“Com a guerra, a fome voltará a explodir no mundo”

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19 Março 2022

 

Corremos o risco de que entre 7 e 13 milhões de pessoas a mais passem fome rapidamente devido ao conflito na Ucrânia. Guerra e pobreza alimentar ainda caminham de mãos dadas. Os conflitos continuam sendo a principal causa da fome no mundo.

 

“E o conflito na Ucrânia joga na nossa cara, mais uma vez, esse vínculo dramático, como ocorreu no Afeganistão, no Iêmen e em outras realidades”, afirma Maurizio Martina, vice-diretor geral da FAO (agência da ONU para a agricultura e a alimentação) e ex-ministro italiano de Políticas Agrícolas, Alimentares e Florestais.

 

A reportagem é de Daniela Fassini, publicada em Avvenire, 18-03-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis a entrevista.

 

Por que o conflito terá grandes consequências em termos de segurança alimentar?

 

A Ucrânia e a Rússia são dois grandes países agrícolas e estão entre os principais exportadores de produtos agrícolas como trigo, cevada e sementes de girassol. O que está acontecendo, em primeiro lugar, abre uma emergência alimentar para os milhões de ucranianos refugiados envolvidos no conflito – e o compromisso das agências da ONU presentes in loco para ajudar é enorme –, mas também devemos saber que mais de 50 países do norte da África, do Oriente Médio e da Ásia dependem em mais de 30% do seu consumo do trigo da Ucrânia e da Rússia. Estamos falando de Estados como Egito, Bangladesh, Turquia, Irã, Líbano, Tunísia, Líbano, Paquistão.

 

Por que é importante garantir a segurança alimentar?

 

É a condição mínima para não permitir que as pessoas passem para a área da desnutrição e da fome. E é um elemento essencial da paz e da estabilidade. Estamos falando de países com contextos complexos, em que o impacto do que está ocorrendo na Ucrânia corre o risco de ter um rápido efeito negativo, porque, se faltarem alguns bens essenciais nessas realidades, o problema é imediato. Países como a Eritreia por exemplo (que certamente não se sai muito bem em termos de estabilidade social e econômica), na importação de trigo depende em 50% da Ucrânia e em 50% da Rússia. A Somália também. E as Ilhas Seychelles importam 100% do seu trigo da Ucrânia. O Egito, 40% da Rússia e 60% da Ucrânia. O Congo importa 60% de todo o seu trigo da Rússia. Isso significa que o conflito na Ucrânia corre o risco de ter um efeito direto sobre a segurança alimentar de muitos países pobres.

 

Mas esses países já estão em situação de emergência?

 

Sem dúvida, eles já têm grandes dificuldades, mas muito também vai depender da duração do conflito. O certo é que esses países estão sob a nossa máxima atenção. Mas também devem estar sob a atenção da comunidade internacional, porque correm o risco de um forte impacto. Nós estimamos que poderá haver em nível global um aumento do preço do trigo na ordem de 8%, e lembremos sempre que justamente o trigo é um produto alimentar de primeiríssima importância para pelo menos 35% da população mundial.

 

Que tipo de impacto se espera para essas populações?

 

Estamos falando de regiões muito populosas e frágeis. As estimativas nos indicam um possível aumento entre 7 e 13 milhões de famintos em pouco tempo. Com problemas causados pelo abastecimento dessas matérias-primas, mas também pelo aumento dos preços em geral, também devido à incerteza econômica global que a guerra e o conflito têm acentuado, infelizmente. Então, a situação é delicada. Com todas as consequências potenciais da retomada também de fenômenos migratórios.

 

Regiões que certamente não estavam muito bem antes da guerra...

 

Sim, é verdade. A pandemia e os efeitos ligados às mudanças climáticas também provocaram aumentos dos preços no último ano.

 

Uma tempestade perfeita?

 

Estamos realmente em uma passagem muito delicada, porque, com todos esses desafios, os problemas se exacerbam. O aumento dos custos da energia levou ao aumento dos custos dos fertilizantes, que são fundamentais para as colheitas. O fato de os preços dos fertilizantes terem aumentado no último ano também diminuiu sensivelmente as estimativas de colheita em realidades muito frágeis, como a da África subsaariana. Lá já se levanta a hipótese de uma redução geral da produção de mais de 33 milhões de toneladas de alimentos. A guerra agravou ainda mais esse quadro.

 

E como é possível sair disso?

 

A primeira condição absoluta, naturalmente, é a da paz. Lembremos que os conflitos continuam sendo a primeira causa da fome no mundo. Parece que tínhamos esquecido isso. Saímos dessa situação relançando a cooperação internacional e o multilateralismo. E trabalhando com determinação em um novo modelo econômico, social e ambiental. Saímos disso desenvolvendo uma nova ideia de sustentabilidade integral da produção de alimentos, tanto do ponto de vista ambiental quanto do ponto de vista social. Mantendo os mercados abertos e fortalecendo a soberania alimentar das comunidades locais. Essa faixa de países em maior risco também são os da Primavera Árabe. O aumento dos preços dos bens de primeira necessidade também pode desencadear problemas sociais imediatos. Lembremos verdadeiramente que, sem paz, nunca poderá haver o fim a fome.

 

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