Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

Foto: Birmingham Museums Trust/Unsplash

25 Fevereiro 2026

"O conhecimento de Jesus é precioso, difícil e raro", escreve Eduardo Hoornaert, historiador, ex-professor e membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA).

Eis o artigo.

Palavras envelhecem. Podem até, com o tempo, perder seu sentido original. É o que acontece com diversas locuções da herança cristã de dois mil anos. Assim, a expressão Jesus Cristo virou nome e sobrenome de Jesus de Nazaré e, com o tempo, perdeu largamente seu significado metafórico. E quando dizemos que Jesus é Filho de Deus, costumamos passar por cima do original sentido intuitivo da expressão. Estamos tão acostumamos de ouvir falar dos milagres de Jesus que esquecemos que os relatos a esse respeito pertencem ao gênero narrativo caraterístico dos Evangelhos, sujeito a exageros, entusiasmos e tendências apologéticas. Finalmente, não costumamos dar muita atenção ao fato que Jesus tinha quatro irmãos e pelo menos duas irmãs, como o Evangelho de Marcos nos informa, de passagem, no capítulo seis. Em outras palavras, não damos a devida atenção a aspectos propriamente históricos das narrativas evangélicas.

Com essas colocações sumárias, já estou apontando a caraterística básica de meu recente livro Jesus de Nazaré: uma radiografia para além dos Evangelhos (Ed. Recriar, São Paulo, 2025). Nele não se trata de espiritualidade, nem de religião, nem de compromissos evangélicos no tempo que vivemos. Se você me permitir um termo um tanto complicado, eu diria que esse livro é de teor epistemológico, ou seja, procura elucidar de que modos chegamos a conhecer Jesus. O termo grego epistèmè significa conhecimento. A pergunta é: Como conheço Jesus?

Livro "Jesus Nazaré: uma radiografia para além dos Evangelhos", de Eduardo Hoornaert (Editora recriar, 2025).

Talvez seja esse caráter epistemológico de meu escrito que pode causar certo estranhamento ou mesmo certa dificuldade em entender o que tenciono comunicar. Explico logo: trato de expor com detalhes quatro modalidades tradicionais no nosso conhecimento de Jesus, que herdamos de uma tradição de dois mil anos: a metafórica, a narrativa, a histórica e a intuitiva. Acima já aludi a elas. Estou convencido que um maior esclarecimento de cada um desses quatro modos, de seus limites e suas possibilidades, é capaz de ativar, embora de modo indireto, o compromisso cristão.

Aqui, neste texto de umas dez páginas, apresento essas quatro modalidades, primeiramente de modo resumido e em seguida de modo mais detalhado.

Os quatro modos de conhecimento de Jesus

1. Você deve conhecer Jesus por meio da leitura ou da audição de trechos dos Evangelhos. Aqui vale lembrar que esses Evangelhos são textos relativamente tardios, escritos entre 40 e 70 anos após a morte de Jesus. Elaborados a partir de narrativas e tradições orais, eles carregam consigo, inevitavelmente, o que marca tradições orais: a caracterização narrativa, que comporta certa imprecisão, tendência à dramatização, perigo de exagero e mesmo de deformação da realidade vivida. A narrativa é um modo de expressão humana básica, mas merece análise criteriosa.

2. O que vem alargar significativamente nosso conhecimento de Jesus é a impressionante capacidade imaginária, metafórica e comparativa, que recebemos da natureza, no nascimento. Ela nos permite explorar infinitos espaços de conhecimento e ultrapassar de longe as informações que recebemos por meio de nossos cinco sentidos corporais. Dou um exemplo: quando falamos em Jesus Cristo, exercemos essa nossa capacidade imaginária, metafórica e comparativa. Pois o termo ‘cristo’, em grego, significa ‘ungido’. Ora, Jesus nunca foi ungido, nunca foi rei. Mesmo assim, já nos anos 50, apenas 20 anos após a morte de Jesus, em sua Carta aos Romanos, Paulo escreve que Jesus é Cristo. Ele compara Jesus com Davi, o Rei Ungido mais famoso de Israel. E, a partir desse momento, as comparações a respeito de Jesus, na literatura cristã, não param mais: Jesus Pastor, Luz, Caminho, Verdade, Cordeiro, mais recentemente Sagrado Coração, Cristo Rei, Salvador, Libertador etc.

Mas temos de ter cuidado e entender corretamente o que aqui se entende por ‘imaginação’, ‘comparação’, ‘metáfora’. Não podemos cair no engodo de pensar que imaginação é enganação e metáfora devaneio poético. Sei que nossa atual cultura ocidental, com sua insistência em ‘ideias claras e distintas’, pode nos levar a isso. A leitura dos Evangelhos exige de nós a capacidade de tomar distância de diversos pontos da epistemologia caraterística da atual cultura ocidental e nos abrir à especificidade da linguagem bíblica. Eis um ponto delicado, que comento adiante de modo mais detalhado.

3. Há um terceiro aspecto. Nem o conhecimento ‘narrativo’ nem o ‘imaginário’ retratam fielmente o que efetivamente aconteceu com Jesus, dois mil anos atrás. Você já deve ter percebido isso, já deve ter sentido a necessidade de investigar com maior precisão a história de Jesus. E nisso, você deve ter encontrado dificuldades. Pois, nos Evangelhos, as informações históricas acerca de Jesus são parcas, esporádicas e confusas. Por acaso, no capítulo 6 do Evangelho de Marcos se escreve que Jesus tem quatro irmãos e pelo menos duas irmãs. E no capítulo 4 do Evangelho de Lucas, no episódio da sinagoga de Nazaré, lemos que seus conterrâneos e familiares quase o jogam ladeira abaixo, por considerá-lo um impostor.

É verdade: enquanto a grande maioria dos cristãos conhece Jesus de modo narrativo, imaginário e metafórico, poucos alcançam o nível investigativo, historiográfico, racional. Não escrevo isso para depreciar a fé da maioria, mas para mostrar que uma maior investigação acerca da figura histórica de Jesus é uma exigência de nossos tempos. Assim, você entenderá por que, dos dez capítulos do referido livro, a metade (de 3 a 8) seja dedicada a temas de investigação historiográfica.

4. Quando eu estava redigindo o último capítulo do livro, percebi que algo estava faltando na minha tentativa de descrever os modos de se conhecer Jesus: o narrativo, o imaginativo (metafórico, comparativo) e o histórico. Foi lendo o capítulo 20 do Evangelho de João, na história de Jesus que aparece a Maria Madalena na ‘forma’ de um jardineiro, que me defrontei com Jesus ressuscitado. Como interpretar? Aí tive a sorte de encontrar uma pista num escrito do filósofo Spinoza, do século XVII dC, que apresenta o conhecimento intuitivo como culminância dos conhecimentos humanos. Além de narrativas, imaginações e investigações históricas, os três componentes de meu esquema interpretativo nos oito primeiros capítulos de meu livro, aparece, no capítulo dez, um conhecimento intuitivo de Jesus. Dá para alargar o esquema e incluir um quarto modo de se conhecer Jesus, o modo intuitivo? Na segunda parte deste texto, alínea quatro, respondo a essa pergunta.

Enfim, cheguei a compreender que meu conhecimento de Jesus se processa basicamente por meio de quatro modalidades: Jesus narrativo, imaginário, investigativo e intuitivo. Acontece que uma clara distinção entre essas quatro modalidades de conhecimento nem sempre se detecta com facilidade. Pois, na realidade vivida, os conhecimentos de Jesus costumam se apresentar entrelaçados, o que dificulta sua identificação. Daí pensei em apresentar meu esquema de modo mais detalhado.

O conhecimento de Jesus por narrativas

Já na vida de Jesus, circulam narrativas orais entre grupos de seus discípulos e discípulas, que crescem nos anos após sua morte. O termo grego mythos, que significa ‘narrativa’, e donde se deriva a palavra ‘mito’, expressa o processo. Assim, podemos dizer que a figura de Jesus, que se apresenta na primeira tradição cristã de modo oral, é de ordem ‘mitológica’.

Sei que a expressão ‘Jesus mitológico’ pode causar estranheza entre nós. Embora saibamos que o termo ‘mito’ significa ‘narração’, e que a vida de Jesus, inicialmente, se difundiu basicamente por narrativas, um sentimento de estranhamento paira sobre a expressão. Mas penso que ele facilita estudos comparativos, pois existe um ‘Buda mitológico’, um ‘Maomé mitológico’, um ‘Confúcio mitológico’, etc., na amplitude da história da humanidade.

Descrevo, em rápidas pinceladas, como se processou provavelmente a tradição cristã nas primeiras décadas após a morte de Jesus. Sabemos que os Evangelhos são representações relativamente tardias da vida de Jesus e que um largo período de tradição oral antecede sua redação. Marcos escreve aproximadamente 40 anos após a morte do Mestre de Nazaré, Mateus e Lucas por volta de 50 anos e João 70 anos. Na base de esparsas e diferenciadas tradições orais.

Como nos imaginar, por exemplo, uma tradição cristã por volta do ano 70 dC, no tempo da redação do Evangelho de Marcos? Alguns grupos de imigrantes judeus, que seguem os ensinamentos de Jesus, o Nazareno, residem em Roma, onde conseguem um emprego. Eles falam grego, a língua ‘franca’ do Império Romano, mas conservam usos e costumes de origem aramaica. Assim, constituem, a seu modo, uma sinagoga autêntica, baseada num profundo sentimento de fraternidade e no seguimento da tradição judaica de se reunir uma vez por semana, aos sábados, para a leitura piedosa de um texto bíblico e as orações tradicionais. É normal supor que, nesses momentos, o assassinato extremamente cruel do líder galileu venha a tona, num clima de muita emoção. Seus grandes feitos são evocados com sinais de exaltação, gritos e exclamações, como assinala a Primeira Carta aos Coríntios (1Cor 14) do apóstolo Paulo.

Esses primeiros discípulos são, em sua quase totalidade, analfabetos. Na época, apenas 5 a 10 por cento da população era alfabetizada. Os apóstolos, em geral, eram analfabetos, sendo Paulo de Tarso uma exceção. As sociedades, que viviam sob o comando do Império Romano, eram escravocratas. Com toda naturalidade, pessoas livres (como Paulo, por exemplo) dispunham de escravizados, como comprovam os próprios textos do apóstolo. Isso era tão natural que nem se falava do assunto.

Hoje, a grande maioria dos/as cristãos/ãs conhece Jesus pelo modo narrativo ou mitológico, por meio de uma codificação escrita nos Evangelhos.

O conhecimento de Jesus por imaginação, comparações e metáforas

Vinte anos após a morte de Jesus, o Apóstolo Paulo inicia sua Carta aos Romanos com as seguintes palavras: ‘(sou) escravo de Jesus Cristo’ (Rm 1,1). Ele, cidadão livre, se compara a um escravo, enquanto Jesus é comparado ao Rei Davi, pois o termo grego ‘Cristo’ significa ‘Ungido’ e costuma ser aplicado, na época, aos Reis de Israel, que eram ‘sagrados’ por meio de um derrame de óleo na cabeça. Acontece que Jesus nunca foi ungido Rei. Ao usar os termos ‘escravo’ e ‘ungido’, Paulo pratica, pois, uma comparação, uma metáfora. O termo grego metáfora significa ‘transferência’, ‘comparação’, ‘símbolo’.

A cultura bíblica é permeada de uma rica capacidade imaginativa. Paulo, por exemplo, não demonstra interesse na biografia de Jesus, não se informa acerca dos lugares em que Jesus nasceu e viveu nem acerca da sucessão de eventos que marcaram sua vida. Ele se concentra no que diversas figuras metafóricas (como ‘Cristo’) possam significar para a vida das comunidades. Paulo envereda por uma opção interpretativa fértil, capaz de ativar o compromisso cristão. Ao se declarar escravo de Jesus Cristo, ele se mostra disposto a seguir incondicionalmente seu contemporâneo Jesus de Nazaré, que ele nunca encontrou pessoalmente, mas passou a conhecer por conversas mantidas com discípulos de Jesus, provavelmente foragidos, em Antioquia da Síria, por volta do ano 45. Essas conversas provavelmente lhe causaram tão extraordinária impressão que ele precisou de tempo para conseguir assimilar e integrar na vida o que ouvira da boca de alguns discípulos de Jesus e sentira na alma naquelas oportunidades.

Os Evangelhos sinóticos seguem basicamente a trilha imaginativa de Paulo que, aliás, já vem da sinagoga e da literatura bíblica. E o tardio Evangelho de João, embora apresente determinados episódios de cunho marcadamente historiográfico, está igualmente assentado sobre metáforas na maior parte do texto.

Hoje, a teologia cristã pratica basicamente uma leitura metafórica da mensagem de Jesus.

O conhecimento de Jesus por investigação histórica

A fé do povo costuma se apresentar como pura ‘história de Jesus’, embora tenha um caráter basicamente narrativo. Acontece que uma narração não e o mesmo que um relato histórico. Falta-lhe rigor heurístico, investigação racional das ‘fontes históricas’, apresentação fiel dos fatos. Enfim, falta-lhe ancoragem em acontecimentos efetivamente vividos.

Há quem diga que essa ancoragem histórica não existe, ou seja, que a fé cristã se alimenta unicamente de apresentações metafóricas e mitológicas, sem referências propriamente historiográficas. Discordo desse posicionamento. Existem, sim, elementos historiográficos na biografia de Jesus de Nazaré, embora eles se encontrem espalhados nos Evangelhos. Mas esses elementos podem ser resgatados e integrados num discurso coeso por meio de uma leitura atenta e critica desses Evangelhos.

Nesse sentido, o método heurístico, criado por Heródoto na Grécia no século V aC, constitui um enorme avanço, em termos de conhecimento do passado. A referência à história vivida constitui um instrumento capaz de evitar, em profundidade, eventuais desvios na fé do povo. E digo mais: uma aproximação narrativa ou imaginativa da figura de Jesus só tem real valor pedagógico quando confirmada, direta ou indiretamente, por dados historiográficos.

Pensando bem, não é de se estranhar que, na tradição crista, a imagem ‘Jesus histórico’ fique mal delineada e apresente contornos fluidos, pois as culturas humanas em geral, há milênios, costumam privilegiar memórias metafóricas e mitológicas, como já apontei acima. Uma harmonia entre mitologia e história é coisa rara. Alcançar o passado como aconteceu realmente (expressão de Leopold von Ranke [1795-1886], o ’pai’ da historiografia moderna) é coisa rara. Parece que a humanidade prefere cultivar tradições mitológicas a encarar a crueza dos fatos efetivamente ocorridos.

Em meu ensaio, dedico a maior parte das páginas a sugestões no sentido de uma maior historicização da figura de Jesus, pois estou convencido que existe possibilidade de maior aprofundamento e de discussões acerca dos pressupostos teóricos do empreendimento. Espero que uma reversão da longeva predominância de Jesus metafórico e mitológico sobre Jesus histórico se torne possível com o tempo. Nesse sentido, meu trabalho é um apelo. De pouco adianta eu tecer considerações acerca do déficit historiográfico que afeta a figura de Jesus na tradição cristã, se nada mudar no modo em que costumamos ler e comentar os Evangelhos.

O conhecimento de Jesus por intuição

Escrevi acima que foi lendo, no capítulo 20 do Evangelho de João, a história de Maria Madalena no sepulcro de Jesus, que me defrontei com Jesus ressuscitado. Essa cena aponta para um quarto modo de se conhecer Jesus? Quem me ajudou a destrinchar essa questão foi o filósofo Spinoza, do século XVII dC. Embora sem falar do assunto Jesus, ele fornece uma chave interpretativa ao apresentar o conhecimento intuitivo como culminância dos conhecimentos humanos.

Para situar esse tema, convido você a voltar comigo a uma consideração já abordada neste texto: todos/as nascemos com uma admirável capacidade imaginativa, comparativa e intuitiva. Desde a primeira infância conseguimos ordenar ditos esparsos e desconexos, ouvidos da mãe, numa ‘gramática’ intuitiva, gerada no cérebro, que posteriormente será aperfeiçoada na escola. Isso já denota uma predisposição para a intuição. A intuição demonstra a extraordinária capacidade do corpo humano no sentido de não só enxergar com os olhos, ouvir com os ouvidos e tocar com as mãos, mas de ultrapassar a percepção física por meio de uma poética, criativa e construtiva capacidade do corpo humano, que faz com que nossos conhecimentos abram novos campos.

Escrevi acima que essas considerações sobre intuição não combinam bem com uma tendência marcante da moderna cultura ocidental, que exemplifico aqui por meio de uma breve apresentação da filosofia de René Descartes, do século XVII, o ‘pai’ da filosofia moderna, que cunha a expressão idées claires et distinctes, ‘ideias claras e distintas’, um dito que expressa bem a epistemologia ocidental predominante, até hoje. Descartes não deixa margem para sonhos e emoções, interações, sentimentos e intuições. A meta consiste em conseguir uma linguagem executiva, direta, enxuta, útil, proveitosa, asséptica, empírica, planejada, competente. O filósofo francês tem outra frase impactante: Cogito, ergo sum (em latim): ‘Je pense, donc je suis’, ‘penso, logo sou’. Sou porque penso. A cognição ‘clara e distinta’ é a condição sine qua non da epistemologia. Quanto mais o mundo é investigado, descrito e conhecido, tanto mais a humanidade se ‘desenvolve’. O importante é a cognição, o conhecimento da assim chamada ‘realidade’. O mundo vira um universo de informática, de sinais que significam algo na realidade empírica. O importante mesmo consiste na observação empírica, através da qual seja possível identificar com exatidão as coisas para poder agir sobre elas. O ‘conhecimento’ impera, a ‘ignorância’ tem de ser combatida. O ignorante não participa verdadeiramente da vida. Ele é cego, não sabe das coisas, não pode participar das discussões.

Graças a Deus, Descartes encontrou um contraponto à altura em seu contemporâneo holandês Spinoza, que abriu perspectivas capazes de livrar a tradição filosófica do Ocidente da prisão cartesiana, ao considerar que a intuição constitui o aperfeiçoamento e a culminância da razão humana. Em sua obra principal, Ética, de 1670 (edição brasileira pela Autêntica Editora, Belo Horizonte, 2009), Spinoza traça três ‘estágios’ que a mente humana e capaz de percorrer ao procurar conhecimento. Ele começa escrevendo que a grande maioria das pessoas permanece a vida toda presa a um estágio que ele chama imaginatio (a ‘Ética’ foi escrita em latim): impressões, imaginações, comoções e afetos que vêm de fora. Spinoza não rejeita essas imaginações e esses afetos, mas reconhece que se pode alcançar um estágio intelectual superior, a ratio, a ‘razão’, ou seja, a ‘ciência’. Mas ele alerta: a passagem entre imaginatio e ratio só se consegue por meio de repetidos conatus (esforços, estudos, treinamentos), que podem se estender por longos períodos.

Mas a real novidade da filosofia de Spinoza consiste em afirmar que há um terceiro estágio no aperfeiçoamento do conhecimento. A ratio pode culminar na scientia intuitiva, igualmente após muitos conatus. Por meio dela, somos capazes de conhecer Deus agindo no mundo: Deus sive natura. A scientia intuitiva nos permite ver as coisas sub specie aeternitatis (numa perspectiva de eternidade). Alcançamos um estágio de suprema liberdade e supremo amor. Assim como Deus se ama a si mesmo (Deus seipsum amat), amamos o outro como amamos a nós mesmos (Mt 22, 39). O ‘outro’ se confunde com o ‘mesmo’, amar o outro é amar a si mesmo. O resultado é uma invejável liberdade e uma capacidade de libertar quem entra em contato conosco.

Concluindo: a originalidade de Spinoza, em relação ao tema do conhecimento, consiste em afirmar que a intuição não é contrária à razão, mas constitui sua culminância, sua mais alta expressão.

Há como aplicar a epistemologia de Spinoza ao legado cristão? Quando Jesus se declara ‘filho de Deus’, ele não está externando uma intuição, a mais alta expressão de sua inteligência? Acontece que compartilhar a intuição de Jesus é muito difícil, pois isso implica em participar do discipulado, que é de uma radicalidade que dá medo. Só por meio do exercício de comportamentos evangélicos, por vezes por meio de longas aprendizagens e muitos esforços, se consegue conquistar a visão intuitiva de Jesus. Ao longo de mais de trinta anos, Helder Câmara se levantava da cama, cada noite, a uma hora da madrugada, para dialogar com o Pai. Jesus intuiu Deus no samaritano, no cobrador de impostos, na mulher pecadora, no inválido, no fariseu, no saduceu, no sacerdote e no judeu letrado. Seus discípulos o seguiram. Paulo intui Deus no não judeu, Francisco de Assis no muçulmano, Matteo Ricci no chinês, Charles de Foucauld no touaregue, Damião de Molokai no hanseniano, Irmã Dulce no morador de rua, Teresa de Calcutta no órfão, Helder Câmara no mocambeiro, Oscar Romero no preso político, Leônidas Proaño no indígena andino, Pedro Casaldáliga no expulso da fazenda. A lista dos/as ‘conhecedores/as’ de Jesus (e de Deus) é infinita e se completa a cada dia.

Para terminar: percebo agora que o capítulo final de meu livro pode ser entendido como culminância dos capítulos anteriores. Mas devo ficar atento ao que Spinoza (2009, p. 238) escreve na última frase de sua Ética: "o que é precioso é difícil e raro". O conhecimento de Jesus é precioso, difícil e raro.

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