Pandemia e ameaças terroristas: a viagem papal ao Iraque é complicada, mesmo para Francisco

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24 Fevereiro 2021

Viajando durante uma pandemia global. Ir para um país onde homens-bomba são uma ameaça. Preparando-se para o primeiro encontro entre um papa e um dos líderes clérigos do mundo islâmico.

Mesmo para um pontífice que realizou algumas viagens difíceis, a visita planejada do Papa Francisco ao Iraque, de 05 a 08 de março de 2021, tem mais uma complexidade usual.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 23-02-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Acrescenta-se à lista: encorajar uma pequena mas histórica comunidade cristã que ainda está cambaleando depois de três anos de devastação forjada pelos militantes do Daesh que destruíram igrejas e forçaram centenas de milhares a fugir de um brutal regime fundamentalista.

Ainda assim, dadas todas as possíveis dificuldades, analistas iraquianos e líderes cristãos disseram ao NCR que o simples fato da vinda do papa deveria superar quaisquer problemas.


Mapa do Iraque, em destaque as localidades que serão visitadas pelo Papa Francisco. Fonte: Universidade do Texas

Como disse Marsin Alshamary, residente em Bagdá, quando questionado se os iraquianos estariam procurando Francisco para abordar assuntos ou temas específicos enquanto estivesse no país: “O simbolismo de uma visita do papa ao Iraque é um gesto suficiente”.

“Mesmo se ele viesse e dissesse as coisas típicas que esperamos que um líder religioso diga, ainda é algo muito importante e muito simbólico o que ele fez pelo Iraque”, disse Alshamary, um iraquiano pós-doutorado na Instituição Brookings.

O arcebispo Bashar Matti Warda, que lidera a comunidade católica caldeia em Erbil, também destacou o significado simples do papa escolher vir e visitar.

“Desde o início de seu papado, ele falou sobre os grupos marginalizados”, disse Warda. “Ele está vindo para ficar cara a cara, para nos mostrar que se preocupa conosco”.

A visita de Francisco ao Iraque, durante a qual está programado para visitar seis cidades em três dias, será a primeira no exterior desde novembro de 2019. Ele cancelou todas as viagens planejadas para 2020 devido à pandemia de coronavírus em curso.

Embora o Iraque tenha anunciado um novo lockdown parcial do coronavírus em 15 de fevereiro, incluindo o fechamento temporário de todas as mesquitas e igrejas do país, o Vaticano continua os preparativos para a viagem e ainda não disse se ela pode ser adiada.

O papa e aqueles que viajam com ele estão sendo vacinados pelo Vaticano antes da viagem. Os organizadores locais também estão enfatizando que protocolos rígidos de distanciamento social e uso de máscara estão sendo implementados.

Warda, que está supervisionando os preparativos para uma missa planejada para 7 de março no estádio de futebol Franso Hariri, em Erbil, disse que os organizadores estão limitando estritamente o número de pessoas que podem comparecer, atribuindo assentos e coletando números de telefone.

“Deus proíba que surja qualquer caso. Mas saberíamos exatamente onde está essa pessoa e poderíamos informar aqueles que a cercavam que havia um caso”, disse o arcebispo.

O Vaticano não tratou de possíveis preocupações com a segurança do papa no Iraque. Embora os ataques violentos tenham diminuído em grande parte desde que o governo iraquiano levou o grupo do Daesh à clandestinidade no final de 2017, houve um atentado suicida duplo em Bagdá em 21 de janeiro que matou pelo menos 32 pessoas.

Houve também um ataque com foguete contra as forças da coalizão liderada pelos EUA perto do aeroporto de Erbil em 15 de fevereiro, matando um empreiteiro civil e ferindo outros.

Francisco já disse que não tem medo da morte nem de arriscar a vida no ministério. Em uma entrevista de 2015, ele disse que só pediu a Deus que sua morte não fosse dolorosa porque “Eu sou um verdadeiro covarde quando se trata de dor física”.

O papa disse ao Catholic News Service em 1º de fevereiro que só adiaria sua visita ao Iraque se houvesse um sério aumento nos casos de coronavírus. “Eu sou o pastor de pessoas que sofrem”, disse o pontífice, explicando por que sente que deve fazer a viagem.

Uma autoridade do Vaticano sugeriu ao NCR que as medidas de prevenção do coronavírus no Iraque podem aumentar a segurança do papa. Essa pessoa, que pediu para não ser identificada porque falava sem permissão dos superiores, disse que as medidas podem limitar o acesso aos eventos além do que poderia ter sido planejado.

A viagem de Francisco ao Iraque será a 33ª visita do papa ao exterior desde sua eleição em março de 2013 como pontífice. O roteiro da visita indica dois objetivos principais: incentivar as comunidades cristãs no país e buscar um diálogo de alto nível entre muçulmanos e cristãos.

O foco do primeiro objetivo será em 7 de março, quando o papa viaja ao norte de Bagdá para visitar Erbil, Mosul e Qaraqosh (Bakhdida).

Mosul e Qaraqosh tiveram, historicamente, comunidades cristãs significativas que remontam às primeiras décadas da fé, mas foram dizimadas sob o controle do grupo do Daesh de 2014 a 2017.

Os combatentes fundamentalistas mataram milhares de cristãos no que o Parlamento Europeu reconheceu como um genocídio. Centenas de milhares de outros fugiram como refugiados, muitos indo para Erbil, na região autônoma do Curdistão do Iraque, que o grupo do Daesh nunca controlou.

A arquidiocese de Warda teve um papel de liderança na oferta de abrigo e ajuda aos refugiados. Ele disse a certa altura que estavam oferecendo assistência a cerca de 13 mil famílias, mas cerca de 8 mil dessas famílias já puderam retornar às suas cidades de origem.

“Aprendemos com esta experiência sobre partilha, generosidade”, disse o arcebispo sobre a experiência. “A maldade do Daesh limitou parte da vida da comunidade, mas Deus abriu outras portas com amor e generosidade”.

Yousif Kalian, especialista em programas do Instituto de Paz dos EUA com sede em Erbil, disse que Francisco visitará uma comunidade cristã “cujo espírito foi quebrado”.

Enquanto estiver em Mosul, Francisco fará uma oração em um memorial pelas vítimas da violência do Daesh. Em Qaraqosh, o papa deve visitar a catedral de Santa Maria al-Tahira. A maior igreja católica siríaca do Oriente Médio, ela ainda está em reparos depois de ter sido saqueada e incendiada por combatentes do Daesh.

Diálogo muçulmano-cristão

A busca do diálogo muçulmano-cristão será o foco do papa em 6 de março, quando ele viaja para Najaf, ao sul de Bagdá, para um encontro privado com o Grande Aiatolá Ali al-Sistani, um dos clérigos muçulmanos xiitas mais influentes do mundo.

Alshamary e outros especialistas disseram esperar que essa visita, a primeira do tipo, seja de importância histórica.

“Sistani é uma figura tão reverenciada no Iraque, uma autoridade religiosa muito respeitada”, disse Alshamary, que focou sua dissertação no Instituto de Tecnologia de Massachusetts no envolvimento de clérigos xiitas na política iraquiana. “É muito importante que eles se encontrem”.

Gabriel Said Reynolds, um teólogo da Universidade de Notre Dame que se concentrou nas relações entre muçulmanos e cristãos, disse simplesmente que Sistani é “amplamente considerado o ator religioso de maior autoridade para os muçulmanos xiitas em todo o mundo”.

Sunitas e xiitas são os dois principais ramos do Islã.

Francisco tem buscado o diálogo com as autoridades muçulmanas ao longo de seu papado, mas o tem feito especialmente nos últimos anos. O Iraque será sua nona visita a um país de maioria muçulmana. Visitas anteriores incluíram as primeiras viagens papais ao Egito e a Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, que também foi a primeira viagem papal à Península Arábica.

Francisco também se encontrou várias vezes com o Grande Imã da mesquita de Al-Azhar, no Cairo, o xeque Ahmed el-Tayyeb, considerado uma das principais autoridades dos muçulmanos sunitas em todo o mundo.

Depois de receber Francisco no Egito em 2017, Al-Tayyeb encontrou-se com o papa em Abu Dhabi em 2019 para assinar uma declaração conjunta conhecida como “Documento sobre a Fraternidade Humana”, que comprometeu os dois líderes a apoiar o diálogo inter-religioso, trabalhando para espalhar uma cultura de tolerância e repudiar o uso da violência.

Reynolds disse não saber se Sistani no Iraque também estaria disposto a assinar o documento, mas chamou o texto de um “ponto revolucionário” no diálogo entre muçulmanos e cristãos.

“Isso abre a porta para todos os tipos de possibilidades de pensar sobre as questões da liberdade religiosa, liberdade de expressão e liberdades culturais no mundo islâmico”, disse o teólogo.

Kalian destacou o fato de que Sistani é conhecido por ser seletivo sobre as pessoas que escolhe conhecer.

“O aiatolá Sistani não se encontra com qualquer pessoa”, disse Kalian. “É sabido e bem documentado que ele só se encontra com as pessoas como forma de enviar um sinal”.

Citando o recente foco de Francisco em viajar para nações de maioria muçulmana, Reynolds chamou o diálogo entre muçulmanos e cristãos como uma espécie de “fio condutor” desse pontificado.

“Claramente, há uma tendência e ele está profundamente preocupado com o diálogo entre muçulmanos e cristãos”, disse Kalian. “Não se trata apenas de visitar locais problemáticos como o Iraque, que tem uma crise política e de direitos humanos, mas especificamente de nações de maioria muçulmana. Ele se preocupa profundamente com isso”.

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