EUA: aliança do sindicalismo com a Igreja Católica é vital

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27 Agosto 2021

 

Na sexta-feira, 20 de agosto, o comitê executivo da AFL-CIO [Federação Estadunidense do Trabalho e Congresso de Organizações Industriais], a maior central sindical dos Estados Unidos, escolheu Liz Shuler para ocupar o restante do mandato de Richard Trumka como presidente da organização.

O comentário é de Michael Sean Winters, publicado em National Catholic Reporter, 26-08-2021. A tradução é de Anne Ledur Machado.

Shuler, que subiu na hierarquia do International Brotherhood of Electrical Workers (IBEW), foi a número 2 de Trumka por muitos anos e foi a escolha óbvia para passar para o primeiro lugar após a morte prematura de Trumka no início deste mês. A eleição de uma mulher para liderar o movimento trabalhista estadunidense é um marco importante.

A sexta-feira também marcou o início de uma disputa pela direção de longo prazo do movimento trabalhista. Daqui a dez meses, a AFL-CIO escolherá um presidente para um mandato completo e, mais importante, debaterá algumas questões perenes sobre a direção que o movimento sindical deve tomar.

Trumka estava profundamente mergulhado no ensino social da Igreja e reconhecia o grau em que que o ensino e o movimento operário tinham ajudado a formar um ao outro ao longo do século XX. É óbvio ver como a aliança ocorreu no nível intelectual. Desde a encíclica Rerum novarum do Papa Leão XIII em 1891, passando pela encíclica Quadragesimo anno do Papa Pio XI de 1931, até a Octogesima adveniens de 1971 do Papa Paulo VI, e a Laborem exercens de 1981 e a Centesimus annus de 1991, ambas do Papa João Paulo II o magistério papal sobre o direito de se organizar foi claro, e a dignidade do trabalho e dos trabalhadores é um dos princípios fundamentais da doutrina social católica.

Esse ensino é trazido à tona na nossa vida intelectual católica por meio de eventos como as conferências “Erroneous Autonomy” que Trumka e Stephen Schneck, da Universidade Católica dos Estados Unidos, organizaram em 2014, 2015 e 2017, e por meio de conferências anuais como a Conferência McBride da Notre Dame. Em 2017, Fred Redmond, do United Steelworkers, proferiu essa conferência e também se juntou à liderança da AFL na sexta-feira.

O Papa Francisco levou essa tradição intelectual e moral a novos patamares. Você pode dizer que ele é a cereja do bolo da aliança católico-trabalhista. Em uma videomensagem gravada para a Organização Internacional do Trabalho no início deste ano, o papa vinculou os direitos dos trabalhadores ao seu entendimento da ecologia humana integral.

“Com a pressa de voltar a uma maior atividade econômica no fim da ameaça da Covid-19, evitemos as passadas fixações sobre o lucro, o isolacionismo, o nacionalismo, o consumismo cego e a negação das claras evidências que apontam para a discriminação dos nossos irmãos e irmãs ‘descartáveis’ em nossa sociedade. Pelo contrário, busquemos soluções que nos ajudem a construir um novo futuro do trabalho baseado em condições laborais decentes e dignas, que provenha de uma negociação coletiva e que promova o bem comum, uma base que fará do trabalho um componente essencial do nosso cuidado da sociedade e da criação. Nesse sentido, o trabalho é verdadeira e essencialmente humano. É disto que se trata, que seja humano!”

Vale a pena ler todo o discurso do papa. Minha única queixa é com o seu comentário depreciativo sobre o Iluminismo, que, no contexto atual, precisa de emenda, mas não de menosprezo.

A aliança Igreja-trabalho não era apenas uma questão intelectual e erudita. Muitos sindicatos locais realizaram suas primeiras reuniões nos porões de uma Igreja Católica local, e muitas festas de casamentos católicos foram realizadas no salão do sindicato local. Muitas dioceses ainda exigem a sindicalização em grandes empregos. Em temas como a imigração, a Igreja e o trabalho organizado atuam de mãos dadas, defendendo os direitos dos imigrantes e condenando as tentativas xenófobas de culpá-los pelos males do nosso país.

Na revista Politico, Rebecca Rainey esboçou as opções diante do trabalho organizado, mas elas não se encaixam tão bem quanto ela sugere em dois campos diferentes. É verdade que alguns no movimento trabalhista pensam que é preciso dedicar mais recursos à organização local e dedicar menos recursos à tentativa de afetar a política em Washington, uma posição com a qual eu concordo plenamente. É um truísmo da vida política dizer que o poder político fora da Casa Branca sempre se traduz dentro, mas o poder político dentro da Casa Branca nem sempre importa muito lá fora.

As diferenças nas filosofias de organização foram uma grande parte do motivo pelo qual alguns sindicatos abandonaram a AFL-CIO em 2005. O Unitehere e o United Food and Commercial Workers (UFCW) voltaram a integrar a AFL-CIO sob a liderança de Trumka. Shuler está em uma posição única para ajudar a manter o movimento trabalhista unido.

Também é preciso saber se o movimento trabalhista deve formar uma aliança pan-esquerdista com grupos como o Naral Pro-Choice America. Muitos membros comuns do movimento trabalhista apoiam a histórica recusa da AFL de tomar uma posição sobre o direito ao aborto. Rainey parecia confundir a questão de formar uma aliança pan-esquerdista com a de focar na organização, mas isso desvia do foco principal.

Há pessoas no movimento trabalhista que querem enfatizar a organização e que também se opõem a abandonar o foco do movimento trabalhista nas questões econômicas, e não sociais, assim como há aqueles que querem se concentrar na política de Washington, mas que querem fazer isso de mãos dadas com grupos pró-escolha e outros grupos liberais.

Na realidade, os organizadores trabalhistas devem ir além dos estreitos limites do local de trabalho para encontrar aliados na comunidade. Os trabalhadores podem enfrentar problemas de transporte para chegar até o trabalho, e os organizadores comunitários são aliados nessa luta. Eles podem ter opções inadequadas em relação aos cuidados de saúde, e os defensores de melhores cuidados de saúde tornam-se aliados naturais.

Não basta organizar os trabalhadores; você também precisa organizar as suas famílias, e as suas famílias têm necessidades como creches e têm conexões em toda a comunidade. As Igrejas locais, as ligas esportivas locais, os grupos locais pelos direitos dos imigrantes são aliados especialmente fortes.

O futuro do movimento trabalhista, assim como o futuro da Igreja Católica, depende da crescente população latina nos Estados Unidos. Como os democratas descobriram inesperadamente em novembro, muitos latinos não apoiam políticas sociais liberais. Seria um desastre se a AFL-CIO formasse qualquer tipo de aliança com grupos pró-escolha, dificultando ainda mais a organização entre os latinos, que tendem a fornecer novos membros em sindicatos em expansão como o Unitehere.

Mesmo no curto prazo, é óbvio como a Igreja Católica pode ajudar o trabalho organizado de uma forma que os grupos pró-escolha não podem. Se a Lei de Proteção ao Direito de Organização (PRO Act) for aprovada, ou mesmo estiver perto de ser aprovada, ela precisará dos votos dos republicanos no Senado. As lideranças católicas podem ajudar a garantir esses votos. O Naral Pro-Choice America não pode. A Conferência dos Bispos dos Estados Unidos deve apoiar formalmente o PRO Act agora, como um sinal de solidariedade com o trabalho organizado e em homenagem à memória de Trumka.

No nível local, a Diocese de Manchester, New Hampshire, desempenhou um papel fundamental na derrota de uma lei antissindical chamada de “direito ao trabalho” no início deste ano. Os grupos pelo direito ao aborto poderiam ter conseguido isso? Em uma legislatura em que os republicanos controlam as duas casas?

A aliança com o trabalho é boa também para a Igreja Católica. Ela ajuda a nos mantermos em contato com as nossas raízes na classe trabalhadora estadunidense. Ela alia a Igreja ao outro maior defensor da solidariedade na sociedade. Ela equilibra a influência cada vez mais sinistra dos católicos ricos. Ela nos identifica com as questões básicas que preocupam o grupo demográfico católico que cresce mais rápido, os católicos hispânicos

A visão do Papa Francisco de uma sociedade humana mais saudável reconhece um lugar proeminente ao trabalho organizado, porque os sindicatos têm sido um baluarte contra os piores excessos do capitalismo moderno e da cultura do laissez-faire. Para os sindicatos, assim como para a Igreja Católica, a solidariedade é o oxigênio sem o qual eles não podem viver. A aliança é natural e, eu ousaria dizer, sobrenatural: o trabalho digno é uma bênção e também um sinal de justiça humana.

Enquanto a AFL-CIO negocia o seu futuro, eu espero que suas lideranças sempre vejam na Igreja Católica uma aliada, e que as lideranças da Igreja Católica sempre busquem formas de alimentar essa aliança que tem beneficiado a Igreja e também os sindicatos ao longo da nossa história.

 

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