24 Janeiro 2026
A América Latina atravessa uma fase de redefinição geopolítica marcada pelo enfraquecimento do direito internacional. A ofensiva dos Estados Unidos, o avanço econômico da China e a fragilidade das democracias regionais configuram um cenário instável. Nesse contexto, a soberania e o multilateralismo surgem como valores cada vez mais disputados.
O artigo é de Ingrid Ross, em artigo publicado por Nueva Sociedad, janeiro de 2026.
Ingrid Ross é diretora da revista Nueva Sociedad. Foi representante da Fundação Friedrich Ebert na América Central e em Jerusalém Oriental.
Eis o artigo.
O sequestro do atual presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e de sua esposa, Cilia Flores, para julgá-los nos Estados Unidos por “narcoterrorismo” causou comoção na América Latina. Como era de se esperar, assim que ocorreu a intervenção estadunidense, mandatários progressistas e de esquerda expressaram profunda preocupação diante de uma agressão que violava as normas e regras diplomáticas internacionais. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, que há tempos mantém uma disputa pública nas redes sociais com seu homólogo estadunidense, Donald Trump, manifestou forte sentimento de alarme. Há um ano, Petro ousou negar a aterrissagem de um voo de repatriação com migrantes provenientes dos Estados Unidos, o que marcou o início das tensões entre os presidentes. Em várias ocasiões, Trump acusou o primeiro presidente de esquerda da Colômbia de ser o chefe de um cartel de narcotráfico que impulsionava a produção massiva de drogas em seu país.
Em uma coletiva de imprensa realizada pouco depois da intervenção estadunidense em Caracas, Trump lançou uma ameaça inequívoca contra Petro, dizendo-lhe diretamente que precisava “cuidar da própria retaguarda”. A tensão só diminuiu quando Petro conseguiu, pouco tempo depois, manter uma conversa telefônica com Trump. Agora, o perigo de outra “intervenção cirúrgica” na região parece ter se dissipado. No entanto, os Estados Unidos também ameaçaram diversas vezes o México com a realização de operações contra os cartéis do narcotráfico em seu território. Se algo ficou claro, é que os princípios do direito internacional, a inviolabilidade das fronteiras e o respeito à soberania dos Estados não têm qualquer relevância para o governo Trump.
Essa situação tornou-se evidente nas eleições legislativas da Argentina, realizadas em outubro passado, e nas presidenciais de Honduras, ocorridas em novembro. Em ambos os pleitos, a influência de Washington foi central. No caso argentino, o partido do presidente Javier Milei, La Libertad Avanza, recebeu um claro impulso depois que os Estados Unidos contribuíram para estabilizar o peso argentino no curto prazo por meio de um empréstimo em dólares. Em Honduras, o político conservador do Partido Nacional, Nasry Asfura, venceu as eleições de forma surpreendente e por uma margem estreita de apenas 27 mil votos, substituindo o governo de esquerda de Xiomara Castro, após Trump ameaçar retirar a ajuda econômica caso Asfura perdesse. Ao mesmo tempo, ele concedeu indulto ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, também do Partido Nacional, condenado nos Estados Unidos por narcotráfico há dois anos.
Esse tipo de ingerência demonstra que a proclamação da luta contra o “narcoterrorismo” no caso da Venezuela é, antes de tudo, um constructo jurídico destinado a justificar a detenção de Maduro segundo a legislação estadunidense. Trump parece querer moldar a constelação política do continente a seu gosto, com promessas de crédito, ameaças descaradas e, se necessário, operações especiais. Outros países, pressionados pela necessidade econômica, já se orientaram por conta própria em direção a Washington: é o caso, por exemplo, da Bolívia, que, após o fim da era dos governos de esquerda do Movimento ao Socialismo (MAS), que haviam congelado as relações com os Estados Unidos, agora busca uma estreita cooperação econômica e apoio.
A democracia e os direitos humanos não desempenham para os Estados Unidos um papel de destaque na América Latina, como demonstra o fechamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), que era um ator especialmente importante no continente. Ao que tudo indica, o governo estadunidense considera que os riscos associados aos processos de transição democrática são altos demais e, por isso, no caso da Venezuela, em vez de entregar o Palácio de Miraflores a uma figura da oposição com capacidade limitada de governar o país, como a vencedora do Prêmio Nobel María Corina Machado, aposta na estabilidade e na continuidade com a vice-presidenta chavista Delcy Rodríguez.
Na América Latina, os Estados Unidos se preocupam sobretudo com seus interesses econômicos, com o acesso a matérias-primas como petróleo, lítio, cobre, ouro e terras raras, conforme afirma a Estratégia de Segurança Nacional de 2025. Segundo esse documento, os governos da região deveriam considerar os Estados Unidos como seu parceiro privilegiado e, assim, contribuir para a resiliência econômica desse país.
É possível que Trump também queira contrabalançar a influência da China na região: poucas horas antes da intervenção em Caracas, o presidente Maduro havia recebido o representante especial da China para a América Latina, Qiu Xiaoqi. A China é a principal importadora de petróleo venezuelano e possui investimentos significativos no setor. Também ocupa o primeiro lugar nas exportações em outros países da América do Sul: desde 2009, é o principal parceiro comercial do Brasil e também lidera as estatísticas de comércio exterior do Uruguai, do Chile e do Peru. Sob o governo de Xiomara Castro, Honduras também mudou de rumo, reconheceu diplomaticamente a China e iniciou negociações para um tratado de livre-comércio em 2023. Em especial no setor energético, a presidenta hondurenha viu nos investimentos chineses (energia solar e eólica, redes de transmissão) elementos vitais para superar a crise energética do país e romper estruturas monopolistas.
A ampliação das rotas comerciais em direção à China já está bastante avançada: em 2024 foi inaugurado o porto de Chancay, na costa peruana do Pacífico, que desempenha um papel importante na rede global de infraestrutura, isto é, na chamada Iniciativa do Cinturão e da Rota, impulsionada pelo país asiático. Por essa via, as mercadorias chegam à Ásia pelo Pacífico em apenas dez dias. China e Brasil planejam agora também uma linha ferroviária que atravessará o continente e conectará o porto de Ilhéus, situado na costa atlântica brasileira, ao porto de Chancay, a 4.500 quilômetros de distância. Por outro lado, no caso da Argentina, país no qual a China exerceu influência em diversos setores, desde dezembro do ano passado existem voos diretos duas vezes por semana entre Buenos Aires e Xangai.
E que papel a Europa desempenha diante da rivalidade entre as grandes potências na América Latina? Em 17 de janeiro, finalmente foi assinado em Assunção o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercado Comum do Sul (Mercosul). Com isso, será criada a maior zona de livre-comércio do mundo, com mais de 700 milhões de habitantes, que abrangeria cerca de 20% do comércio mundial e quase um terço das exportações globais de mercadorias. Embora críticos apontem os efeitos negativos para o setor agrícola na Europa, bem como a proteção insuficiente dos direitos trabalhistas e ambientais na América Latina, a conclusão do acordo também representa um importante sinal político de cooperação em tempos de crise. Além disso, a Europa necessita de acesso a matérias-primas para impulsionar a transformação da economia rumo a uma era de baixo carbono e, assim, contribuir para a proteção do clima.
No entanto, já é hora de países como a Alemanha lembrarem que, para além dos interesses econômicos, contam na América Latina com aliados fortes para defender a ordem mundial baseada em regras: Luiz Inácio Lula da Silva, Gabriel Boric, Gustavo Petro e Claudia Sheinbaum fazem parte de um núcleo de mandatários progressistas que forjaram uma aliança em favor da democracia e do multilateralismo e contra a desinformação, e que demonstraram coordenação eficaz no mais alto nível, com um comunicado conjunto no dia seguinte ao sequestro de Maduro. A Europa deveria buscar mais intensamente a colaboração com os países do continente que compartilham seus valores, pois, além da manutenção da ordem internacional baseada em regras, existem interesses semelhantes em outros campos: por exemplo, a independência em relação à supremacia das empresas tecnológicas estadunidenses na digitalização e o desenvolvimento de alternativas a elas, ou o combate eficaz às mudanças climáticas por meio da redução das emissões de gases de efeito estufa e da proteção das florestas e dos oceanos.
Certamente, não há garantia de que a aliança progressista dos presidentes perdure, já que, como tantas outras coisas na América Latina, ela se fundamenta na iniciativa de lideranças conjunturais e não em estruturas e instituições estatais. Enquanto o mandato de Sheinbaum vai até 2030, o presidente chileno Boric deixará o cargo já em março, entregando-o a seu sucessor eleito, José Antonio Kast, representante de uma força de extrema direita. Ninguém sabe o que acontecerá este ano nas eleições da Colômbia e do Brasil. É de se supor que os Estados Unidos tentarão seguir consolidando seu poder no continente e apoiando candidatos que se submetam voluntariamente aos objetivos e interesses da política estadunidense. Rebeldes como Petro ou Lula são uma pedra no sapato de Washington. Essa é mais uma razão pela qual é importante que a América Latina conte com democracias fortes e soberanas, baseadas no Estado de direito. Chegou o momento de buscar entendimento para além dos mecanismos já estabelecidos e de defender conjuntamente valores que vêm sendo questionados por supostos parceiros. Para isso, sem dúvida, são necessárias flexibilidade e uma mudança de mentalidade.
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