Guerra na Ucrânia está expondo crise da democracia nos EUA

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09 Março 2022

 

As democracias se excedem, e os Estados Unidos certamente não são uma exceção. Mas a ordem internacional baseada em regras criada pelas democracias trouxe mais paz e estabilidade do que as autocracias podem prometer.

 

A opinião é de Steven P. Millies, professor de Teologia Pública e diretor do Bernardin Center, da Catholic Theological Union. O artigo foi publicado em America, 07-03-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

A crise da Ucrânia transformou o discurso do Estado da União de 2022 e a política estadunidense, com uma surpreendente demonstração de quase unanimidade, cujo tipo vemos raramente. Mas sabemos que será breve. A história mais ampla da crise da Ucrânia, no contexto dos Estados Unidos, tem a ver com a amarga política estadunidense, que parece valorizar o partidarismo acima da segurança, acima das instituições estadunidenses e dos processos de governo... acima de tudo.

Um membro do Congresso, a deputada Marjorie Taylor Greene tuitou no dia 24 de fevereiro que “tudo o que está acontecendo com as pessoas pobres da Ucrânia é resultado direto de um Estados Unidos FRACO sob a liderança FRACA de Joe Biden”, e o deputado Paul Gosar afirmou no mesmo dia que “é óbvio que o mundo acha que o regime de Biden é incompetente e impotente”.

O partidarismo não é novidade na política estadunidense. Quando os Estados Unidos enfrentaram uma potencial guerra mundial na fronteira coreano-chinesa em 1950, o presidente Harry Truman sofreu ataques políticos que incluíam pedidos para “impichar o imbecil”. Mas ainda havia um senso de propósito nacional e uma crença generalizada de que a política deveria “parar na borda da água” (na frase do senador Arthur Vandenberg, contemporâneo de Truman e de seus críticos).

Os estadunidenses viram o fim da Guerra Fria como uma vitória estadunidense: a democracia e o estilo de vida dos Estados Unidos haviam prevalecido. Acreditávamos que, quando o resto do mundo fechava os olhos, imaginava um futuro político que se parecesse com a vida política e social estadunidense.

Mas nem todos estão imaginando isso. “Os bandidos estão vencendo”, adverte Anne Applebaum em um artigo recente para a revista The Atlantic. Ela descreve a emergência de Estados autoritários em todo o mundo, incluindo a Rússia de Vladimir Putin, e lamenta que, nos Estados Unidos, “uma parte da esquerda estadunidense tenha abandonado a ideia de que a 'democracia' pertence ao coração da política externa dos Estados Unidos – não por ganância e cinismo, mas por uma perda de fé na democracia na própria casa”.

De acordo com essa análise, o entusiasmo enfraquecido dos Estados Unidos em tornar o mundo seguro para a democracia abriu caminho para os autocratas contemporâneos. E eles estão acelerando.

Os Estados Unidos não devem abandonar uma política externa que promova a livre autodeterminação em todo o globo. Mesmo assim, aqueles céticos que Applebaum descreve – pessoas que perderam a fé na democracia na própria casa – podem estar no caminho certo.

Depois de 20 anos de guerra no Afeganistão, os Estados Unidos se beneficiariam de um humilde exame de consciência sobre uma tendência de insistir em refazer o mundo à imagem do próprio país. E mesmo que as potências da Otan defendam um aliado democrático na Ucrânia e Volodymyr Zelensky emerja como um herói democraticamente eleito, há indicações de que, dentro do país, a vitalidade da democracia estadunidense diminuiu.

No Texas, Arizona e outros Estados, mais de 440 projetos de lei foram apresentados desde a última eleição presidencial, que buscariam restringir o acesso à votação para grupos específicos. Ao mesmo tempo, o partidarismo só tornou ainda mais difícil para o Congresso governar: por exemplo, Joe Manchin, o senador democrata da Virgínia Ocidental, foi difamado por falta de lealdade partidária por causa da sua determinação em ouvir as pessoas que votaram nele.

O discurso político dos Estados Unidos tem sido infiltrado nos últimos anos por esforços russos de desinformação, que se aproveitaram das divisões sociais já existentes para frustrar a política estadunidense com uma paralisia polarizada, destinada a fazer a democracia parecer fraca. Mas é muito fácil culpar a interferência externa. A perda de fé na democracia é totalmente estadunidense e nativa.

Neste momento de agudo perigo geopolítico, é difícil aceitar que o nosso próprio compromisso com a democracia está mais instável do que muitos de nós gostariam. Nossos compromissos democráticos falhos não necessariamente desqualificam os Estados Unidos como um defensor global da democracia e da paz, mas podem significar que a crise autoritária no exterior não é algo para o qual os estadunidenses possam apontar o dedo sem primeiro enfrentar a crise política dentro de casa.

Hoje, em 2022, a America First Political Action Conference aplaude o presidente russo, e Tucker Carlson, apresentador da Fox News, repetiu Putin quando descreveu a Ucrânia no mês passado como “um Estado cliente do Departamento de Estado”. Novamente, não é um fenômeno completamente novo nos Estados Unidos: em 1939, 20.000 estadunidenses participaram de um comício nazista no Madison Square Garden. Nosso corpo político tem lutado consistentemente para abraçar as mais altas aspirações cívicas dos ideais políticos estadunidenses.

Há também desafios que são completamente contemporâneos. A complexidade do cenário midiático e os instrumentos tecnológicos usados para espalhar desinformação criam riscos sem precedentes.

Há motivos para otimismo. Putin não conseguiu obter um controle rápido sobre a Ucrânia, mas conseguiu lembrar ao mundo que a autocracia de uma nação pode eventualmente se tornar um problema global e que o mundo ganha muito com a segurança fornecida pelos Estados Unidos e seus aliados na Otan.

As democracias se excedem, e os Estados Unidos certamente não são uma exceção. Mas a ordem internacional baseada em regras criada pelas democracias trouxe mais paz e estabilidade do que as autocracias podem prometer.

A tentativa de Putin de destruir a Ucrânia tornou isso impossível de se negar. Por mais deprimentes que sejam as circunstâncias, talvez essa seja uma boa notícia. O que está em jogo dentro da própria casa e em todo o mundo nunca foi tão claro.

Apesar de sermos um povo imperfeito, o valor de buscar essa “união mais perfeita” juntos deveria ser algo sobre o qual todos nós podemos concordar.

 

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