A guerra suja não encontra uma estratégia de saída. Artigo de Alberto Negri

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14 Março 2026

"A guerra é suja porque nasce suja, contra o direito internacional: a diplomacia recebeu ultimatos, não espaços para negociar", escreve Alberto Negri, filósofo italiano, em artigo publicado por Il Manifesto, 11-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

A guerra está ficando cada vez mais suja. Não apenas por causa dos incêndios nas refinarias e depósitos de combustível, do ar irrespirável devido à chuva ácida, com um céu negro de dia e em chamas à noite em Teerã e no Golfo, como também na Bagdá de Saddam Hussein, onde morei em 2003: a água há décadas já corre poluída, do Eufrates ao Tigre e ao Litani no Líbano, sinal de um desastre ambiental de todo o Oriente Médio. E que ninguém quer ver, porque, para nós, só o petróleo importa, não os povos e sua fonte de vida.

Somos como o colonialista britânico Lord Curzon: cada gota de petróleo, dizia ele, vale uma gota de sangue. Depois, fingimos que essa não é a nossa guerra e que não estamos tomando partido. Na verdade, já tomamos partido.

É uma guerra cada vez mais suja porque os objetivos de Trump e Netanyahu — para além das declarações por vezes inverificáveis do presidente estadunidense — estão se tornando cada vez mais opacos a cada dia que passa. Dos dois, o único com ideias claras é Netanyahu, que o arrastou para a guerra: para ele, quanto mais tempo durarem os conflitos, mais firme se sente no poder. O primeiro-ministro israelense tem dois objetivos: arrasar o sul do Líbano — que se tornará como Gaza, como disse um de seus ministros — e aniquilar o aparato militar do regime iraniano. Danny Citrinowicz, analista israelense citado pelo Financial Times, resumiu a situação da seguinte forma: "Se houver um golpe de estado, melhor ainda. Se as pessoas forem às ruas, melhor ainda. Se houver uma guerra civil, melhor ainda. Israel não liga à mínima para o futuro e a estabilidade do Irã."

Para Netanyahu, o importante é desagregar o Oriente Médio, destruir o Irã e impor sua primazia sobre toda a região: se os árabes do Golfo um dia aderirem ao Pacto de Abraão, o farão como súditos e colonizados.

Mas nós já sabíamos de tudo isso, caso contrário Netanyahu não teria ido a Washington para convencer Trump a entrar em guerra enquanto as negociações ainda estavam em andamento. A guerra é suja porque nasce suja, contra o direito internacional: a diplomacia recebeu ultimatos, não espaços para negociar.

Este foi o primeiro erro da superpotência estadunidense quando mobilizou aviões, mísseis e navios de guerra: eles deveriam ter servido não para iniciar um novo conflito, mas para extingui-lo. Se Trump tivesse demonstrado ao menos um décimo da paciência que demonstra com Putin, hoje estaríamos escrevendo uma história diferente. Talvez não seja coincidência que ele tenha ligado para o Kremlin não tanto para perguntar sobre a Ucrânia, mas talvez para se informar com Putin, amigo do regime iraniano e de Netanyahu, sobre como encontrar uma estratégia de saída do Oriente Médio.

O presidente da Casa Branca, em vez disso, cometeu um erro de avaliação clamoroso. Netanyahu, que é muito mais astuto do que ele, o enganou com a possibilidade de uma grande jogada: vamos eliminar o Líder Supremo Ali Khamenei e depois acabamos com a República Islâmica, como você já fez com Maduro e a Venezuela. O presidente dos EUA deve ter visto isso como o sinal do destino para o apostador: afinal, a única vez que Donald Trump visitou o Irã pré-revolucionário foi em 1978, no cassino de Teerã, onde uma foto o retrata sorrindo com Jack Nicholson e Warren Beatty.

Em seu discurso na noite passada, no qual disse que a guerra está prestes a terminar, ele ainda insistiu em citar a solução venezuelana. Após o assassinato de Khamenei, o aiatolá de Mar-a-Lago ficou tão eufórico a ponto de pretender até nomear o novo Líder Supremo. E vê-lo expressar decepção quando a Assembleia de Peritos, em uma reunião virtual (pela primeira vez na história da República Islâmica), elegeu o filho de Khamenei, Mojtaba, foi quase lamentável. Quase, porque sua ignorância só é comparável à sua arrogância. Diríamos completamente insano, se não soubéssemos que sua prioridade são os negócios e que seu filho está entrando no mercado estadunidense de drones de guerra, juntamente com um clube de golfe e uma empresa israelense.

Essa companhia de empresários que chegou ao poder em Washington vê a guerra, os estados e os povos como uma oportunidade para ganhar dinheiro: são movidos pela ganância e por uma extraordinária loucura.

Há apenas um momento em que Trump recupera a lucidez, quando analisa as pesquisas para as eleições de meio de mandato e percebe a crescente irritação de sua própria base eleitoral que levou a uma aventura militar irracional e imprudente, a mesma que ele atribuía a Bush, Obama e Biden.

O problema é que do outro lado está o Irã, não a Venezuela, um país que travou mil guerras desde 1979. Quando o Irã é atacado por forças externas, prevalece em parte da população e especialmente entre seus líderes, ainda que deslegitimados por uma sangrenta repressão, o antigo instinto nacionalista e de sobrevivência.

Quando a liderança da República Islâmica viu que Netanyahu havia convencido Trump a pôr fogo no Oriente Médio, seguiu o mesmo caminho, atacando as monarquias do Golfo, os vizinhos de casa com bases estadunidenses, e fechando o Estreito de Ormuz. Atacou também o Chipre, que, graças aos acordos militares e de gás com Tel Aviv, tornou-se uma espécie de colônia israelense, como a Grécia. Situações previsíveis e bem conhecidas, visto que, assim como a Síria, o Mediterrâneo Oriental é um campo de batalha — ainda virtual, mas não por muito tempo — entre a Turquia e o Estado judaico.

É preciso contar a Trump que Erdogan é o número dois na lista do Mossad. Talvez na próxima oportunidade, se ele não conseguiu ser o aiatolá no Irã, se proponha como sultão. Enquanto isso, o fim da guerra, quando acontecer, será decidido pelos Pasdaran e por Netanyahu.

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