Por que o Papa Francisco quer voltar para visitar os refugiados hospedados na ilha de Lesbos? É apenas um gesto de solidariedade ou significa outra coisa?

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25 Outubro 2021

 

Francisco em Lesbos: “Choramos ao ver o mar Mediterrâneo tornar-se um cemitério para os vossos entes queridos. Choramos ao ver a compaixão e a sensibilidade do povo de Lesbos e de outras ilhas. No entanto, também choramos ao ver a dureza de coração de nossos irmãos e irmãs - os vossos irmãos e irmãs que fecharam as fronteiras e se viraram para o outro lado”. (2016)

A reportagem é publicada por Il Sismografo, 22-10-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Em 16 de abril de 2016 o Papa Francisco visitou a ilha grega de Lesbos, em particular Mitilene, a capital, e o campo de refugiados de Mória, destruído por um incêndio gigantesco em 2020. O Papa em sua comovente visita foi então acompanhado pelo Patriarca Ecumênico Bartolomeu e também pelo Patriarca Ortodoxo de Atenas e de toda a Grécia, Hieronymus. Os três assinaram uma Declaração Conjunta há cinco anos [1] [2].

“A Europa hoje enfrenta uma das crises humanitárias mais sérias desde o fim da Segunda Guerra Mundial”, disseram na época esses três guias espirituais, introduzindo uma passagem fundamental do documento: “Juntos, solenemente, imploramos o fim da guerra e da violência no Médio Oriente, uma paz justa e duradoura e o regresso honroso daqueles que foram forçados a abandonar as suas casas. Pedimos às comunidades religiosas que aumentem os seus esforços para receber, assistir e proteger os refugiados de todas as crenças, e que os serviços religiosos e civis de assistência se empenhem por coordenar os seus esforços. Enquanto perdurar a necessidade, pedimos a todos os países que alarguem o asilo temporário, ofereçam o estatuto de refugiado a quantos se apresentarem idôneos, ampliem os seus esforços de socorro e colaborem com todos os homens e mulheres de boa vontade para um rápido fim dos conflitos em curso”.

Nas linhas de abertura desse documento, lemos: “Reunimo-nos na Ilha grega de Lesbos para manifestar a nossa profunda preocupação pela situação trágica de numerosos refugiados, migrantes e requerentes asilo que têm chegado à Europa fugindo de situações de conflito e, em muitos casos, ameaças diárias à sua sobrevivência. A opinião mundial não pode ignorar a crise humanitária colossal, criada pelo incremento de violência e conflitos armados, a perseguição e deslocamento de minorias religiosas e étnicas e o desenraizamento de famílias dos seus lares, violando a sua dignidade humana, os seus direitos humanos fundamentais e liberdade”.

 

A próxima visita do Papa e estes últimos cinco anos

 

A nova visita do Papa ainda não foi oficialmente confirmada, mas provavelmente acontecerá no início de dezembro, de acordo com o que o próprio Papa disse ao jornalista argentino Hernán Reyes Alcaide, da agência Télam. Deveria ser uma viagem curta para a Grécia e também para Chipre. Por enquanto, ainda se trabalha na preparação e, portanto, não há detalhes ou especificações relevantes.

 


Mapa com as próximas viagens do Papa Francisco em 2021 e 2022. Em verde, as viagens anunciadas pelo Papa. Em amarelo, as viagens que estão sendo planejadas. E em roxo, as viagens que o Papa disse pretender fazer em breve. Clicando nos traçados, você pode conferir a distância aproximada de Roma a cada localidade

 

No momento também parece plausível que o Santo Padre tenha novamente a 'companhia' do Patriarca Bartolomeu e do Patriarca Hieronymus. Além da breve parada em Mitilene, os três líderes espirituais poderiam se encontrar no novo campo de refugiados nascido perto dos escombros de Mória, ou seja, "Mavrovouni" (Kara Tepe), 2,5 km ao norte da capital Mitilene (capital da periferia do Egeu setentrional).

 

 

Da visita de 2016 até hoje, quase nada mudou na tragédia dos refugiados na área do Mediterrâneo. O alerta de Francisco, cinco anos atrás, e de Bartolomeu e Hieronymus, caiu em ouvidos surdos e a Europa basicamente não deu nenhuma resposta convincente, orgânica e previdente à emergência. Aliás, Itália, Grécia e Espanha continuaram a suportar o peso da situação nos últimos anos. Nesse ínterim, a emigração continuou como antes dos países atingidos pela crise. Guerras e conflitos não pararam na região, do Magrebe à Ásia, e o mesmo se vê todos os dias em outras regiões do mundo, em todos os continentes.

Não houve acordos entre os países da União Europeia, exceto por detalhes irrelevantes e marginais. A União tentou 'comprar' a 'ajuda' de Erdogan com bilhões de euros para que os fluxos migratórios fossem controlados fora das fronteiras dos países da UE. Os próprios migrantes tornaram-se moeda de troca entre a Turquia e a União Europeia. A UE fez algo semelhante com a Guarda Costeira da Líbia, uma verdadeira associação criminosa que recebe dinheiro, armas e ajuda da Europa para violar brutalmente os direitos humanos mais básicos. Entretanto, neste quinquénio, as mortes nas águas do Mediterrâneo não diminuíram: + 130% em reação a 2020 (14 de julho de 2021 - OIM).

Poucas semanas antes da nova viagem de Francisco a Lesbos é uma boa oportunidade para fazer um balanço destes 5 anos. É bom saber o quanto as palavras, o magistério e os gestos do Pontífice não contribuíram para mudar positivamente a situação e nem mesmo o perfil da conduta europeia. Num futuro próximo, tentaremos seguir essas pistas da emergência migratória que o Papa Francisco colocou no centro do ministério no âmbito da promoção e defesa da dignidade humana.

 

 

O fato de querer voltar a Lesbos levanta outras questões novas que precisam ser respondidas. A questão também se apresenta como um elemento de divisão, especialmente entre os povos cristãos da Europa e da América do Norte.

 

Notas:

[1] Texto do documento conjunto.

[2] Campo de refugiados de Moria, Lesbos - Discursos Francisco, Bartolomeu e Hieronymus.

 

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