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02 Setembro 2022

O presidente alemão Steinmeier aponta o dedo contra o Patriarcado de Moscou. Resposta imediata e dura do Metropolita Antonij.

A reportagem é publicada por Il sismografo, 01-09-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

Começou ontem em Karlsruhe, na Alemanha, a 11ª Assembleia do Conselho Ecumênico de Igrejas (CEI/WCC), órgão que representa cerca de 580 milhões de pessoas de fé cristã em mais de 120 países e reúne mais de 350 igrejas cristãs.

Muitos temas já foram abordados nas várias intervenções, que correspondem às expectativas que os organizadores colocam nessa assembleia global: do clima à pobreza, das guerras à unidade das igrejas cristãs.

“Esta Assembleia assume uma importância semelhante à primeira, datada de 1948, comentou o secretário geral interino do CEI, padre Ioan Sauca. Na época o mundo saia do drama de um conflito total e devastador; hoje vivemos uma infinidade de conflitos, alguns muito conhecidos, outros esquecidos. Precisamos de um novo começo, precisamos de palavras de esperança para alcançar uma reconciliação entre os povos”.

O conflito na Ucrânia parece ser a referência mais premente, inclusive nas perguntas dos jornalistas presentes no local e virtualmente. Questionado sobre qual o papel que o Conselho Ecumênico possa desempenhar no diálogo entre as partes e o pedido de explicações sobre a não expulsão da Igreja Ortodoxa Russa do CEI pelo apoio dado à guerra engendrada por Moscou, as palavras do padre Sauca são claro: "Recebemos vários pedidos nesse sentido, mas a comissão central do CEI reafirmou o desejo de fazer do nosso órgão um espaço de diálogo livre, de forma que a expulsão não foi aprovada.

Fui pessoalmente para a Ucrânia nas últimas semanas para garantir que os representantes das igrejas locais estivessem presentes aqui em Karlsruhe, e também encorajei a presença da delegação russa. O que importa não é a nossa opinião pessoal, mas que as partes envolvidas se encontrem.

O discurso pode ser estendido a várias outras situações de crise no mundo, do Sudão à Palestina, até às Coreias, para citar apenas algumas. Naqueles dias que antecederam o início dos trabalhos, vi os delegados ucranianos e russos comendo juntos em torno de uma mesma mesa, em privado o diálogo começou imediatamente. Política e religião agora os dividem, mas nós continuamos sendo uma plataforma de encontro e este é o primeiro lugar em que acontece para as igrejas russa e ucraniana, desde o início da guerra. Vamos dar espaço ao diálogo e vamos ver o que acontece”.


Presidente alemão Steinmeier


O Presidente da República Federal da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, não é da mesma opinião. O Chefe de Estado alemão, convidado a discursar na abertura dos trabalhos ontem, questionou-se sobre a participação de representantes da Igreja Ortodoxa Russa nesta Assembleia do CEI. Em seu discurso publicado em inglês no site do CMI, o presidente Steinmeier disse:

"Os líderes da Igreja Ortodoxa Russa estão atualmente guiando seus membros e toda a sua igreja por um caminho perigoso e realmente blasfemo que vai contra tudo em que acreditam.

Estão justificando uma guerra de agressão contra a Ucrânia, contra os seus irmãos e irmãs de fé e os nossos. Temos de nos pronunciar, inclusive aqui neste lugar, nesta Assembleia, contra esta propaganda que visa a liberdade e os direitos dos cidadãos de um outro país, este nacionalismo, que arbitrariamente afirma que os sonhos de hegemonia imperial de uma ditadura são a vontade de Deus. Quantas mulheres, homens e crianças, mesmo na Ucrânia, se tornaram vítimas desse ódio e dessa violência criminosa!

Bombardeios totais e ataques a prédios civis, condomínios, hospitais, shopping centers, estações e espaços públicos, crimes de guerra que acontecem sob os olhos do mundo: aqui, hoje, não se pode calar sobre essa questão. Devemos chamá-la pelo nome, devemos denunciá-la e, por último, mas não menos importante, como comunidade cristã, devemos expressar nosso empenho pela dignidade, a liberdade e a segurança do povo ucraniano. Gostaria de aproveitar esta oportunidade para transmitir uma saudação específica e sincera às delegações das igrejas na Ucrânia - e espero que deste encontro eles possam extrair força e apoio para suas igrejas e congregações que sofrem em casa.

Há também representantes da Igreja Ortodoxa Russa aqui hoje. O fato de que eles estejam aqui não é algo que devemos dar como ponto pacífico nos dias de hoje. Espero que esta Assembleia não os poupe da verdade sobre essa guerra brutal e das críticas ao papel de seus líderes eclesiásticos. Sim, cada vez mais os cristãos são chamados a ser construtores de pontes. Esta é e continua a ser uma das nossas tarefas mais importantes. Mas construir pontes exige vontade de ambos os lados do rio; uma ponte não pode ser construída se um lado derrubar os pilares que a sustentam.

Em vista da Assembleia, foi expressa a opinião de que pelo menos o diálogo deveria ser tornado possível. Sim, mas o diálogo não é um fim em si mesmo. O diálogo deve trazer à luz o que está acontecendo. O diálogo deve chamar a atenção para a injustiça, deve identificar tanto as vítimas quanto os algozes e seus capangas. No entanto, um diálogo que não vá além de devotos desejos e generalizações vagas pode, na pior das hipóteses, tornar-se uma plataforma para reivindicação e propaganda. Que tipo de diálogo teremos aqui? Esta é a escolha que esta Assembleia deve fazer, e a posição da Alemanha - falo aqui também em nome do governo federal - é clara.

Hoje também quero lembrá-los que centenas de sacerdotes ortodoxos russos se empenharam na resistência pública e se posicionaram contra a guerra, apesar das ameaças do regime de Putin. Agora quero dirigir-me também a essas pessoas corajosas, cujo exemplo nos recorda a responsabilidade das religiões pela paz: mesmo que não possam participar desta Assembleia e falar-nos hoje, estamos vos ouvindo! Que a sua voz possa encontrar eco também nesta Assembleia.

A liderança da Igreja Ortodoxa Russa alinhou-se com os crimes da guerra contra a Ucrânia. Essa ideologia totalitária, disfarçada de teologia, levou à destruição total ou parcial de muitos locais religiosos no território ucraniano: igrejas, mesquitas, sinagogas, escolas e edifícios administrativos pertencentes a comunidades religiosas. Nenhum cristão que ainda esteja de posse de sua fé, de sua mente e de seus sentidos poderá ver nisso a vontade de Deus. Tudo fundamentalmente contradiz o terceiro símbolo do logo da Assembleia, a cruz.


Resposta imediata da Igreja Russa


Após as acusações e palavras muito claras do presidente alemão Steinmeier, já à noite (ontem) chegou um comentário do Metropolita Antonij de Volokolamsk, chefe da delegação da Igreja Ortodoxa Russa à XI Assembleia da Conselho Ecumênico das Igrejas:

Em 31 de agosto, na sessão de abertura da Assembleia, o Presidente da Alemanha F.-W. Steinmaier dirigiu-se aos participantes do fórum que em seu discurso questionou a importância da participação de uma delegação da Igreja Ortodoxa Russa na Assembleia do CEI.

O discurso do Presidente da Alemanha continha acusações completamente infundadas, ignorando completamente todos os esforços humanitários realizados pelo Patriarcado de Moscou no contexto do confronto na Ucrânia, bem como um claro pedido de que a Assembleia do CEI condenasse a Igreja Ortodoxa Russa.

Acredito que o posicionamento do Sr. Steinmaier é um exemplo de brutal pressão exercida por um alto representante do poder estatal sobre a mais antiga organização ecumênica. É uma ingerência nos assuntos internos do Conselho Ecumênico das Igrejas, uma tentativa de questionar a natureza pacificadora e politicamente neutra de seu trabalho.

É interessante notar que o secretário interino do CEI, padre Ioan Sauca, que falou diante do presidente, em vez disso, enfatizou a importância da presença dos representantes do Patriarcado de Moscou na Assembleia, pois isso está na própria natureza do maior grupo ecumênico, organização chamada a promover o diálogo, a paz e o entendimento mútuo.

Essa posição expressa publicamente da liderança do Conselho Ecumênico das Igrejas, bem como os numerosos discursos feitos pelos delegados da Assembleia do CEI da Alemanha e outros estados à delegação da Igreja Ortodoxa Russa mostram que as acusações do Presidente da Alemanha para a Igreja não tiveram o apoio que ele esperava.

Espero que o Conselho Ecumênico de Igrejas continue sendo uma plataforma independente de diálogo que não segue em seu trabalho uma ordem política parcial de Estados particulares, mas sim o objetivo de afirmar a paz e a harmonia.

(Informações: Riforma.it, WCC, mospat.ru, DW).


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