12 Março 2026
Analistas acreditam que Pyongyang continuará a encarar as armas nucleares como uma questão de sobrevivência, à medida que crescem os rumores sobre um possível encontro este mês entre Kim Jong-un e Trump.
A informação é de Justin McCurry, publicada por El Salto, 11-03-2026.
O líder norte-coreano reagiu com uma calma incomum ao lançamento de míssil de um destróier na semana passada. O teste, disse ele, comprovou que a decisão de armar navios com armas nucleares estava progredindo “satisfatoriamente”.
O objetivo do teste e a reação de Kim, marcada por um otimismo moderado, buscavam, contudo, repercutir muito além do convés do Choe Hyon, um navio de guerra de 5 mil toneladas, o maior da frota do país.
A referência específica a armas nucleares ocorreu durante o bombardeio do Irã pelos EUA e por Israel. Segundo Donald Trump, que afirmou sem provas que o governo iraniano estava a poucas semanas de adquirir uma arma nuclear, alegou que o governo estava a poucas semanas de desenvolver uma bomba nuclear.
A escalada da guerra no Oriente Médio — e a ameaça existencial que paira sobre o regime iraniano — provavelmente reforçou a determinação da Coreia do Norte em construir um arsenal nuclear. O programa nuclear é vital para a sobrevivência de Kim e da dinastia que governa o país desde sua fundação por seu avô, em 1948.
“Kim deve ter pensado que atacaram o Irã porque o país não possuía armas nucleares”, disse Song Seong-jong, professor da Universidade de Daejeon e ex-funcionário do Ministério da Defesa da Coreia do Sul, após o início dos ataques no Irã.
A Coreia do Norte está envolvida há anos em um programa nuclear que está ganhando velocidade, apesar das sanções da ONU e das tentativas diplomáticas de Trump para impedir a presença desse tipo de armamento na península coreana.
Dúvidas sobre o arsenal norte-coreano
O primeiro teste nuclear da Coreia do Norte foi realizado em 2016 e o mais recente em 2017. No entanto, o tamanho do arsenal de Pyongyang e sua capacidade de instalar uma ogiva nuclear miniaturizada em um míssil de longo alcance capaz de atingir o território continental dos Estados Unidos permanecem incertos.
O Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo publicou um relatório em 2025 indicando que a Coreia do Norte havia construído cerca de 50 ogivas nucleares e possuía material físsil suficiente para construir outras 40.
O que é indiscutível é que a decisão de Kim de priorizar a dissuasão nuclear — e forjar uma aliança informal com a Rússia e a China — garantiu que ele evitará o mesmo destino dos antigos líderes do Iraque, da Líbia, da Venezuela ou do Irã.
A reação do Ministério das Relações Exteriores da Coreia do Norte à guerra contra o Irã foi matizada. Embora tenha condenado os bombardeios dos EUA e de Israel como um "ato ilegal de agressão" que revelou os instintos "hegemônicos e desonestos" de Washington, não condenou explicitamente Trump.
Novas conversas?
Essa omissão deixa a porta aberta para a retomada das negociações sobre o programa nuclear, desde que os EUA abandonem sua exigência de que a Coreia do Norte desmantele suas armas nucleares e aceitem sua legitimidade em possuí-las. “Se os EUA retirarem sua política de confronto com a Coreia do Norte e respeitarem o status atual do nosso país, não há razão para que não possamos chegar a um acordo”, declarou Kim no mês passado no congresso do partido governista, segundo a agência de notícias oficial KCNA.
Os analistas não têm tanta certeza se a guerra com o Irã abrirá caminho para novas negociações ou se o regime norte-coreano se tornará ainda mais fechado.
Sydney Seiler, consultora sênior do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais dos EUA, acredita que a possibilidade de um acordo nuclear entre Washington e Pyongyang diminuiu.
“A disposição do presidente Trump em usar a força militar e as ameaças para fortalecer sua posição de negociação deixará Kim nervoso e mais relutante em acelerar os contatos para as conversas”, afirma Seller, ex-enviado especial dos EUA que participou das negociações de seis partes sobre o programa nuclear da Coreia do Norte.
Outros analistas, pelo contrário, acreditam que o desejo de Kim de garantir a sobrevivência do regime a longo prazo — e seu suposto bom relacionamento pessoal com o presidente dos EUA — poderia levá-lo de volta à mesa de negociações.
“Ao contrário do Irã, a Coreia do Norte não pode ser desnuclearizada”, conclui Cho Han-bum, do Instituto para a Unificação Nacional da Coreia, com sede em Seul, que destaca a presença de instalações nucleares por todo o país. Estar à mesa de negociações como chefe de Estado com capacidade de dissuasão nuclear poderia lhe conferir a influência necessária para persuadir Trump a fazer concessões, mesmo que na forma de garantias de segurança.
Trump reitera sua disposição em se encontrar com Kim, alimentando especulações sobre um possível encontro durante a visita do presidente americano à China ainda este mês.
Se as negociações finalmente acontecerem, Kim sabe que poderá negociar a partir de uma posição de força. Como os líderes iranianos estão descobrindo, para seu desespero, possuir armas nucleares — e não apenas a ambição de possuí-las — parece ser o caminho para a segurança.
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