Pode a Igreja Católica concordar em mudar alguma coisa?

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19 Abril 2021

 

“Há medo de que a mudança faça com que a extrema-direita recolha seu dinheiro e fuja? Deve se ressaltar que a Igreja deixa muitas questões em aberto porque, como Hans Küng aponta, 'é impossível obter algum tipo de consenso'. Não estou tão certa de que evitar a tomada de decisões seja o melhor caminho. Nunca é bom preferir a paz à justiça”, escreve Phyllis Zagano, pesquisadora associada da Universidade Hofstra, em Hempstead, Nova York, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 15-04-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

Algumas vezes é preciso tomar um ar quando uma autoridade do Vaticano fala ecoando alguns textos teológicos. De que forma isso está acontecendo?

Há não muito tempo, o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, ecoou uma antiga passagem, um livro de 50 anos atrás, de um... atenção... teólogo suíço: Hans Küng.

Falando para uma emissora de rádio da Igreja espanhola, Parolin destacou o assunto da homilia de Sexta-Feira Santa do cardeal Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Papal, e (talvez desconhecendo) trouxe à tona um conceito descrito por Küng há 50 anos: algumas coisas podem mudar, mas as divisões internas na Igreja são perigosas.

Perigosas elas são, e muitas divisões fomentadas pela extrema-direita nos Estados Unidos estão fixadas em problemas sexuais e incorporam as formas de trumpismo. A relativamente desorganizada esquerda progressista pode tender a cruzar a linha, assim como ir na direção oposta.

Ainda assim, algumas coisas, disse Parolin, podem e devem mudar, embora “haja um nível que não pode ser mudado, a estrutura da igreja – o depósito da fé, os sacramentos, o ministério apostólico – estes são os elementos estruturais”.

Então, quem pode mudar o quê? O direito canônico mantém o poder na classe sacerdotal, embora o poder combinado da bolsa secular e o poder da mídia possam representar freios e contrapesos ao poder clerical. Mas o dinheiro também dá suporte ao clericalismo. O dinheiro e a mídia, especialmente as redes sociais, demonstram os perigos de uma mistura de dinheiro com política clerical.

Sem dúvida, há muitas pessoas muito felizes em substituir qualquer coisa vagamente pós-Vaticano II por suas imaginações dos anos 1950. Provavelmente, há tantas pessoas aborrecidas com a pregação mal informada de jovens clérigos com vestes rendadas e de alguns bispos (recentemente, o bispo de Kildare e Leighlin, pregando durante a missa da rádio RTE da Irlanda, falou sobre “Maria Madalena com seu passado colorido”).

Para quem pensa que o Concílio Vaticano II foi uma boa ideia, há muitos assuntos legítimos para discutir e muitas “leis meramente eclesiásticas” que podem e devem ser modificadas. E a maioria da igreja – os leigos que são 99% – querem ter uma palavra a dizer. É aí que a questão da justiça entra em discussão. Além das mulheres ordenadas como diáconas, um fato continuamente afirmado pelos historiadores, existem fatos bem pesquisados, bem documentados e bem estabelecidos que apoiam a participação leiga no governo da Igreja.

Ao longo dos séculos, a Igreja congelou os leigos de qualquer participação no governo e jurisdição, e o Código de Direito Canônico lacrou essa porta com pregos. O cânon 129.1 do Código de Direito Canônico de 1983 – escrito pelo então cardeal Joseph Ratzinger – afirma firmemente que os leigos podem cooperar, mas não participar do poder de governança.

Então, como a Igreja – ou seja, todos nós – vê o que está acontecendo com dinheiro, clericalismo, divisões e autoridade? O dinheiro por trás da extrema-direita é dinheiro leigo destinado a afetar a maneira como a Igreja reage às questões de justiça: para os pobres, para os necessitados, para as mulheres, além da fixação em questões sexuais.

Sem mudanças ou com mudanças? O pessoal do “sem mudanças” tem muito apoio administrativo. Algumas pessoas do “com mudanças” continuam falando, mas muitas simplesmente vão embora.

Sabemos que a Igreja pode mudar porque geralmente é preciso para manter o poder clerical. Ao longo dos séculos, a igreja moveu-se para remover as mulheres de qualquer papel na celebração da Eucaristia, para mantê-las fora do “altar” por uma misoginia supersticiosa (As crenças ridículas permanecem: um bispo me disse outro dia que seu reitor da catedral se desculpou porque uma mulher estava no altar durante a Vigília Pascal).

Ainda assim, há alguma luz no topo da escada clerical. O Papa Francisco mudou a lei para que as mulheres possam ser leitoras e acólitas. Cantalamessa alertou contra as divisões. E a palestra de Parolin soou como uma passagem do livro “Por que padres?” (1971), de Küng, onde ele escreve:

"Uma multiplicidade de opiniões, críticas e oposições têm seu lugar legítimo e requerem um diálogo constante e a exibição construtiva de ideias contrárias. Em tudo isso, a esfera privada de cada membro da Igreja deve ser respeitada (sejam eles de vanguarda ou conservadores por natureza). Em “questões de fé e moral” nada pode ser alcançado com meros votos. A este respeito, onde é impossível obter algum tipo de consenso (não unanimidade), é melhor deixar a questão em aberto segundo a antiga tradição conciliar".

Ecoando Küng, Parolin disse: “Às vezes... não se consegue distinguir entre o que é essencial que não pode ser mudado e o que não é essencial que deve ser reformado, de acordo com o espírito do Evangelho”.

O secretário de Estado continuou: “Há toda uma vida da igreja que pode ser renovada.”

Mas há medo de que a mudança faça com que a extrema-direita pegue seu dinheiro e fuja? Deve se ressaltar que a Igreja deixa muitas questões em aberto porque, como Küng aponta, “é impossível obter algum tipo de consenso”.

Não estou tão certa de que evitar a tomada de decisões seja o melhor caminho. Nunca é bom preferir a paz à justiça.

 

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