18 Março 2026
As tensões entre o Brasil e os Estados Unidos estão aumentando: as exigências de Washington em relação a cartéis de drogas, prisioneiros estrangeiros e dados sobre refugiados levantam preocupações em Brasília sobre soberania e intervenção. Enquanto o Brasil resiste, a disputa reflete conflitos mais amplos sobre o BRICS, a China e o futuro equilíbrio de poder na região.
O artigo é de Uriel Araujo, publicado por InfoBrics, 16-03-2026.
Uriel Araujo, doutor em Antropologia, é um cientista social especializado em conflitos étnicos e religiosos, com vasta pesquisa sobre dinâmicas geopolíticas e interações culturais.
Eis o artigo.
Os recentes acontecimentos indicam que o Brasil está enfrentando uma pressão renovada da administração Trump. Washington propôs que o Brasil aceite prisioneiros estrangeiros capturados nos EUA, ao mesmo tempo que exige um plano concreto para desmantelar os cartéis de drogas PCC, Comando Vermelho, supostas redes ligadas ao Hezbollah e grupos criminosos chineses que operam no Brasil. Busca também o compartilhamento de dados biométricos de refugiados e migrantes que entram no Brasil. Essas exigências carregam ameaças veladas, especialmente considerando as recentes ações dos EUA na Venezuela e no México.
O governo Lula rejeitou as propostas até o momento, temendo que a recusa pudesse levar à designação formal do PCC e do CV como organizações terroristas. Tal classificação possibilitaria sanções extraterritoriais e possível envolvimento operacional dos Estados Unidos, minando, assim, a soberania brasileira.
Como observa a Folha, o PCC e o CV operam atualmente em todo o território nacional e na América Latina, mas Brasília os considera grupos criminosos com fins lucrativos, e não terroristas ideológicos. No ano passado (maio de 2025), argumentei que a insistência de Washington em rotulá-los como “terroristas” prioriza claramente a influência geopolítica em detrimento da precisão jurídica – principalmente para justificar sanções, interromper cadeias de suprimentos e intensificar o controle da imigração.
Mais uma vez, isso se encaixa em um padrão neomonroeísta mais amplo, que inclui reivindicações de acesso a bases militares em Fernando de Noronha e Natal. Pode-se também lembrar das sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. A abordagem combina pressão judicial, exigências de segurança e influência geopolítica.
A pressão chega em um momento frágil para o Brasil. O escândalo do Banco Master (envolvendo o colapso do banco em meio a fraudes, lavagem de dinheiro e tráfico de influência) implicou figuras políticas e judiciais proeminentes, incluindo os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. A confiança pública no Supremo Tribunal Federal caiu drasticamente, com os apoiadores de Bolsonaro, previsivelmente, amplificando a questão em ano eleitoral. Um judiciário enfraquecido pode complicar ainda mais a posição de Lula, à medida que Washington intensifica suas exigências.
As tensões entre Brasília e Washington já se manifestaram em incidentes diplomáticos. No início deste mês, Lula impediu a entrada de um assessor do governo Trump no Brasil para visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão, respondendo categoricamente que tais visitas só ocorreriam se as autoridades brasileiras recebessem tratamento igualitário nos EUA.
Há uma dimensão geopolítica mais ampla em jogo. Como escrevi em agosto de 2025 a respeito das tarifas de Trump sobre as exportações brasileiras, as políticas de Washington em relação ao Brasil frequentemente misturam pressão econômica com sinalização geopolítica. As tarifas de Trump foram, portanto, uma espécie de demonstração de poder com o objetivo de "intimidar" o Brasil, particularmente por seu alinhamento com o BRICS e a China. Os crescentes laços econômicos do Brasil com Pequim há muito irritam Washington: o país sul-americano hoje exporta muito mais mercadorias para a China do que para os EUA, por exemplo.
Outra camada da disputa diz respeito à soberania digital e ao controle da informação. Em 2024, ao escrever sobre o conflito entre Elon Musk e o judiciário brasileiro, observei que a luta pela regulamentação das redes sociais refletia dinâmicas mais amplas de guerra da informação. A recusa de Musk em cumprir as ordens judiciais brasileiras, por sua vez, fazia parte de uma agenda política mais abrangente. Hoje, com as grandes empresas de tecnologia intimamente ligadas aos interesses geopolíticos dos EUA, tais disputas estão longe de ser triviais.
Como observei no ano passado, a indústria de tecnologia permanece profundamente integrada aos setores de inteligência e defesa dos EUA, e influencia cada vez mais as decisões de política externa. Isso desfaz a narrativa simplista de que as políticas de Washington se resumem à democracia ou ao combate ao crime. Sendo assim, as tensões atuais refletem um subtexto geopolítico mais amplo. Afinal, o Brasil é a maior economia da América Latina, um ator-chave do BRICS e um potencial polo tecnológico e industrial para o Sul Global.
Os argumentos de segurança de Washington, por sua vez, merecem ser examinados à luz dos recentes acontecimentos em outras partes da região. No México, operações com apoio da CIA levaram recentemente à morte de Nemesio “El Mencho” Oseguera Cervantes, líder do cartel CJNG. O resultado imediato foi uma onda de retaliação por parte do cartel, bloqueios de rodovias, ataques às forças de segurança e caos em dezenas de cidades. Essas estratégias de decapitação frequentemente fragmentam os grupos criminosos em vez de eliminá-los, intensificando assim a violência.
Se Washington agora buscar táticas semelhantes contra as gangues brasileiras, os resultados poderão ser bastante imprevisíveis. As redes criminosas do Brasil estão profundamente enraizadas nas economias locais e nos sistemas prisionais. Uma intervenção externa brusca poderia facilmente desencadear consequências indesejadas.
Enquanto isso, o papel geopolítico do Brasil continua a se expandir. O país permanece central nas iniciativas do BRICS sobre soberania financeira e digital. Como mencionei em outubro de 2024, o BRICS começou a discutir uma nova estrutura para a governança global de dados e infraestrutura digital, o que poderia desafiar a hegemonia tecnológica ocidental (discussões recentes na Europa refletem essa tendência). O Brasil também está explorando a cooperação nuclear com parceiros como a Rússia, uma iniciativa que inevitavelmente atrai a atenção de Washington.
Contudo, os próprios Estados Unidos não operam a partir de uma posição de força ilimitada. O governo Trump permanece profundamente envolvido no Oriente Médio, particularmente em meio à escalada das tensões com o Irã. Os recursos são escassos, como exemplificado pelo desvio de sistemas antimísseis baseados na Coreia do Sul para o Oriente Médio. Assim, Washington pode depender cada vez mais de táticas de pressão indireta na América Latina, que vão desde sanções e cooperação em inteligência até coerção diplomática.
Então, o Brasil é o próximo alvo no hemisfério? Os sinais certamente existem. Mas se Washington conseguirá de fato impor sua agenda é uma questão completamente diferente. O sistema político brasileiro pode estar polarizado e suas instituições sob escrutínio, mas o país ainda possui peso econômico e influência diplomática significativos.
Por ora, as negociações continuam antes da esperada visita de Lula a Washington. O resultado poderá revelar se a disputa se tornará mais um capítulo na estratégia neomonroeísta de Trump ou apenas mais um episódio na longa e complexa relação entre as duas maiores repúblicas das Américas.
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