Nick Land: entre o neorreacionarismo e a construção de uma esquerda fora do cânone. Entrevista especial com Fabrício Silveira

Ao mesmo tempo que o Aceleracionismo funciona, em parte de suas vertentes, como um motor do que poderíamos chamar de internacional ultradireitista, mostra a exigência de uma esquerda que faça frente ao neorreacionarismo

Arte: Mateus Dias/IHU

27 Fevereiro 2026

Nick Land é o principal formulador da corrente teórica conhecida como “Aceleracionismo”. Seus primeiros escritos, ainda na virada do século, foram pioneiros ao tratar sobre o novo estado de coisas que passaríamos a ver e que hoje são comuns, tais como o capitalismo cognitivo, a sociedade tecnoinformacional, as sociedades de hipercontrole, etc. “O desenho de sociedade que temos hoje (isto é: uma sociedade hiperconectada, virtualizada, rentista, paranoica, violenta, refém de novos autoritarismos, etc) é apreendido por ele [Nick Land], desde o início, no momento em que mal começava a se configurar”, pontua Fabrício Silveira, em entrevista por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Tudo isso faz parte do que poderíamos chamar de primeira fase de Land, na segunda metades dos anos 1990 e começo dos anos 2000, na Universidade de Warwick (UK), no Reino Unido. Após um período no ostracismo, ele ressurge, por volta de 2010, em Xangai, e lança uma obra que se tornou leitura obrigatória na ultradireita contemporânea. “Essa é a fase de sua interação com o movimento neorreacionário e as direitas alternativas norte-americanas. E o que demarca isso é a publicação, por volta de 2012, de um livro chamado Iluminismo Sombrio”, destaca o entrevistado.

“O Iluminismo Sombrio é uma doutrina política, uma espécie de teologia política, uma tentativa de elaboração de uma nova teoria do Estado. Em síntese, o que Land propõe é a substituição da democracia representativa por uma plataforma de governança automática, independente das demandas de sujeitos situados”, explica Silveira. “Não é à toa que esse desenho ideológico tenha despertado tanto interesse junto ao alto empresariado do Vale do Silício”, complementa.

Mark Fisher, que foi aluno de Land, e também um dos principais nomes do aceleracionismo, dizia que o próprio Land era o opositor que a esquerda precisava. “Mark Fisher é o lastro do Humanismo que Nick Land já abandonou. Se não formos capazes de imaginar uma nova esquerda sem os valores e as grandes pautas do Humanismo Nick Land não terá sido destruído. Uma alternativa a isso seria imaginar arranjos e infraestruturas tecnoinformacionais que fossem afirmativamente de esquerda e capazes de disputar o desejo lá onde se instalaram os apelos do neoliberalismo ultratecnológico, à moda do Vale do Silício. O que não deixa de ser uma opção difícil de sustentar”, frisa.

Fabrício Silveira (Foto: Igor Spereto | Jornal ExtraClasse)

Fabrício Lopes da Silveira graduou-se em Comunicação Social - Habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM, 1995); Mestre em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS, 1998) e Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos, 2003). Entre 1998 e 2018, foi professor dos cursos de graduação e pós-graduação em Comunicação da Unisinos, em São Leopoldo/RS. Na mesma instituição, atuou também vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Design Estratégico. Em duas ocasiões, em 2005 e 2007, foi professor convidado e pesquisador visitante na Universidade Autônoma de Barcelona, na Espanha. Em 2015, concluiu estágio de Pós-Doutorado Sênior junto à Universidade de Salford, na Inglaterra. Entre março de 2019 e fevereiro de 2023, realizou estágio de pós-doutorado junto ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde foi credenciado como professor colaborador. Entre março de 2023 e fevereiro de 2024, foi professor visitante no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Ouro Preto / MG.

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Silveira é autor do livro O Exterminador do Futuro. Mídia, horror e política em Nick Land lançado no início de agosto de 2025, pela editora Zouk, de Porto Alegre. É o primeiro livro publicado no Brasil sobre a obra do filósofo inglês Nick Land. Depois de ter fundado a chamada filosofia aceleracionista e dado suas contribuições também para outras importantes vertentes do pensamento filosófico contemporâneo, Land se desligou da Universidade de Warwick (UK), onde havia trabalhado por cerca de dez anos, e foi viver em Xangai, na China. Deu então uma guinada política à direita envolvendo-se com a emergência do neorreacionarismo norte-americano. Escreveu um livro intitulado The Dark Enlightenment (2012) e se tornou uma espécie de mentor de Steve Bannon, o estrategista político de Donald Trump.

Nos últimos anos, passou a ganhar prestígio também junto ao empresariado do Vale do Silício. Tornou-se um dos filósofos mais controvertidos da atualidade. Recentemente, Land esteve em San Francisco, na Califórnia, para uma série de visitas a empresas de tecnologia, reuniões com empresários e aparições junto a influenciadores digitais. Recebeu atenção em alguns dos principais veículos de comunicação dos EUA. Nesta entrevista, ficamos sabendo quem é Nick Land e quais os aspectos centrais de seu pensamento [Texto enviado pelo entrevistado].

Reprodução da capa de O Exterminador do Futuro. Mídia, horror e política em Nick Land (Foto: Divulgação/Zouk)

Confira a entrevista.

IHU – Nick Land é um autor, para dizer o mínimo, controverso. Parte da ultradireita global o considera como um guru, especialmente Steve Bannon, marqueteiro de Donald Trump. Sua leitura sobre o autor, no entanto, debruça-se no que poderíamos chamar de potência criativa-destrutiva de seu pensamento. Quem é Nick Land e como seu pensamento contribui para pensarmos os dilemas contemporâneos?

Fabrício Silveira – Vamos lá. Eu disse, no início de agosto de 2025, numa fala que fiz no lançamento do livro, que Nick Land, seria uma espécie de “Olavo de Carvalho de Donald Trump”. Obviamente, era uma brincadeira. E é impreciso. Se não ouvirmos com atenção, é algo que pode induzir a simplismos e muitas incompreensões. Quase me arrependi de ter dito aquilo. Nick Land é um filósofo inglês que desponta ao início dos anos 1990, com cerca de trinta anos, como crítico do racionalismo kantiano, leitor muito particular de Heidegger e como parte de uma primeira geração de filósofos ingleses influenciados por Gilles Deleuze e Félix Guattari. Num primeiro momento, portanto, ele opera no interior da tradição do marxismo lido na França de Maio de 1968. Essa tradição francesa — que é a tradição de um marxismo “espetaculoísta”, que é também a tradição de um certo pós-modernismo — passa a ser atualizada, por ele, na Inglaterra pós-Margaret Thatcher, vivendo as expectativas do fim do século passado, as “tensões pré-milênio”, como, por exemplo, a suspeita do bug do milênio.

Ou seja: é com essas matrizes formativas — tendo se formado durante os anos Thatcher — que ele irá enfrentar o seu próprio mundo, os anos de consolidação de um tipo novo de capitalismo cognitivo, tecnoinformacional, com o surgimento das culturas de redes sociais, sociedades de hipercontrole e mesmo os prenúncios dos sistemas de inteligência artificial. Ainda que essas noções todas não estivessem disponíveis — tal como estão hoje para nós. De todo modo, o desenho de sociedade que temos hoje (isto é: uma sociedade hiperconectada, virtualizada, rentista, paranoica, violenta, refém de novos autoritarismos, etc) é apreendido por ele, desde o início, no momento em que mal começava a se configurar.

No livro, eu chego a sugerir que Land seria um tipo de “filósofo das mídias”. Essa definição, no entanto, não é chancelada entre meus pares da área da Comunicação. Até mesmo porque Land é ainda muito pouco estudado na Comunicação. Pouca gente o conhece. A caracterização que dei aqui, de resto, abrange o primeiro período, a primeira fase da produção de Land, com um certo auge na segunda metade da década de 1990 e início dos anos 2000.

Depois disso, depois de um período de ostracismo e crise pessoal, desligado da universidade em que havia trabalhado, a Universidade de Warwick (UK), Nick Land reaparece vivendo em Xangai, na China, atuando como uma espécie de blogueiro e jornalista freelancer. Essa é a fase de sua interação com o movimento neorreacionário e as direitas alternativas norte-americanas. E o que demarca isso é a publicação, por volta de 2012, de um livro chamado Iluminismo Sombrio. Diz-se — com alguma imprecisão — que esse livro teria ajudado a pavimentar o caminho de Donald Trump, produzindo uma espécie de chancela filosófica e conceitual para o trumpismo.

Há então dois Nick Lands: o Nick Land pré-anos 2000 — esse é o Nick Land aceleracionista, vivendo na Inglaterra; e o Nick Land pós-anos 2000 — esse é o Nick Land neorreacionário, vivendo na China.

Outra coisa que vale dizer também é a seguinte: alguns dos principais movimentos filosóficos dos últimos vinte anos, como o realismo especulativo, a chamada ontologia orientada a objetos, os novos materialismos, a discussão hoje bastante alardeada de Mark Fisher sobre realismo capitalista, cruzaram, em algum momento, em alguma medida, com o pensamento de Land.

Por tudo isso, por estar no “olho do furacão”, por ter desenvolvido uma trajetória, a princípio, errática, da Inglaterra à China, pela ênfase que dá às questões de tecnologia, política e modelagem social, por atuar também por fora do mundo das universidades — Land é um blogueiro, não se pode esquecer —, e por ser descrito, tantas vezes, como alguém capaz de “vislumbrar o futuro”, me parece importante acompanhá-lo. Gostemos ou não dele, independentemente de suas posições políticas, Land é um sujeito que ajuda a nos prepararmos para o futuro. E é bom que estejamos preparados. Porque, talvez, de fato, o futuro não venha a ser nada do que gostaríamos.

IHU – O que é o “aceleracionismo” e como [essa doutrina] nos ajuda a compreender o mundo em que vivemos?

Fabrício Silveira – Land é tido como um dos “pais fundadores” do chamado “aceleracionismo”. Mas vamos com muita calma aí. Vamos por partes. Muita gente, nos últimos anos, tem discutido ou tem se questionado sobre a escassez de tempo, a ausência de tempo disponível, a aceleração de todos os fluxos e processos sociais (no trabalho, no cotidiano, na vida familiar, na experiência urbana, nas práticas de ensino). Tudo isso decorrendo, em grande parte, da intromissão progressiva e inarredável da tecnologia em todos os âmbitos de nossa existência. Essa é uma verdade de senso comum, me parece. A Modernidade, aliás, parece ter numa suposta aceleração — numa sobrecarga informacional — um de seus signos mais emblemáticos. Há, portanto, um certo aceleracionismo difuso, inespecífico, genérico, com o qual diversos autores contribuem, a partir de distintas disciplinas. É um tipo de discussão que se presta inclusive à intervenção dos profissionais de auto-ajuda, palestrantes motivacionais, coachs, influenciadores e outros aventureiros autoindicados da Internet…

Land não tem quase nada a ver com isso. (Risos…) Land é um dos pais fundadores de um aceleracionismo específico, que é desenvolvido por um grupo de jovens filósofos colocados sob sua orientação e sob a orientação de Sadie Plant, outra filósofa inglesa importante, que trabalhou junto com ele, na metade da década de 1990. O princípio básico — muito debatido e muito desenvolvido, posteriormente — é o de que os fluxos do capital precisam ser acelerados, sem dó, pois essa é a única forma viável de fazer o sistema produtivo colapsar, permitindo então a emergência de uma outra forma de organização social mais estável, mais justa e equilibrada. Nessa compreensão, o capital é inerentemente autodestrutivo. E, sendo assim, quer sempre pilhar, desprezando agentes reguladores externos. Nele, haveria uma espécie de niilismo intrínseco. O que de melhor a dita esquerda poderia fazer é trabalhar em prol dessa aceleração, desimpedindo fluxos, permitindo que o capital destrua a si próprio. Dito assim, parece simples.

Mas há um grande debate sobre o assunto. Há textos marxistas que são trazidos à frente, de modo a fundamentar tais ideais. Land atuou como um dos principais sistematizadores dessa discussão. Há um livro publicado em 2014 que compila esses debates, reunindo pesquisadores atuais e outros filósofos ou escritores — o próprio Marx está entre eles — que, muito anteriormente, já haviam circulado por essas compreensões. E esse é o aceleracionismo estrito ao qual Land pode ser identificado.

Uma aceleração específica

E essa aceleração não é uma aceleração empírica — como é a aceleração daquele cara que tem orgulho de dormir cada vez menos para trabalhar cada vez mais, para se tornar cada vez mais “competitivo”; ou daquele outro cara que se acostumou a assistir vídeos no YouTube em velocidade mais rápida, para poder, assim, assistir vídeos em maior quantidade, supondo que está se informando melhor; ou daquele cara que quer emagrecer rapidamente, à base de injeções ou dietas malucas; ou daquele cara que não consegue ler um livro inteiro ou escutar, na íntegra, um álbum do artista de sua predileção, seja porque não consegue se concentrar, seja porque a quantidade de estímulos que o bombardeiam é tanta que ele acaba sempre jogado de uma coisa a outra, sem fixar-se em nada, sem reter ou concluir nada, seja porque o próprio conceito de “álbum” é algo hoje inimaginável. Nada disso. A aceleração, aqui, é um ângulo ou uma suposição macroteórica, abstrata, que obriga a pensar a natureza, as consequências e as múltiplas implicações de um dado modelo de organização social. A aceleração, aqui, pode ser uma factualidade, claro. Mas é, sobretudo — e fundamentalmente —, um ângulo de problematização, uma categoria heurística, uma chave-interpretativa.

Multiplicidade de aceleracionismos

Hoje esse debate ainda está se desdobrando. Para alguns, o aceleracionismo é tido como uma estética, como foram as vanguardas artísticas no início do século passado, como o futurismo italiano, por exemplo, com sua faceta autoritária, seu fascínio desmedido pela técnica, sua idealização do progresso. Para outros, o aceleracionismo pode ser capturado e medido (ou comedido) pela esquerda, com as pautas da renda universal mínima, do comunismo de luxo, da redução da jornada de trabalho. Para outros, o aceleracionismo é essencialmente de direita, pró-capital, pró-tecnologia, pró-centralização de decisões políticas. Mas já se fala também em aceleracionismo “fofo" (ou cute), um tipo de aceleracionismo queer, de hiperconsumo, de hiperexposição corporal, de hiperexploração das identidades de gênero, de imersão no universo dos games, do entretenimento asiático, da zoação no X (ex-Twitter). No bojo dessas inúmeras novas vertentes, Nick Land se apresenta como um “aceleracionista incondicional”. Fala-se ainda em “aceleracionismo negro” (blackacc.). Fala-se em “desaceleracionismo”: a necessidade de buscarmos contrafluxos ou de reduzirmos a velocidade da vida em geral.

Ou seja: os rótulos e as correntes internas proliferaram e ainda estão proliferando, num sinal de que esse debate ainda rende. E ainda irá render. No final do ano passado, na Espanha, saiu um volume intitulado Maximum Overdrive, que sistematiza algumas dessas atualizações, dadas em torno da discussão plantada por Land a partir da primeira metade dos anos 1990. Tanto o rótulo, quanto o tema em si, bem como as variações de “escola”, de foco e de pensamento teóricos, me parecem constituir uma das facetas (ou uma das traduções) mais reveladoras de nossa contemporaneidade. Acho que foi Mark Fisher quem disse isso: que todos somos, hoje, aceleracionistas. Acho que é por aí.

IHU – De que forma o aceleracionismo acaba trazendo uma espécie de síntese ou simbiose entre especulação filosófica e a imaginação literária? Quais são as possibilidades e os limites desta relação?

Fabrício Silveira – Um dos principais conceitos debatidos dentro do aceleracionismo landiano, enquanto um sistema de pensamento mais ou menos coerente, é o conceito de “hiperstição”. Isso refere ao trabalho do imaginário, ao trabalho generalizado da "ficcionalização". Refere-se à nossa capacidade semiótica não só de representarmos a realidade, mas também de produzirmos a realidade a partir da colocação em circulação de discursos ficcionais que, acumulados, na medida em que transitam, na medida em que são introjetados e naturalizados, produzem a realidade à qual se referem. É um desdobramento da ideia de simulacro e simulações, dos anos 1980, desenvolvida pelo filósofo francês Jean Baudrillard.

Baudrillard falava também em “hiperrealidade”, um termo correlato. Baudrillard dizia que os signos haviam adquirido preponderância sobre a realidade, haviam se tornado mais reais do que a própria realidade. Era algo assim. Tornou-se muito debatida sua hipótese de que a Guerra do Golfo não teria existido, pois teria sido, fundamentalmente, antes de tudo, uma guerra feita para as câmeras de televisão. Haveria nela uma dimensão cênica determinante. Uma hiperstição é um desdobramento disso. Talvez seja um desdobramento radicalizado, meio invertido. Alega-se que certas ideias oriundas da ficção teriam uma propensão a se tornarem reais, de fato.

Os exemplos são vários: em 2001, quando liguei a televisão e assisti, ao vivo, desde o meu apartamento, o ataque das Torres Gêmeas, em Nova York, sem informações muito precisas durante alguns segundos, pensei que se tratava de um filme com Bruce Willis, um dos tantos exemplares do cinema-catástrofe, com Nova York sendo invadida, com os quais eu já estava acostumado, graças aos lançamentos do cinema hollywoodiano nos anos anteriores.

Hiperstição

Uma “hiperstição" é um pouco isso: a sensação, a prática ou os textos de antecipação/produção da realidade pela ficção. A própria Internet é um produto hipersticional, que surge primeiro na literatura cyberpunk e, depois, se torna viável na realidade. O filme Guerra Civil, com Wagner Moura, por exemplo, serve bem para explicar. É um filme de ficção que hoje pode ser visto como um documentário jornalístico, um retrato fiel do que tem se passado nos EUA. E outro: se hoje podemos ver o filme De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick, com Tom Cruise e Nicole Kidman, e enxergar nele a antecipação dos cenários e das atividades relatadas nos arquivos do caso Epstein, é porque há nele um elemento hipersticional. É porque o filme guarda uma potência hipersticional, digamos. Ou pode ser visto assim. Cabendo ao analista ressaltar essa dimensão.

Exemplos há vários. São infindáveis. Toda hora nos deparemos com eventos e personagens que parecem expulsos da ficção. E o capital trabalha muito através de hiperstições: os rumores de que certas ações na bolsa de valores irão cair provocam a queda dessas ações. Uma hiperstição não é um superstição. Não é uma crendice. É uma ação deliberada no futuro, uma ação especulativa dotada da capacidade de agência, isto é, da capacidade de produzir a realidade sobre a qual está falando. Uma hiperstição é uma cadeia de retroalimentação entre ficção e realidade. Pensar hiperstições é formular uma “ciência experimental das profecias auto-cumpridas", alguém disse algo muito parecido com isso. É o meme que vira realidade. Ou a realidade que se parece com um meme. Discutir sobre hiperstições é discutir sobre as fronteiras cada vez mais tênues entre fato representado e fato construído.

Dei um curso rápido sobre o tema no final de 2023 e citei o chamado caso “PizzaGate”, ocorrido nos EUA, por volta de 2016: em fóruns digitais, circulavam rumores de que uma seita satânica, ligada a Hillary Clinton, fazia coisas horríveis com crianças no subsolo de uma dada pizzaria; impressionado com o que se dizia, um sujeito atravessa o país inteiro, de carro, sozinho, para resolver, ao seu modo, o problema; ele invade a pizzaria e abre fogo, felizmente não houve feridos; e só então, depois que vai preso, depois de apurado o ocorrido, ele se dá conta de que nada daquilo que ele tomou como motivação era realidade factual. E depois de tudo, ainda por cima — para piorar a situação toda, para ficarmos nauseados, pegos numa vertigem —, foi produzido um filme de ficção inspirado naqueles “fatos reais”.

Ou seja: uma hiperstição não é uma mentira, exatamente. Nem é qualquer invenção literária ou ficcional. É uma invenção ficcional capaz de tornar-se realidade. São ficções que interagem com o mundo de determinado modo. É um circuito autopoético. A dimensão encantatória da linguagem, feitiçarias, mentiras políticas repetidas, fake news, maldições lançadas em alguém e previsões econômicas podem ser pensadas a partir de uma ciência geral das hiperstições. E isso tudo faz ainda mais sentido num momento histórico em que própria ciência reivindica a absorção da imaginação como instrumento heurístico. A própria ciência vem se tornando, hoje, cada vez mais ficcionalizada, mais aberta à fabulação. Ou seja: é um assunto quentíssimo, extremamente relevante na cultura semiótica de nosso presente.

IHU – Do que se trata o “Iluminismo Sombrio” (The Dark Enlightenment) de Nick Land?

Fabrício Silveira – O Iluminismo Sombrio é uma doutrina política, uma espécie de teologia política, uma tentativa de elaboração de uma nova teoria do Estado. É uma mistura disso tudo. Land o desenvolveu em suas conversas virtuais, sobretudo, com o blogueiro norte-americano Curtis Yarvin. No ano passado, aliás, Yarvin esteve no Brasil, em São Paulo, numa convenção organizada pelo Movimento Brasil Livre - MBL para o lançamento do partido Missão. O livro de referência, aqui, é o livro The Dark Enlightenment, de autoria de Land, publicado em 2012. O livro ataca os pontos cegos dos ideais Iluministas, criticando o que chama de falso universalismo das sociedades modernas, ocidentais e democráticas. É como se esses ideais tivessem se esgotado ou tivessem se pervertido.

No momento histórico em que vivemos, Land diz algo semelhante, eles estariam produzindo novas tiranias mascaradas. Afirma-se literalmente que capitalismo de mercado e democracias liberais se tornaram incompatíveis. E não garantem mais nem bem-estar, nem liberdade real de ninguém. No meu livro, há um capítulo inteiro sobre esse tópico. É algo que me chama a atenção. É um tipo de delírio ou utopia neorreacionária. Land imagina um mundo onde teríamos milhares de Cidades-Nação governadas por empresas privadas. Tais empresas seriam conduzidas, por sua vez, por CEOs formados nas melhores universidades do mundo e armados até os dentes de todos os artefatos hipertecnológicos disponíveis e dos sistemas de inteligência artificial mais avançados que existem.

Em síntese, o que Land propõe é a substituição da democracia representativa — que ele entende através da metáfora de uma “catraca degenerativa” — por uma plataforma de governança automática, independente das demandas de sujeitos situados. O que definiria a alocação de recursos, por exemplo, não seriam os interesses subjetivos, os interesses de grupos ou a necessidade de composição e do “toma-lá-dá-cá” do jogo político, mas o funcionamento mecânico de um programa, ajustado a um projeto de equilíbrio sistêmico previamente definido. O CEO seria uma espécie de executivo, um super-operador, responsável pelo funcionamento otimizado daquela máquina (ou daquela Cidade-Nação). O “Estado” seria essa empresa com a obrigação de dar lucro e atender da melhor maneira possível seus cidadãos enquanto clientes em ato, clientes que, quando desgostosos, podem sair dali livremente em busca de outras empresas — isto é: uma outra Cidade-Nação que possa atender melhor seus interesses.

É uma política sem deliberação política. O estado é enxugado e automatizado ao máximo. O sujeito deixa de ter voz, como nos regimes democráticos, e passa a ter saída. Voice and Exit, Voz e Saída, aqui dentro, são conceitos importantes. Outro conceito importante é o conceito de “Catedral”. A Catedral é o senso comum ilustrado, o politicamente correto — o sistema ideológico representado, praticado e defendido pelas universidades, pelas grandes empresas de comunicação, pelas mídias de massa, pelos operadores do direito e pela camada de técnicos e burocratas dos governos democráticos. Land é um crítico feroz da Catedral.

Ou seja: o Iluminismo Sombrio formula a hipótese (ou, como ele diz, a necessidade) de construirmos uma volta à monarquia, um tipo novo de monarquia de caráter empresarial e tecnoindustrial. Não é à toa que esse desenho ideológico tenha despertado tanto interesse junto ao alto empresariado do Vale do Silício. As big techs gostariam de imprimir no mundo — eu suponho — o mesmo sistema gerencial no qual elas próprias foram aprendendo a funcionar, ao longo das décadas. E Land formula isso. Teríamos assim um "patchwork de Gov.Corps”. Quer dizer, acabaria o globalismo, acabaria a soberania das Nações, acabariam os organismos internacionais, acabaria o direito internacional. E o mundo se transformaria numa imensa colcha de retalhos com milhões de empresas funcionando com Cidades-Nação, regidas por CEOs que querem atender seus clientes para obter o maior lucro possível, em benefício da expansão e da consolidação territorial-regional da empresa que administram.

IHU – Em seus escritos você apresenta um interesse comunicacional na obra de Nick Land, muito embora ele próprio não seja um teórico da Comunicação. Como se dá essa aproximação e como seus textos ajudam a compreender não somente os processos midiáticos, mas o que se convencionou chamar de “cultura cibernética”?

Fabrício Silveira – Sim. Land, ele mesmo, não se entende ou não se identifica, em nenhum momento, ao menos até onde eu pude acompanhar, como um “filósofo da Comunicação”. Isso quem faz sou eu. Embora não seja fruto de uma tese, meu livro desenvolve uma certa tese, que está ali escamoteada, exposta de modo mais ou menos sutil e indireto, de modo muito contido. Parece-me que existem, examinando-se a obra do autor, muitos indícios de que a filosofia de Land é uma filosofia orientada para a mídia.

Primeiro, o papel chave das tecnologias como ambientação do social, atreladas indissoluvelmente ao social. Daí, para deslizarmos para as mídias é um passo. Há conceitos que também me remetem diretamente a problemas comunicacionais: o de hiperstição é só um deles. A própria noção de “desejo maquínico”, dependendo do modo como me aproprio dela, também pode remeter à dimensão libidinal associada aos objetos em geral e aos objetos tecnológicos e midiáticos em particular. Land tem um apreço especial pelo cinema de ficção científica e pela literatura de horror. E esses são gêneros muito comunicacionais. Land escrevia em blogs e ainda escreve em blogs. Isso faz com que sua filosofia adeque-se a esse formato, até mesmo em termos de linguagem, no tom provocativo, polemista, no uso de aforismos, textos curtos. Isso também lhe dá uma dimensão comunicacional-midiática. Os textos de Land são povoados por agentes não-humanos. Meu livro vai pontuando tudo isso, aqui e ali. O que resulta, em minha avaliação, é, sim, uma pertinência comunicacional.

Um pensador da Comunicação

É claro que isso é também uma estratégia minha, uma particularidade de minha leitura, fazendo com que um filósofo soe menos amedrontador a ponto de ser tratado por um comunicólogo. Uma das matrizes do pensamento de Land é a teoria cibernética — com noções como de feedback, retroalimentações ciberpositivas. É um pensamento de sistemas e redes. Há diversas discussões feitas por Land — sobre produção de hype, sobre contágios virais, sobre hibridismos entre ficção e realidade, sobre projeção de imagens no futuro, de desconexões espaço-temporais —, enfim, que me parecem questões comunicacionais muito evidentes.

No entanto, o autor é muito pouco tratado em minha área. Talvez porque sua má fama, produzida em razão de sua associação a Steve Bannon, Peter Thiel e Curtis Yarvin/Mencious Moldbug, tenha criado em torno dele uma barreira, uma certa aversão prévia. Talvez porque as atenções, até este momento, foram dirigidas para Mark Fisher, que foi seu aluno. Talvez porque a hipótese da Catedral, em alguma medida, faça sentido. Talvez porque seja mesmo um autor mais difícil e pouco palatável. Talvez porque seja um filósofo, simplesmente. E a área da Comunicação, como sabemos, é uma ciência social aplicada, com pouca paciência para lidar com formulações como essas.

Land, enfim, se tornou um autor ao qual as pessoas não querem ser associadas. Muito embora, como estamos vendo, essas coisas que ele tem dito tenham se desdobrado de modo muito efetivo. Pessoalmente, não me importo muito se ele é ou não é um “filósofo das mídias”. Para o benefício de minha leitura e de meu aprendizado, blindo-me um pouco em relação à má fama pública do autor. Importo-me com aquilo que posso fazer com ele para produzir uma compreensão nova e mais aguda — no mínimo, mais instigante — sobre a ação das mídias no mundo de hoje.

IHU – Mark Fisher dizia que “Land é o tipo de antagonista que a esquerda precisa”. Por quê? Que evidências indicam esta pertinência?

Fabrício Silveira – Esse é um ponto importante. Fisher foi aluno de Land. É quase impossível ler a obra de um deles sem encontrar a presença do outro. Em Land, não me recordo direito, Fisher não é explicitamente citado. Fisher, de sua parte, escreveu sobre Land diretamente, citando-o de maneira aberta. Há pelo menos um artigo de Fisher que é bastante elucidativo no que toca a essa relação de aproximação-distanciamento, entre professor e aluno. O título do artigo de Fisher é: “O Exterminador do Futuro x Avatar”. É ali que se encontra a frase que vem embutida na sua pergunta. Dia desses, há pouco mais de um mês, uma importante revista de circulação nacional se referiu a esse texto. E a manchete utilizada dizia que se tratava do artigo em que Fisher havia “destruído” Nick Land. Achei engraçado. Não é o tipo mais indicado de chamada a fazer caso se pretenda realmente esclarecer coisas que são, por definição, complexas, cheias de nuances e paroxismos.

Acredito que nem o próprio Fisher concordaria com aquela síntese. Primeiro, porque o saldo final do texto de Fisher — como me lembro dele agora — é elogioso, e isso não o impede de ser crítico. Segundo, porque não estamos diante de um jogo de perde-ganha. Não se pode entrar num debate intelectual como quem entra num estádio de futebol. Não se trata de ver quem sobrevive e quem será destruído. E apresentar as coisas assim, desse modo, além de parecer servir apenas para caçar likes e acirrar paixões, é confirmar a posição de Land, de que as estruturas de rede e o binarismo da lógica de programação (zeros e uns) infectam o desejo e a capacidade humana de discernimento.

E o cerne da discussão é justamente esse: Fisher reconhece que Land foi cirúrgico ao descrever a operação do tecnocapital no âmago do desejo e que a esquerda tem dificuldades de fazer o debate onde Land se colocou, colado ao funcionamento da máquina, colando-se naquilo que ela é, e não naquilo que um ideal de Humanidade nos faz esperar que ela venha a ser (ou possa ser). É como se Land estivesse dizendo: “as máquinas são de direita, meus amigos; elas discriminam, contabilizam, quantificam, monetizam, viciam, excitam, enganam, estigmatizam e roubam tempo ao convívio social nos moldes da presença física tangível; não há mais nada o que se possa fazer; toda e qualquer iniciativa de esquerda não irá passar de mero reparo e tentativa frustrada de contenção, o que só colabora para que não possamos trocar de fase, para que o progresso continue travado, a história congelada, e para que as tecnologias não se desenvolvam conforme seu máximo potencial, ainda que isso tudo possa parecer assustador”.

Mark Fisher é o lastro do Humanismo que Nick Land já abandonou. Se não formos capazes de imaginar uma nova esquerda sem os valores e as grandes pautas do Humanismo Nick Land não terá sido destruído. Uma alternativa a isso seria imaginar arranjos e infraestruturas tecnoinformacionais que fossem afirmativamente de esquerda e capazes de disputar o desejo lá onde se instalaram os apelos do neoliberalismo ultratecnológico, à moda do Vale do Silício. O que não deixa de ser uma opção difícil de sustentar.

Acredito que a frase de Mark Fisher, sobre a qual você me pergunta, aponta para um nível de exigência do qual as esquerdas abriram mão, pressionadas pela urgência dos calendários eleitorais, pelo apagamento constante de “incêndios” de todo tipo (“boiadas passando”, “fogo amigo”, rachaduras internas, alianças de risco), pelos terremotos do mundo de trabalho e pela disputa quase corpo a corpo com os fascismos e os populismos que avançam.

Acho que essas são boas questões para concluirmos: 1) existe uma esquerda viável fora da Catedral?; 2) existe uma esquerda viável sem resquícios do Humanismo?; 3) existem plataformas e estruturas midiáticas que possam recapturar o desejo coletivo e canalizá-lo para outros lados, para outros feitos — em outras palavras: existem aparelhos celulares e computadores de esquerda? Pensar sobre essas questões e sobre os nexos que se dão entre elas, reformulá-las, pensar sobre os pressupostos que as tornam cabíveis, neste momento, pode ser um bom exercício. E Land nos ajuda nisso, não há dúvida. Mas como fazê-lo? É prudente dar ouvidos ao Diabo, tentar conversar com ele?

IHU – Como é sua relação com o grupo “Aceleracionismo Amazônico”, em Belém – PA? E como suas pesquisas e interesses confluem com as discussões do grupo?

Fabrício Silveira – Tomei conhecimento do grupo a partir dos retornos que recebi por ocasião do lançamento do livro sobre Nick Land (O Exterminador do Futuro. Mídia, horror e política em Nick Land, publicado pela editora Zouk, de Porto Alegre). Desde então, tenho acompanhado, como posso, e quando posso, o que têm produzido. Temos trocado textos e materiais diversos. Fizemos alguns contatos. E fico, de fato, muito curioso para acompanhar mais, e mais de perto, para ver como avançam, o que conseguem explorar, a partir da Filosofia e do Direito, em tensão com os saberes amazônicos, desde Belém, tendo a floresta como pano de fundo. O que dá sentido a um livro são esses vínculos que ele propicia, é o estabelecimento de grupos e novas frentes de trabalho e interesses comuns.

E os aceleracionismos estão aí para que possamos travar com eles os nossos embates, para que possamos pensá-los a partir dos lugares que ocupamos no mundo, fazendo de nossa existência um período mais fluído e menos desastroso. Enquanto ainda tivermos tempo.

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