25 Março 2026
“O problema na América Latina é a governança criminal, não o terrorismo. E a perspectiva antiterrorista não permite abordá-la porque invisibiliza as duas dinâmicas principais da governança criminal: sua relação simbiótica com o Estado e com o sistema econômico-financeiro. As bombas não resolvem essas questões e, por isso, quando a fumaça desaparece, a governança criminal permanece intacta”, escreve Manuel Tufró, diretor de Justiça e Segurança do Centro de Estudos Jurídicos e Sociais (CELS, em espanhol), em artigo publicado por Brecha, 20-03-2026. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.
A apresentação, em 7 de março, da iniciativa Escudo das Américas é um marco importante no relançamento da guerra contra as drogas na América Latina, agora promovida como a principal política dos Estados Unidos para a região.
O primeiro passo foi a declaração de diversas organizações criminosas como grupos terroristas, o que permite ao governo estadunidense habilitar recursos (inteligência militar) e atribuições (intervenções em países estrangeiros, maior discricionariedade e ausência de prestação de contas) que, no marco legal nacional, só estão disponíveis para o combate ao terrorismo.
Em seguida, veio o bombardeio a embarcações no Caribe e no Pacífico, envolvendo os militares estadunidenses em execuções extrajudiciais de cidadãos latino-americanos apresentados, sem qualquer evidência, como membros de organizações criminosas. Na sequência, a intervenção militar em Caracas, com o sequestro de Nicolás Maduro, apresentada como uma operação policial para capturar um líder do narcotráfico.
Nas semanas prévias e posteriores a esse evento, tornaram-se conhecidos dois documentos que sistematizam esta abordagem: as novas políticas de segurança nacional e de defesa dos Estados Unidos. Nelas, e depois de muito tempo, a América Latina volta a ocupar o centro dos interesses, mas pelas piores razões: é considerada explicitamente o “quintal” de Washington.
Agora, ao reunir os chefes militares de 12 países da região governados pela direita e a extrema-direita, os Estados Unidos conseguem envolver grande parte da população latino-americana em uma iniciativa que transforma a militarização da luta contra o crime organizado em política hemisférica. Isto implica relançar e fortalecer uma abordagem fracassada (a guerra contra as drogas), mas agora como plataforma de aliança e disciplinamento político regional.
Os indícios sugerem que interessa menos desarticular os mercados ilegais e as organizações criminosas do que alinhar a maior parte dos países da região para que aceitem de maneira submissa a “doutrina Donroe”, articulada em torno das ideias de ameaça do “narcoterrorismo” e de que o continente deve ser um espaço reservado para que os Estados Unidos consigam energia e minerais críticos. Estamos, assim, em uma fase em que há um risco elevado de transformar o “quintal” em uma zona de guerra.
A guerra contra as drogas foi a principal abordagem das políticas antidrogas na região, desde que Washington a promoveu a partir dos anos 1980, em grande parte como substituição e continuação da doutrina de segurança nacional dos anos anteriores, que culminaram em genocídios em diversos países. Esta abordagem levou à intervenção sistemática dos militares em problemáticas criminais, bem como a processos simultâneos de militarização das polícias, endurecimento penal e explosão carcerária. Provocou uma gravíssima escalada de violações dos direitos humanos, tanto por parte de organizações criminosas quanto do próprio Estado: aumento dos homicídios, desaparecimentos, deslocamentos forçados, detenções arbitrárias.
Ao mesmo tempo, gerou um crescimento e empoderamento das organizações criminosas, que se flexibilizaram, diversificaram e se armaram com muito mais recursos para enfrentar um cenário de “guerra”. Por isso, nos últimos 15 anos, muitas vozes críticas se ergueram, vindas da sociedade civil, dos sistemas internacionais de proteção e também de referências políticas da região, que começaram a exigir abordagens alternativas e mais complexas.
O “narcoterrorismo” como desculpa
Mais recentemente, testemunhamos um revival da guerra contra as drogas. Isto veio com a consolidação de governos de ultradireita e tentações autoritárias, que recorreram a uma velha categoria, a do narcoterrorismo, para buscar uma narrativa que recoloca no centro o enfoque bélico e, ao mesmo tempo, um conjunto de políticas de exceção que lhes permita escapar da prestação de contas. Essas políticas de exceção já estavam disponíveis globalmente desde 2001, após os ataques do 11 de setembro, e começaram a se espalhar na América Latina quando surgiu a oportunidade política, primeiro com a ascensão de governos de direita e agora porque os Estados Unidos elevam essa perspectiva ao nível de estratégia hemisférica.
O papel da América Latina em discutir a guerra contra as drogas fica agora fragilizado por uma brecha que também é geopolítica. Países como México, Colômbia e Brasil aplicaram e aplicam (com resultados muito ruins) suas próprias guerras contra as drogas, mas resistem ao marco antiterrorista porque estão cientes dos riscos que acarreta, devido ao seu uso como desculpa para a intervenção militar estrangeira. Países onde fenômenos terroristas são reconhecidos também se expõem a controles financeiros mais rigorosos e inclusive sanções.
Percebe-se que o destacamento militar continental não constitui um esforço sério para desarticular mercados ilegais e organizações criminosas. Os bombardeios a barcaças não bloqueiam as rotas do tráfico de drogas. Maduro foi capturado como suposto líder do “Cartel de los Soles”, uma organização criminosa que ou não existe ou permanece intacta.
Contudo, talvez o exemplo mais claro seja a decisão de Donald Trump em indultar o ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, cuja participação em esquemas de narcotráfico para os Estados Unidos está comprovada e que, por isso, tinha sido condenado naquele país. Hernández é um político alinhado à posição de Trump, o que levanta fortes suspeitas de que a “guerra contra o narcoterrorismo” seja uma forma de disciplinamento político, em vez de uma iniciativa séria contra as muito diversas organizações criminosas da região.
O disciplinamento como objetivo
Esse disciplinamento continental tem sua contrapartida no âmbito de cada país. Os países que adotaram com mais fervor a retórica e o marco antiterrorista para combater o crime organizado, como El Salvador, Equador, Argentina, Paraguai e Estados Unidos, são também os que já utilizam ou pretendem utilizar esse mesmo marco para criminalizar conflitos sociais e perseguir a dissidência política.
As organizações e os movimentos sociais comprometidos com a defesa da democracia e dos direitos humanos na região estão diante de dois desafios, com a complexidade adicional de terem de avançar em ambos ao mesmo tempo. Por um lado, organizarem-se, fortalecerem as redes e aproveitarem todas as oportunidades de incidência para desarticular a confusão deliberada entre crime organizado e terrorismo, dados os graves riscos que isso representa para a região. Isto deve acontecer, além do mais, em um contexto de forte enfraquecimento do multilateralismo, minado por iniciativas como este “Escudo das Américas”. Mas, além disso, devemos ser capazes de reformular e gerar respostas democráticas aos graves problemas de direitos humanos e aos novos desafios que as organizações criminosas representam na região.
O problema na América Latina é a governança criminal, não o terrorismo. E a perspectiva antiterrorista não permite abordá-la porque invisibiliza as duas dinâmicas principais da governança criminal: sua relação simbiótica com o Estado e com o sistema econômico-financeiro. As bombas não resolvem essas questões e, por isso, quando a fumaça desaparece, a governança criminal permanece intacta.
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