A viagem do Papa ao Cazaquistão à sombra da guerra na Ucrânia e da crise entre o Ocidente e a China

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13 Setembro 2022



O pontífice participa de um congresso de líderes religiosos internacionais. A hipótese de uma conversa com o patriarca russo Kirill foi excluída: o chefe da Igreja Ortodoxa Russa não vem mais ao evento. O presidente chinês Xi Jinping é esperado em Nur Sultan para se encontrar com seu colega cazaque

 

A reportagem é de por Iacopo Scaramuzzi, publicada por Repubblica, 12-09-2022.

 

Duas silhuetas se destacam no cenário da viagem do Papa Francisco ao Cazaquistão, de hoje, terça-feira, a quinta-feira, a de Vladimir Putin e a de Xi Jinping.

 

Jorge Mario Bergoglio voa para a Ásia Central para participar de um congresso de líderes religiosos internacionais, bem como para animar a pequena comunidade católica deste antigo país soviético de grande maioria muçulmana. João Paulo II visitou o Cazaquistão em 2001, poucos dias após o 11 de setembro, desafiando as preocupações de segurança e pregando o diálogo entre cristãos e muçulmanos em um mundo que estava deslizando para um "choque de civilizações".

 

Localização geográfica do Cazaquistão, país da Ásia Central e antiga república soviética. Estende-se do Mar Cáspio, a oeste, até as montanhas de Altai, na fronteira leste com a China e a Rússia. (Foto: TUBS | Wikimedia Commons)

 

Os desafios para Francisco não são menores. Há mais um interno ao catolicismo e outro externo.

 

A Ásia é o único continente onde os católicos nunca ditaram a lei, um pequeno rebanho muitas vezes sobrecarregado pelas ondas da história, uma Igreja pobre, mas extremamente vital, como mostram os números crescentes. Não é por acaso que, no consistório do final de agosto, Francisco quis nomear o cardeal Giorgio Marengo, um jovem missionário de Vicenza, na Mongólia, encruzilhada de fés e culturas entre a Rússia e a China. Agora visita o outro país que se estende entre o Urso e o Dragão. Ele aproveitará a cúpula inter-religiosa e a missa na Expo Nur-Sultan para fortalecer o rosto de uma Igreja capaz de testemunhar o Evangelho e conviver com outras religiões, a começar pelo Islã. Para o Papa, é o cristianismo do futuro.

 

Sua jornada, no entanto, faz parte de um quadro mais amplo, o da “terceira guerra mundial em pedaços”, como Francisco vem alertando há anos. Peças que com a guerra russa na Ucrânia, ele disse recentemente, "tornaram-se cada vez maiores, se unindo". É nesse quadro que Vladimir Putin e Xi Jinping entram em cena. No mesmo dia em que o Papa participa da cúpula inter-religiosa, quarta-feira, o presidente chinês é esperado em Nur Sultan para se encontrar com seu colega cazaque Kassim-Jomart Tokayev.

 

É no Cazaquistão, país rico em hidrocarbonetos e minerais, que em 2013 ele lançou a “nova Rota da Seda”, e ao longo dos anos as relações comerciais se fortaleceram. É possível que Xi Jiping se encontre com o Papa Francisco? "É possível, mas muito improvável", responde Agostino Giovagnoli, professor da universidade católica e grande especialista em China. O presidente chinês e o papa já se encontraram no mesmo lugar sem se encontrar, aponta o professor, em Nova York em 2015 e em Roma em 2019. A diplomacia chinesa, então, tem o cuidado de ir passo a passo e uma reunião de cúpula pode ser prematuro. Certamente, "o que está acontecendo em nível internacional leva a uma aceleração dos eventos", observa Giovagnoli. Em particular, "neste momento no centro das preocupações da China está Taiwan", após a visita da presidente do Congresso dos EUA Nancy Pelosi, e em Pequim a atenção para o Papa Francisco, uma autoridade de importância global “aumentou”. Não somente. Depois de uma longa geada que começou com a tomada do poder de Mao Tse-tung, em 2018 os homens do Papa assinaram um acordo com Pequim para a nomeação de bispos. Confirmado em 2020, - disse o Cardeal Secretário de Estado Pietro Parolin em uma entrevista recente ao Tg2 - deve ser renovado no final de outubro. Uma delegação do Vaticano esteve na China entre agosto e setembro para discutir os detalhes. "O ambiente era bom", resume Giovagnoli, "há otimismo".

 

A guerra russa na Ucrânia pesa muito na visita ao Cazaquistão. No país haverá tanto católicos de Moscou quanto fiéis ucranianos: mas, como explica o chefe da Cáritas cazaque, padre Guido Trezzani, “não houve nenhuma forma de agressão, nem mesmo verbal, entre uma etnia e outra”.

 

A guerra é palpável em outro nível. Ele cruza a viagem papal desde a trajetória do avião que o leva de Roma à capital do Cazaquistão, evitando sobrevoar a Ucrânia e a Rússia. O Papa Francisco, sobretudo, esperava encontrar-se com o Patriarca russo Kirill no Cazaquistão, para lhe pedir, como "irmão", que fizesse tudo para acabar com a guerra. O argentino é o primeiro papa a se encontrar com o patriarca russo, em um encontro histórico em Cuba, em 2016, que pôs fim a séculos de separação. A agressão da Ucrânia rompeu as relações, apesar do fato de que Francisco, em uma tentativa de afetar a paz, nunca atacou a Rússia de frente. Uma videochamada entre os dois em março certificou as distâncias, mas também manteve a porta aberta.


Uma nova cúpula entre Kirill e Francisco, já em discussão antes de 24 de fevereiro, fracassou: uma reunião foi hipotetizada em Jerusalém em junho, depois no Cazaquistão, mas no Vaticano ninguém realmente acreditou que ela se materializaria. Além disso, o país criticou Moscou pela agressão contra a Ucrânia. O patriarca ortodoxo, depois de anunciar sua participação, desistiu do congresso de líderes religiosos: enviará seu "ministro das Relações Exteriores", o metropolita Antonio, que certificará a incomunicabilidade. É difícil pensar que a decisão não foi acordada com o inquilino do Kremlin. A posição do patriarca, aliás, reflete, no plano espiritual, a posição política e militar de Putin: o orgulhoso isolamento, a crítica apocalíptica ao Ocidente secularizado, a pretensão de representar a concepção correta da história e a verdadeira fé.



Diante desse muro, Francisco, o papa da encíclica "Fratelli tutti", tenta salvar o que pode ser salvo enquanto espera por tempos melhores. Evitar que volte o frio do passado. Ele chicoteia Kirill, renomeando-o "coroinha de Putin", mas não quebra. Ele luta pela paz. É a Ostpolitik da Santa Sé. Uma política de chegar ao Oriente que a diplomacia do Vaticano já havia renomeado de "martírio da paciência" durante a Guerra Fria.

 

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