Parque Nacional do Albardão é um marco histórico para a conservação do oceano. Entrevista especial com Maria Carolina Contato Weigert

Brasil protegerá cerca de 27% do território marinho nacional com a criação do Parque Nacional do Albardão no Rio Grande do Sul, informa a bióloga

O Farol do Albardão, na Praia do Hermenegildo: símbolo e ponto de referência | Foto: Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental (NEMA)

Por: Patricia Fachin | 14 Mai 2026

No dia 6 de março, o governo federal oficializou a criação do Parque Nacional do Albardão, em Santa Vitória do Palmar/RS, depois de quase duas décadas de estudos. Para a bióloga Maria Carolina Contato Weigert, que atua na região, a instituição dessa área de Unidade de Conservação “representa um marco histórico para a conservação do oceano no país”. Albardão, diz ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, “se tornou o maior parque marinho de proteção integral do Brasil”.

Entre a biodiversidade marinha que será preservada pela iniciativa, a entrevistada destaca diversas espécies ameaçadas, como “a toninha (Pontoporia blainvillei), considerado o golfinho mais ameaçado do Atlântico Sul Ocidental”. No total, a área do parque soma 1.618.488 hectares.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao IHU, Maria Carolina também comenta os desafios da gestão dessa área. Até o momento, o setor pesqueiro ainda se opõe à iniciativa do governo federal e do governo do estado. “Agora é preciso garantir que essas unidades tenham seus planos de manejo e conselhos estabelecidos para que a gestão possa, de fato, ocorrer. Os desafios são gigantes devido às dificuldades administrativas encontradas em todos os âmbitos das esferas governamentais, mas estamos evoluindo muito bem”, menciona.

Nesta quinta-feira, às 17h30min, Maria Carolina Contato Weigert ministrará a videoconferência “Parque Nacional do Albardão (RS). Reflexões sobre biodiversidade e predação econômica” no Instituto Humanitas Unisinos – IHU. A palestra online será transmitida na página do Instituto, nas redes sociais e no YouTube. O evento é gratuito e aberto ao público.

Maria Carolina Contato Weigert (Foto: Arquivo pessoal)

Maria Carolina Contato Weigert é bacharel e licenciada em Biologia, com ênfase em Biologia Marinha, e mestra em Análise Ambiental pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Atua em conservação da natureza e educação ambiental, com experiência em contextos formais e não formais, mediação de conflitos socioambientais e fortalecimento da participação social. Trabalha com comunidades locais e tradicionais, com foco em gestão compartilhada de recursos naturais e criação e gestão de Unidades de Conservação (UC). Possui especialização em Gestão e Governança de Áreas Protegidas pela Universidad Austral de Chile. É diretora do Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental (NEMA). Integra o grupo diretivo do Fórum do Mar Patagônico, contribuindo para processos colaborativos e fortalecimento institucional internacionalmente.

Confira a entrevista.

IHU – O que motivou a iniciativa de criação do Parque Nacional do Albardão? Pode resgatar a história de mobilização social envolvida nesse processo? Quais instituições participaram e quais estudos foram realizados?

Maria Carolina Contato Weigert – O Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental (NEMA) realiza monitoramentos de praia na região do Albardão há 40 anos. Durante esses monitoramentos consecutivamente foram sendo observadas a grande biodiversidade da área e os impactos que essa região sofria. No fim da década de 1990, iniciaram-se os esforços para definir as áreas prioritárias para a conservação no Brasil e o Albardão foi uma delas. A partir daí foram inúmeras expedições, pesquisas e monitoramentos que se seguiram até o momento da publicação do decreto de criação do parque. Não seria possível elencar aqui todas as instituições que trabalham na área durante esses anos, pois foram inúmeras. Entretanto, podemos citar o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) sempre presente, o NEMA, a FURG e o apoio de órgãos financiadores nacionais e internacionais.

IHU – Segundo notícias da imprensa, havia conflitos entre os que eram favoráveis e contrários à criação do parque, como uma multinacional japonesa que tem interesse na instalação de um parque eólico offshore na região. Que informações tem sobre esse conflito? Que setores eram contrários à criação do parque e por quê?

Maria Carolina Contato Weigert – Os únicos setores contrários à criação do Parque Nacional do Albardão eram os setores pesqueiros e o das energias eólicas. Ambos por interesse no uso econômico da região. Algumas alterações foram feitas na poligonal das Unidades de Conservação (UC) para que todos os setores, incluindo o da conservação, pudessem ser acomodados com o menor impacto possível.

IHU – O governo gaúcho pediu a suspensão do processo de criação da Unidade de Conservação como tem sido noticiado na imprensa?

Maria Carolina Contato Weigert – O governo não pediu a suspensão, até mesmo porque o ele não é contra a criação da área. Uma das primeiras exigências do governo federal para o decreto das UC foi a anuência do governo estadual, e essa foi concedida. O que está acontecendo é que alguns políticos são contrários à criação das UCs por verem que o setor pesqueiro será prejudicado com a área de exclusão de pesca e estão mobilizando meios para tentar derrubar o decreto das UCs. Mas essa não é uma posição do governo do estado.

IHU – Ainda há objeções à criação do parque?

Maria Carolina Contato Weigert – Somente pelo setor pesqueiro.

IHU – O parque tem 558 mil hectares marinhos e 55 mil hectares de faixa terrestre e será o maior parque nacional marinho do país. Quais as características e particularidades dessa área? O que essa extensão representa e significa em termos de áreas de preservação, especialmente preservação marinha no Brasil?

Maria Carolina Contato Weigert – O Parque Nacional do Albardão possui aproximadamente 1.004.480 hectares, sendo considerado o maior parque marinho do Brasil. A soma total da área do conjunto formado pelo Parque Nacional do Albardão e sua Zona de Amortecimento, incluindo a Área de Proteção Ambiental (APA) do Albardão (55.983 hectares), perfaz 1.618.488 hectares. Com a criação do Parque Nacional do Albardão, o Brasil chega perto de 27% de seu mar protegido por UCs.

Mapa da área do parque: APA e Parque Nacional Marinho do Albardão | Foto: ICMBio

IHU – Quais espécies da fauna e da flora serão beneficiadas com essa iniciativa?

Maria Carolina Contato Weigert – De maneira geral, a biodiversidade marinha é beneficiada com essa criação. A região abriga uma grande diversidade de espécies marinhas e costeiras, incluindo mamíferos marinhos, como a toninha e baleias, lobos e leões-marinhos, tartarugas, aves migratórias, tubarões, raias e diversas espécies de peixes e invertebrados.

IHU – Quais são as espécies ameaçadas encontradas na região do parque?

Maria Carolina Contato Weigert – Entre as diversas espécies ameaçadas presentes na região está a toninha (Pontoporia blainvillei), considerado o golfinho mais ameaçado do Atlântico Sul Ocidental. A área também é utilizada por tartarugas marinhas e outras espécies que dependem desses habitats para sobreviver. A criação de UCs na região do Albardão é proposta em vários Planos de Ação Nacional para Conservação de Espécies Ameaçadas de Extinção.

IHU – O que se espera em relação à pesca na região?

Maria Carolina Contato Weigert – A pesca se beneficiará a longo prazo, pois está comprovado cientificamente que a criação de uma unidade de proteção integral traz benefícios para o restabelecimento do equilíbrio ecológico de toda a região no seu entorno. Com isso, a área do entorno do parque passará a ter uma maior disposição de recursos pesqueiros a serem capturados.

IHU – Que outros benefícios socioambientais são esperados a partir de agora?

Maria Carolina Contato Weigert – Os Parques Nacionais apresentam grande potencial para atividades de ecoturismo. Essa atividade já existe na região de forma modesta, mas com a projeção internacional que essa região está recebendo com a criação do parque, essa atividade deve se expandir. Junto dela vem a possibilidade do desenvolvimento de um turismo de base sustentável, onde as comunidades locais poderão se beneficiar economicamente com a vinda de um grande número de pessoas para conhecer as belezas do Albardão.

IHU – Após a publicação do Decreto 12.868/2026, você disse que “agora começa uma nova etapa, que é garantir a efetiva implementação e proteção dessa área”. Quais são as expectativas e os desafios nesse sentido?

Maria Carolina Contato Weigert – Agora é preciso garantir que essas unidades tenham seus planos de manejo e conselhos estabelecidos para que a gestão possa, de fato, ocorrer. Os desafios são gigantes devido às dificuldades administrativas encontradas em todos os âmbitos das esferas governamentais, mas estamos evoluindo muito bem. Já temos o Núcleo de Gestão Integrada (NGI) criado e em breve teremos as equipes responsáveis pela gestão dessas unidades. Um grande esforço está sendo realizado pelo terceiro setor junto ao ICMBio. Com certeza esse será um caso de êxito na implementação.

A inscrição para o evento está disponível aqui.

IHU – O que a criação do parque representa em termos de futuro?

Maria Carolina Contato Weigert – A criação do Parque Nacional do Albardão garante proteção da biodiversidade marinha e costeira, ajuda na recuperação da pesca, fortalece a resistência da costa às mudanças climáticas e cria oportunidades de pesquisa, educação e ecoturismo.

Além de conservar espécies ameaçadas, o parque pode gerar desenvolvimento sustentável e valorização da região no longo prazo. O Albardão também se tornou o maior parque marinho de proteção integral do Brasil, o que representa um marco histórico para a conservação do oceano no país.

Leia mais