entre forças geopolíticas (China, EUA e Rússia). Já a esquerda brasileira, como citei anteriormente, parece trocar de pele e não consegue emplacar um projeto alternativo para o Brasil. Pior: um segmento da esquerda parece desanimado e acovardado após a queda do governo Dilma Rousseff, a prisão de Lula e a vitória de Jair Bolsonaro.

 

 

IHU On-Line - Como o senhor analisa a conjuntura da Bolívia, após a vitória eleitoral do Movimento Ao Socialismo - MAS?

Rudá Ricci - Este é um caso a ser estudado e não tem paralelo com nosso país. Bolívia sofreu mais de 190 golpes de Estado em sua história. E tem na população indígena um polo da política nacional organizada. Um polo político, até a vitória de Evo Morales, que ameaçava constantemente a estabilidade do campo institucional que, por seu turno, tentava garantir sua marginalização. Lembremos do papel das lideranças indígenas durante a revolução boliviana de 1952, que modernizou o país, distribuiu terras e criou as bases da ampla cidadania dos bolivianos. Durante o governo de Evo Morales, as comunidades indígenas participavam da tomada de decisão em vários temas de Estado. A eleição do MAS, partido de Morales, retoma esta história de avanços sociais e políticos e reações das elites e direita boliviana.

 

 

IHU On-Line - A partir do Chile e da Bolívia, podemos vislumbrar mudanças na América Latina? E elas chegam ao Brasil em 2020 ou nas próximas eleições presidenciais? Por quê?

Rudá Ricci - Não é algo automático, nem mesmo linear. E o Brasil possui peculiaridades que procurei salientar nas respostas anteriores. O que posso sugerir é um rechaço das soluções liberais e de extrema direita que, afinal, aumentaram a desigualdade social no Continente e a crise de legitimidade de governos neste século, a “política de ciclo curto” que comentei anteriormente.

 

No dia 28 de outubro, Rudá Ricci participou do X Seminário de Observatórios, onde ministrou a conferência Desafios e perspectivas: ciência aberta, transparência e democracia no Brasil, junto com a Dra. Anne Clinio – UFRJ e com o MS Bruno Morassutti – OBS. Assista à integra da conferência: 

 

  

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