Contra a ascensão da extrema-direita e a agressão imperialista. Artigo de Éric Toussaint

Foto: Mika Baumeister/Unsplash

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27 Março 2026

Porto Alegre, Brasil, sediará a Primeira Conferência sobre a Soberania dos Povos. Espera-se a presença de milhares de pessoas de mais de 70 países. A organização Ação Contra o Ódio estará presente.

O artigo é de Éric Toussaint, publicado por CTXT, 26-03-2026.

Eric Toussaint é um historiador belga e porta-voz do Comitê para a Abolição da Dívida Ilegítima, anteriormente conhecido como Comitê para o Cancelamento da Dívida do Terceiro Mundo, que ele ajudou a fundar. Historiador de formação, possui doutorado em ciência política pela Universidade de Liège e pela Universidade Paris 8.

Eis o artigo.

Unir as forças de esquerda em todo o mundo para confrontar a ascensão da extrema-direita — e as guerras imperialistas — é o objetivo da Primeira Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que será realizada em Porto Alegre de 26 a 29 de março [na qual a Ação Contra o Ódio participa]. Espera-se a presença de milhares de pessoas de mais de 70 países.

O evento será inaugurado com uma grande manifestação nas ruas do Rio Grande do Sul, capital do estado. Ao longo de três dias, serão realizadas onze sessões plenárias temáticas e 150 atividades auto-organizadas. Os debates se concentrarão no fortalecimento dos movimentos sociais, ecofeministas e trabalhistas, bem como na solidariedade internacional na luta contra o fascismo, além das possibilidades e limitações da ação institucional. A solidariedade com Gaza, as lutas contra a negação das mudanças climáticas e pela reforma agrária, e a situação nas Américas serão outros temas centrais. Ao derrotar Jair Bolsonaro em 2022, a esquerda brasileira demonstrou que é possível conter a ameaça neofascista: partidos políticos – do PT de Lula ao PSOL de extrema-esquerda, incluindo o PC – movimentos populares e sindicatos superaram suas diferenças para garantir a vitória de Lula. Esses atores fazem parte do comitê unificado que organiza a conferência.

Embora a maioria dos palestrantes venha das Américas, Porto Alegre — berço do Fórum Social Mundial em 2001 e de um dos principais movimentos sociais da América Latina, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na década de 1980 — receberá uma ampla gama de organizações e movimentos. Mais de 1.800 figuras proeminentes e ativistas dos cinco continentes assinaram o apelo internacional lançado pela CADTM para convidar pessoas para a conferência. Entre eles, destacam-se: líderes de organizações populares e políticas da América Latina, incluindo o líder do MST, João Pedro Stédile; as escritoras e ativistas feministas Nancy Fraser e Tithi Bhattacharya; Paco Ignacio Taibo II, escritor e diretor do Fondo de Cultura Económica (Fundo de Cultura Econômica); Frei Betto, escritor brasileiro e figura proeminente da teologia da libertação; a eurodeputada Rima Hassan (La France Insoumise); e Thiago Ávila, participantes da Flotilha Global Sumud por Gaza. Éric Toussaint, porta-voz da rede global do Comitê para a Abolição da Dívida Ilegítima (CADTM); Ada Colau, ex-prefeita de Barcelona; Annie Ernaux, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2022; o ex-líder do Partido Trabalhista britânico, Jeremy Corbyn; o líder do La France Insoumise, Jean-Luc Mélenchon, juntamente com parlamentares italianos, espanhóis, escandinavos, alemães e turcos, e toda a liderança dos Socialistas Democráticos das Américas (DSA), que inclui Zohran Mamdani, o novo prefeito de Nova York.

Também assinaram o documento Yanis Varoufakis, fundador da Internacional Progressista; Zoe Konstantopoulou (ex-presidente do Parlamento grego em 2015); Manon Aubry (LFI); Olivier Besancenot (NPA); e Raymonde Ponce (senadora do Partido Verde). Denis Robert, fundador do veículo de mídia alternativa francês Blast, e muitos outros. Centenas de líderes políticos e sociais argentinos assinaram o apelo, e foi estabelecida uma coordenação entre diferentes organizações na Argentina para apoiar a conferência de Porto Alegre e enviar uma delegação unificada de mais de 120 pessoas.

Do Estado espanhol, a conferência é apoiada por deputados do Podemos, Sumar, Bloque Nacionalista Galego (BNG), Adelante Andalucía, EH Bildu, Comuns, Compromís, líderes sindicais da ELA, LAB, CIG, Intersindical Valencia, e movimentos políticos como CUP e Anticapitalistas.

Neofascista Internacional

Formou-se uma espécie de internacional neofascista, impulsionada principalmente pelos Estados Unidos sob Donald Trump, e a extrema-direita ameaça chegar ao poder na maioria dos estados europeus; a Índia é liderada por um hindu radical e islamofóbico, Narendra Modi, enquanto em Israel, o governo neofascista de Benjamin Netanyahu perpetra um genocídio em Gaza há mais de dois anos e meio.

Na América Latina, a eleição de Javier Milei em novembro de 2023 foi seguida pela de Juan Antonio Kast no Chile, em 2025. Enquanto isso, o presidente do Equador, Daniel Noboa, está modelando suas políticas segundo o regime autoritário de Nayib Bukele em El Salvador. A extrema-direita fará todo o possível para vencer as eleições presidenciais deste outono no Brasil contra Lula, com o apoio de uma rede internacional. Se tiverem sucesso, isso terá repercussões terríveis em todo o continente, que sofreu ditaduras brutais durante o século passado. Nesse contexto, a comemoração massiva do quinquagésimo aniversário do golpe de 24 de março de 1976 será uma preparação vital para a conferência de Porto Alegre, que começará dois dias depois, em 26 de março de 2026.

A extrema-direita europeia está agora integrada em espaços transnacionais de coordenação política diretamente ligados ao trumpismo. O principal ponto de convergência é a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), o maior encontro anual da extrema-direita americana, que se tornou cada vez mais internacional. Desde o início da década de 2020, líderes e membros do AfD, Vox, Reunião Nacional, Fidesz, Irmãos da Itália, Chega, Vlaams Belang e da AUR romena participam regularmente, juntamente com Donald Trump, seus associados (Steve Bannon, JD Vance e Mike Flynn) e líderes da extrema-direita latino-americana. A CPAC funciona como uma plataforma ideológica global onde os temas centrais do trumpismo são disseminados e harmonizados: guerra civilizacional, rejeição do multilateralismo, hostilidade à UE, obsessão com a imigração, ataques aos direitos das mulheres e das minorias, ceticismo climático e criminalização da esquerda e dos movimentos sociais.

Essa internacionalização foi ainda mais reforçada pela participação ativa de Javier Milei, presidente da Argentina, Jair Bolsonaro e suas redes, bem como José Antonio Kast, líder da extrema-direita chilena e recém-eleito presidente do Chile. Trump apresenta sistematicamente essas figuras latino-americanas como modelos de “resistência ao socialismo” e restauração da ordem autoritária. As reuniões da CPAC realizadas fora dos Estados Unidos (Brasil, México, Argentina e Hungria) confirmam a existência de um eixo transatlântico e transcontinental que conecta Washington a certas capitais europeias e à América Latina reacionária. Não se tratam de meras trocas simbólicas: esses espaços facilitam a circulação de financiamento, estratégias eleitorais, técnicas de comunicação digital e métodos de polarização social inspirados pelo movimento MAGA.

Juntamente com a CPAC, o partido Vox desempenha um papel central na Espanha na estruturação dessa rede internacional, particularmente por meio do Foro Madrid, criado em 2020. Apresentado como uma alternativa “patriótica” aos fóruns progressistas internacionais, o Foro Madrid reúne partidos e líderes de extrema-direita da Europa e da América Latina, incluindo Milei, Bolsonaro, Kast, representantes da RN, Chega, Fratelli d'Italia e partidos da Europa Central.

As iniciativas do Foro Madrid e do Vox servem como uma ponte entre o trumpismo, a extrema-direita europeia e a extrema-direita latino-americana, articulando um discurso explicitamente oposto à esquerda, ao feminismo, à ecologia, aos direitos humanos e a qualquer forma de soberania popular que não seja autoritária. Embora seja uma justaposição de forças nacionais, a extrema-direita aparece como um bloco ideológico internacional do qual Donald Trump é atualmente o principal polo político, midiático e simbólico.

Agressões imperialistas

Em janeiro de 2026, após lançar um ataque militar contra a Venezuela e sequestrar o presidente venezuelano e sua esposa, Trump ameaçou Petro, dizendo que ele seria o próximo. Diversos veículos de comunicação noticiaram suas ameaças.

Desde agosto de 2025, as forças armadas dos EUA atacaram dezenas de embarcações em águas internacionais do Caribe e do Pacífico Oriental, ostensivamente em nome do combate ao narcotráfico. Os ocupantes — mais de 130 no total, entre 2 de setembro de 2025 e meados de fevereiro de 2026 — foram mortos sem que qualquer prova de culpa fosse divulgada e sem o menor processo legal.

Sob ordens de Trump, as forças armadas dos EUA não abordaram essas embarcações, mas as destruíram juntamente com seus ocupantes. Sem acusações, sem processos contraditórios, sem uma decisão judicial: uma única decisão de Trump foi suficiente para que suas forças armadas executassem supostos criminosos sem qualquer julgamento, cometendo, assim, crimes flagrantes.

Encorajado pelo sucesso de sua operação militar e diante de protestos internacionais oficiais muito fracos em comparação com a severidade de suas ações contra a Venezuela, Trump decidiu radicalizar significativamente a política que vem adotando contra Cuba desde seu primeiro mandato. A partir do final de janeiro de 2026, seu objetivo é paralisar completamente a economia da ilha, cortando, quase totalmente, o fornecimento de combustíveis essenciais para a produção de energia.

O “corolário Trump” da Doutrina Monroe marca, portanto, uma evolução significativa devido à sua natureza explícita e ao papel central que atribui às Forças Armadas. Enquanto administrações anteriores tendiam a priorizar mecanismos econômicos, diplomáticos ou clandestinos — desestabilização, treinamento e financiamento de mercenários e assassinatos não reivindicados —, a Estratégia de Segurança Nacional 2025 (ESN 2025) e a Estratégia de Defesa Nacional (EDN 2026) proclamam inequivocamente o uso das Forças Armadas como um instrumento padronizado de governança regional. A operação contra a Venezuela em janeiro de 2026 e as ameaças públicas dirigidas a outros governos — Cuba, Colômbia, México, Brasil e outros — ilustram esse compromisso com a intimidação estratégica. A isso, deve-se acrescentar, desde fevereiro de 2026, a agressão maciça contra o Irã, realizada em conjunto com Israel, e a agressão perpetrada por Israel contra o Líbano.

É necessária uma resposta da esquerda

À esquerda, a resposta luta para se internacionalizar. As forças que lutam contra o fascismo e a agressão imperialista são numerosas e diversas, e essas diferenças não devem ser apagadas. É essencial construir uma frente ampla, em escala global, contra inimigos cada vez mais ameaçadores. Essa convergência deve incluir todas as forças dispostas a defender a classe trabalhadora, o campesinato, os migrantes, as mulheres, as pessoas LGBTQIA+, as pessoas racializadas, as minorias oprimidas e os povos indígenas, ao mesmo tempo que defendem a natureza e apoiam as lutas contra o imperialismo.

 Éric Toussaint

A conferência de Porto Alegre tentará dar um primeiro passo em resposta a esse desafio. Posteriormente, será crucial implementar com sucesso iniciativas antifascistas e anti-imperialistas unificadas nas principais regiões do mundo: Europa, América do Norte, América Latina, África e Ásia.

Ainda é possível assinar o Apelo Internacional para fortalecer a ação antifascista e anti-imperialista clicando aqui.

Nota

A programação completa da 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos pode ser acessada clicando aqui.

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