Francisco no Iraque: entrando em um labirinto

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26 Fevereiro 2021

Enquanto o papa se prepara para visitar o país devastado pela guerra, um veterano correspondente do Oriente Médio analisa as perspectivas de um retorno à segurança em uma nação assombrada pelo seu passado encharcado de sangue.

O comentário é de Patrick Cockburn, correspondente do jornal The Independent no Oriente Médio. Ele ganhou o Prêmio Martha Gellhorn em 2005, o Prêmio Orwell de Jornalismo em 2009, e foi Jornalista de Relações Exteriores do Ano em Jornalismo Britânico e Repórter Estrangeiro do Ano no Press Awards de 2014.

Este artigo contém material do seu livro mais recente, “War in the Age of Trump: The Defeat of Isis, the Fall of the Kurds, the Conflict with Iran” [Guerra na era de Trump: a derrota do ISIS, a queda dos curdos, o conflito com o Irã] (Ed. Verso Books).

O artigo foi publicado por The Tablet, 25-02-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Sempre admirei os iraquianos pela forma como lutaram para sobreviver – embora muitos deles não tenham conseguido fazer isso com sucesso – em mais de 40 anos de violência e medo. Ninguém que viveu no Iraque durante esse tempo de guerra e privação poderia escapar de ter uma vida interessante. Poucos povos no mundo sofreram tanto e por tanto tempo quanto eles. Um amigo em Bagdá me disse uma vez que “nenhum iraquiano pode ser considerado paranoico, porque no nosso país sempre há algo para se temer”.


Mapa do Iraque, em destaque as localidades que serão visitadas pelo Papa Francisco. Fonte: Universidade do Texas

O Iraque é um lugar diverso, permanentemente dividido entre diferentes comunidades – xiitas, sunitas, curdos, cristãos, yazidis –, cada uma com sua cultura religiosa ou étnica própria. Mas o Iraque nunca foi um caldeirão cultural, porque o caldeirão nunca gerou fusões, e cada comunidade conservou cuidadosamente sua identidade e suas tradições.

Um iraquiano pode ser um católico siríaco de Qaraqosh nas planícies de Nínive, fora de Mosul, no norte, ou um xiita tribal dos pântanos fora de Basra, no sul. “Dois iraquianos, três seitas”, costumava ser uma piada entre os vizinhos iraquianos.

Os governos estrangeiros quase sempre falharam em compreender o país, frequentemente pagando um preço alto pela sua ignorância – embora não tão alto quanto o pago pelos próprios iraquianos. Na época da invasão liderada pelos EUA em 2003, o presidente Bush e Tony Blair não viram – algo que era óbvio para todos os iraquianos – que derrubar Saddam Hussein significaria substituir o domínio sunita pelo domínio xiita, e isso era improvável de acontecer sem violência.

O que os profetas da desgraça mais pessimistas não previram foi a selvageria com que esse conflito seria travado, ou a extensão de tempo que ele duraria. Desde então, a maioria xiita emergiu como a vencedora, embora ela governe uma terra em ruínas, e os sunitas tenham perdido quase tudo, e a sua maior cidade, Mosul, foi destruída em um cerco de nove meses. Os cristãos e os yazidis foram esmagados pela violência implacável, e sua vulnerabilidade como minorias os expõe a predadores de todos os lados.

Certa vez, eu conheci uma garota cristã, uma estudante da Universidade de Bagdá, que me disse que estava usando um lenço na cabeça porque seus pais esperavam que isso a fizesse parecer um membro de uma poderosa tribo sunita e deteria potenciais sequestradores.

Eu costumava aconselhar meus amigos cristãos a tentarem ficar no Iraque se pudessem, porque a vida de um refugiado, mesmo para alguém que tenha dinheiro e contatos, geralmente era pior do que parecia. Mas, quando o Estado Islâmico (EI) capturou Mosul e Qaraqosh em 2014, eu comecei a duvidar se os meus apelos para que meus amigos ficassem eram realistas ou responsáveis. O EI geralmente permitia que os cristãos fugissem (ao contrário dos yazidis), mas o perigo mesmo assim era grande.

O Papa Francisco entenderá isso quando visitar a principal igreja em Qaraqosh, com suas paredes totalmente queimadas pelo fogo, e os antigos enclaves cristãos em Mosul. Para os cristãos ficarem, eles precisarão de mais do que garantias verbais de segurança por parte do governo em Bagdá. Não que isso valha muito, já que os iraquianos têm um ditado que diz que existem quatro poderes iguais no país: o governo, a marja’iyyah (a hierarquia religiosa xiita), as tribos e as Hashd (as milícias xiitas). Esquivar-se entre essas autoridades concorrentes não é fácil para ninguém, particularmente para os cristãos.

Os iraquianos tendem a ser pessimistas, e com bons motivos, mas essa melancolia não deveria ser totalmente generalizada. A segurança física no Iraque, de fato, melhorou muito nos últimos três anos desde a derrota do EI, embora esta não esteja totalmente completa. Quando os assassinatos sectários estava em sua pior fase, em 2006-2007, 100 pessoas eram massacradas todos os dias. Os jovens do sexo masculino frequentemente eram alvos e às vezes tinham um pequeno símbolo, como uma oliveira, tatuado na pele, para que seus corpos pudessem ser identificados, mesmo que seus rostos fossem mutilados por seus assassinos para ficarem irreconhecíveis.

Diante desse passado encharcado de sangue, não é nenhuma surpresa que as pessoas em Bagdá estejam apenas lentamente se reajustando ao refluxo da violência desde 2017. Até janeiro deste ano, 32 pessoas foram mortas por dois homens-bomba suicidas do EI no mercado central de Bagdá. O medo recua lentamente, e o Iraque viu muitas falsas auroras para abandonar os hábitos de cautela e suspeita.

Eu estava viajando pelo interior, perto de Taji, uma antiga fortaleza insurgente sunita a uma hora de carro ao norte de Bagdá, há alguns anos. Um fazendeiro me disse: “Eu conheço gente daqui que não vai a Bagdá há 10 anos, porque tem medo de ser pega nos postos de controle do governo”. Voltando de Taji, alguém no carro me disse abruptamente para tirar o cinto de segurança: “Nenhum iraquiano jamais o usa, e isso o identifica como um estrangeiro”.

Eu conheço essa coceira de ansiedade constante em relação à própria segurança. Como a segurança piorou depois de 2003, eu dirigia por Bagdá em um carro deliberadamente sujo e surrado, tentando evitar chamar a atenção. Um segundo carro viria atrás para ver se estávamos sendo seguidos e, se estivéssemos, para nos avisar via rádio manual. Eu penduraria algumas camisas em um gancho perto da janela, como as pessoas fazem quando estão voltando da lavanderia, mas o verdadeiro motivo era dificultar a minha identificação como estrangeiro no banco de trás do carro, mas sem sugerir que tínhamos algo a esconder.

Uma melhor segurança significava que as pessoas poderiam se concentrar mais nas inúmeras outras coisas que estavam erradas no Iraque. Desde que eu cheguei pela primeira vez em Bagdá em 1977, a aparência física da cidade mudou muito pouco, porque há muito poucos novos prédios grandes. Em vez disso, os recursos foram despejados em guerras ou roubados pelos responsáveis pela reconstrução. Uma infraestrutura projetada para dois milhões de pessoas na capital há 40 anos é usada hoje por quatro vezes mais pessoas. O resultado é uma sensação geral de degradação e dos piores engarrafamentos do mundo. O distanciamento social, mesmo com o enfurecimento da epidemia de Covid-19, é impossível.

O roubo ou o desperdício de dinheiro quando os preços do petróleo estavam altos está tendo um impacto desastroso hoje. Cerca de 400.000 jovens entram no mercado de trabalho a cada ano, e há poucos empregos para eles. Foram os desempregados, tanto instruídos quanto não instruídos, que estiveram na linha de frente dos protestos em massa que começaram em outubro de 2019 e que podem eclodir novamente a qualquer momento.

Em Sadr City, o grande enclave da classe operária xiita em Bagdá, a taxa de divórcio está aumentando, porque os maridos desempregados não podem sustentar suas famílias. Os melhores empregos são no exército e na polícia, em que um oficial ganha três vezes mais do que um professor, mas todos eles foram abocanhados. Na verdade, essa crise vai piorar em vez de melhorar, já que o governo não pode mais pagar os 4,5 milhões de iraquianos, de uma população de 40 milhões, que dependem do Estado para a sua renda.

A comunidade cristã pode ser a mais exaurida pela emigração, mas o impulso entre todos os iraquianos de fugir do país é forte. Certa vez, ao comprar um celular no distrito de Karrada em Bagdá, eu conheci um jovem lojista chamado Rami que usava uma camiseta azul com o slogan “I Choose Leave” [Eu escolho sair] impresso na frente, em grandes letras brancas. A camiseta tinha sido planejada para o referendo sobre o Reino Unido na União Europeia em 2016, mas, talvez por causa do excesso de oferta, acabou sendo vendida em Bagdá, onde seu slogan tinha um sentido totalmente diferente. Rami me disse que entendia o significado das palavras em inglês na sua camiseta e acrescentou que certamente escolheria sair do Iraque se tivesse a chance.

A única boa notícia para o Iraque é que, com o presidente Joe Biden na Casa Branca, há menos probabilidade de uma guerra entre os EUA e o Irã travada em solo iraquiano. O assassinato do general iraniano Qasem Soleimani, o diretor da intervenção do Irã entre seus vizinhos do Oriente Médio, por um drone dos EUA no aeroporto de Bagdá no dia 3 de janeiro de 2020 sugeriu que isso poderia ocorrer em uma questão de dias. A guerra foi evitada, mas a paz não chegou, e enquanto isso não acontecer – e para todos os iraquianos – o êxodo de cristãos continuará inabalável.

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