No conflito russo-ucraniano, a economia explica muita coisa

Foto: Jernej Furman | Flickr CC

18 Março 2022

 

O fortalecimento do poder, a conquista de novas terras, a submissão de outros povos, a vingança por injustiças sofridas (reais ou presumidas) são os fatores desencadeadores das guerras, desde a antiguidade.

 

O comentário é do jornalista italiano Gaetano Lamanna, em artigo publicado em Il Manifesto, 17-03-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

A Ilíada de Homero, escrita no século VIII a.C., narra o longo cerco de Troia. Conta a violência e a crueldade da guerra. Descreve pensamentos e sentimentos dos protagonistas: a dor, o medo, a coragem, a pietas, a ira, a amor. Os pensamentos e os sentimentos dos aqueus e dos troianos pertencem a todos aqueles que, em todos os tempos, estão envolvidos em uma guerra. Daí a universalidade do poema.

 

A maior diferença em relação ao passado está no progresso técnico: a humanidade não poderia sobreviver ao uso das armas atômicas.

 

A “discussão acalorada”, como define o físico Carlo Rovelli, sobre a guerra russo-ucraniana não diz respeito à condenação quase unânime da agressão de Putin. O objeto da disputa é o “como” a solidariedade à Ucrânia deve se expressar. Enviar armas não é a melhor forma para favorecer uma trégua e para chegar a um acordo de paz.

 

Imagem: Carlo Rovelli | Foto: Cirone-Musi / Wikimedia Commons

 

“Toda arma a mais – como enfatiza Rovelli – significa mais devastação e mais mortes.” Quem se comove com as imagens dramáticas provenientes da Ucrânia não pode deixar de saber que a guerra prolongada envolve uma barbárie maior e amplifica, em vez de conter, os seus efeitos negativos. E quem paga o preço mais alto, em termos de devastações, fome, epidemias, empobrecimento, é sempre a população civil.

 

A palavra “guerra” é impronunciável até para Putin, para quem o ataque militar se torna uma “operação especial”. Mas o vocabulário é rico em expressões que transformam as guerras em “intervenções humanitárias”, “preventivas” e assim por diante. Um clássico são as guerras travadas para “exportar a democracia”. Assim foi para o Afeganistão, a ex-Iugoslávia, o Iraque, a Síria, a Líbia etc. Depois, há aqueles que, como a Itália, se aproveitam delas e exportam armas (para nada menos do que 87 países). Sempre se buscam justificativas nobres, mas não há guerras “justas”.

 

Se quisermos ser sérios e objetivos, as guerras sempre acompanharam a vontade de defender e estender os interesses econômicos e os mercados comerciais. “O capitalismo carrega consigo a guerra, assim como a nuvem carrega a tempestade”, escreveu em 2014 Jean Jaurès, socialista reformista e pacifista convicto, antes de ser morto em Paris por um jovem favorável à guerra. Somente os ingênuos e os despreparados podem pensar que por trás da “operação especial” de Putin também não há motivações econômicas.

 

Antes da agressão russa, para muitos italianos, a Ucrânia era apenas o país de origem das numerosas cuidadoras que assistem os nossos idosos. Era um país da ex-União Soviética, longe dos nossos padrões de bem-estar. Uma simplificação.

 

Com a guerra descobrimos que a Ucrânia é um país rico em recursos naturais. Possui 5% dos recursos minerais em nível global. Está entre os primeiros lugares em reservas de ferro e carvão. No seu subsolo, encontram-se metais raros, hoje muito disputados, como urânio, titânio, gálio, manganês, grafite e mercúrio. Importantes recursos de gás ainda não foram explorados.

 

Além disso, a Ucrânia é o maior produtor mundial de sementes de girassol e um dos maiores produtores de trigo e milho. Cerca de 20% do trigo mole importado pela Itália provém do porto de Odessa.

 

O prolongamento da guerra, portanto, é um prelúdio de uma inflação galopante e incontrolável. Um dano para as camadas mais frágeis e uma vantagem para quem especula sobre os preços.

 

A guerra russo-ucraniana, com toda a evidência, se insere na disputa mundial pela hegemonia econômica. Assistimos a uma aceleração da competitividade e da conflitualidade em nível global. Cresce o peso da China e dos países asiáticos, enquanto diminui o dos Estados Unidos e da União Europeia.

 

Em 2030, segundo alguns cenários, Europa, Estados Unidos e Austrália produzirão um terço do PIB mundial. Uma verdadeira inversão geoeconômica e geopolítica. Naturalmente, os cenários futuros nunca são lineares e definitivos. As variáveis são muitas. Uma delas é precisamente o papel da Rússia.

 

Certamente, nos encontramos em uma delicada e complexa reviravolta histórica. Não adianta raciocinar segundo as categorias do século XX. Não há mocinhos de um lado e bandidos do outro. É errado e perigoso repropor a narrativa de uma nova Guerra Fria, de um mundo dividido em blocos contrapostos.

 

A Rússia não é a URSS, nem o capitalismo se identifica com a liberdade e a democracia. A economia mundial, a partir de 1989, se desenvolveu totalmente à sombra do capitalismo (praticado de muitas formas). É preciso fugir dos esquematismos. Os interesses em jogo são muitos, e a busca de uma nova ordem mundial não é fácil. Mas o caminho do diálogo, da cooperação e da convivência pacífica não tem alternativas.

 

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