A dor do Papa entre os refugiados de Lesbos “Vamos parar este naufrágio de civilização”

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07 Dezembro 2021

 

Não faz muito tempo, tudo era diferente. Crianças brincavam no barro, entre montes de lixo. Ao redor, um cheiro acre de esgoto. Havia poucos contêineres, a maioria dos requerentes de asilo morava em tendas imundas. Quando o mistral chegava, muitas delas voavam para longe. Há apenas um mês, foram disponibilizadas novas tendas. Não havia eletricidade em algumas partes do campo. Em toda parte, havia frio e resignação.

 

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada por La Repubblica, 06-12-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Depois, o anúncio da visita do Papa Francisco. E o “Centro de Recepção e Identificação” de Mytilene - o campo de Mavrovouni em Lesbos que substituiu o de Moria, não muito longe, destruído por um incêndio em setembro de 2020 – como por magia é ajeitado e arrumado. Para espanto dos hóspedes, as autoridades se desdobram em colocar tudo em ordem. Mas todo mundo sabe que provavelmente não vai durar muito. E Francisco também sabe disso.

Chegou domingo de manhã a bordo de um carro branco após um voo de Atenas, ele diz: "Cinco anos se passaram desde a visita feita aqui com os caros irmãos Bartolomeu e Ieronymos", mas "depois de todo esse tempo constatamos que pouco mudou em relação à questão migratória". O fato de que nada mudou, os próprios requerentes de asilo teriam gostado de contar diretamente ao Papa. “Infelizmente, não foi concedido a eles”, explica Elona Aliko, 36, uma ítalo-albanesa, agora voluntária em Lesbos pela Operação Colomba, o corpo não violento de paz da associação comunitária Papa João XXIII. Que continua: “Só puderam cumprimentar Francisco rapidamente, sorrir para ele e nada mais”. Assim que ele sai do carro, o Papa é conduzido para um toldo branco. Apenas alguns refugiados o seguem enquanto mais longe, entre os contêineres, as crianças continuam correndo como se nada estivesse acontecendo, entre roupas penduradas para secar, latas de água e gatos famintos.

 

 

O mar, cristalino, fica a poucos passos de distância. Ninguém se sente atraído. Naquelas águas, centenas de pessoas perderam a vida. “O mar está se tornando um frio cemitério sem lápides”, diz Francisco, olhando nos olhos os poucos refugiados sentados à sua frente. E ainda: “Não deixemos que o mare nostrum se transforme em um desolador mare mortuum, que este ponto de encontro se transforme em teatro do confronto”.

De acordo com o Alto Comissariado da ONU para Refugiados, há 2.487 refugiados e requerentes de asilo em Lesbos.

2.144 vivem em Mavrovouni. A maioria deles veio do Afeganistão. Outros da Somália e da República Democrática do Congo. As crianças são 27 por cento, três em cada quatro têm menos de doze anos, 8 por cento estão aqui sozinhas. Três deles estão sentados à beira-mar. Eles olham para a Turquia, nas costas onde o corpo sem vida de Alan Kurdi foi depositado em 2015: “Encontremos a coragem de sentir vergonha diante dos rostos das crianças”, diz Francisco. Que então insiste com um apelo que não é novo no seu pontificado: “Por favor, vamos parar este naufrágio de civilização”.

 

 

Quatro garotos afegãos acompanham o discurso do Papa de um dos últimos contêineres no fundo do campo. Sorriem e dizem: “Não se esqueçam de nós. É difícil ficar aqui. Saímos raramente, quando nos dão permissão para isso".

Elona Aliko relata: “Uma vez por semana acolhemos aqueles que têm autorização para sair do acampamento. Nós os ajudamos em suas necessidades. Quando necessário, nós os acompanhamos até o hospital porque sem a gente eles não recebem os cuidados a que têm direito. Depois não voltamos para o campo com eles. Somos contra os campos fechados”. O Papa também afirma: “Não é levantando barreiras que se resolvem os problemas e se melhora a convivência”. E “é triste ouvir, como solução, propor o uso de fundos mútuos para construir muros, arames farpados. Estamos na era dos muros, dos arames farpados”.

 

 

Como em Lampedusa em 2013, a visita do Papa a Lesbos assume um tom quase penitencial. Uma citação é para o escritor de origem judaica Elie Wiesel, testemunha do Holocausto, que em 10 de dezembro de 1986, no discurso de recebimento do Prêmio Nobel da Paz, disse: "Quando as vidas humanas estão em perigo, quando a dignidade humana está em perigo, as fronteiras nacionais tornam-se irrelevantes”. O Papa pede que se supere “a paralisia do medo, a indiferença que mata, o cínico desinteresse que condena à morte os marginalizados com luvas de pelica”!

 

 

Ele levanta o olhar por alguns minutos, depois o abaixa e pergunta: "Por que não se fala da exploração dos pobres, das guerras esquecidas e muitas vezes ricamente financiadas, dos acordos econômicos feitos sobre a pele das pessoas, das ocultas manobras para traficar armas e fazer proliferar o seu comércio?". “As causas remotas devem ser enfrentadas”, insiste. “São necessárias ações concertadas”.

 

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