Guerra na Ucrânia: problema ecumênico

Mais Lidos

  • A guerra entre os cardeais católicos

    LER MAIS
  • O Papa substitui Ouellet e nomeia um bispo peruano para a Congregação dos Bispos

    LER MAIS
  • Empresários percebem que país já não pode se submeter às forças armadas. Entrevista com Fabio Konder Comparato

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


Revista ihu on-line

Zooliteratura. A virada animal e vegetal contra o antropocentrismo

Edição: 552

Leia mais

Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

Edição: 551

Leia mais

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

24 Agosto 2022

 

O presidente do Grupo de Trabalho de Igrejas Cristãs, o arcipreste ortodoxo grego Radu Constantin Miron, vê a guerra na Ucrânia como um "desafio ecumênico". Na entrevista ao katholisch.de ele fala sobre o conflito e as tensões que atualmente agitam a ortodoxia e os efeitos que a guerra na Ucrânia pode ter no ecumenismo.

 

A entrevista é de Christoph Bruwer, publicada por Settimana News, 23-08-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis a entrevista.

 

Arcipreste Miron, a guerra dura na Ucrânia há várias semanas e o Patriarca russo-ortodoxo Kirill I tem sido criticado repetidamente - especialmente no Ocidente - por se colocar ao lado de Putin e legitimar também religiosamente a guerra. Como o senhor, como ministro ortodoxo, se sente ao ouvir essas afirmações?

 

Você pode imaginar que esses são os piores momentos na vida de um cristão ortodoxo e em qualquer caso de um ministro. O front atravessa a nossa Igreja, é preciso dizer.

 

Nasci e cresci na Alemanha Ocidental e sempre tivemos o problema de que uma parte de nossa Igreja vivia na falta de liberdade, portanto não podia se expressar ou tinha que falar de forma diferente do que se esperava. Na verdade, eu pensei que este tempo tinha acabado. Agora percebo muito dolorosamente que não é assim.

 

O senhor diz que o front atravessa a sua Igreja. Como descreveria o estado de espírito presente na Igreja Ortodoxa neste momento?

 

Caracteriza-se por uma grande falta de homogeneidade. Muitos de meus irmãos e irmãs cristãos ortodoxos vivem atrás da nova cortina de ferro da falta de liberdade de informação e consomem as notícias à medida que são veiculadas, dificultando a sua compreensão. Aqui, graças a Deus, vivemos em uma sociedade que é se confronta também com as fake news, mas pelo menos podemos identificá-las como tais.

 

Essa tensão existe há tempo ou há novos desenvolvimentos?

 

Existe essa maneira de narrar o chamado mundo russo: Russkij Mir que, traduzido, também pode significar "paz russa" e, portanto, soa ainda mais cínico. Por vários anos, a ideia desse "mundo russo" foi propagandeada pelas mídias estatais russas inventando uma atitude vitimista: não somos entendidos, não somos aceitos, devemos defender os nossos valores.

 

Há claramente círculos na Rússia que agora consideram essa narrativa ainda mais plausível. Claro que não é um desenvolvimento novo, mas é certamente inesperado em sua intensidade e em sua ênfase religiosa cada vez mais evidente.

 

O senhor acha que a unidade na Ortodoxia como um todo esteja em perigo?

 

Naturalmente temos uma crise na ortodoxia que reina há vários anos. Tudo começou com a recusa claramente motivada politicamente da Igreja Ortodoxa Russa e de outras igrejas em participar do Grande e Santo Concílio de Creta em 2016. Isso foi uma surpresa na época. Em retrospectiva, procurou-se depois compreender e explicar essa atitude.

 

Depois de 24 de fevereiro de 2022, penso que se possa dizer que certamente houve uma influência política na Igreja, especialmente na Rússia. Mas também estou convencido de que a ortodoxia é algo mais do que a má conduta ou o percurso particular de pessoas individuais.

 

O senhor também é o presidente do Grupo de Trabalho de Igrejas Cristãs na Alemanha. A Assembleia Geral, numa declaração, condenou veementemente a invasão russa. Por que era tão importante?

 

Tivemos um diálogo muito bom e aberto no Grupo de Trabalho das Igrejas Cristãs na Alemanha. Houve vozes diferentes em relação à necessidade de uma declaração, mas não na avaliação da situação em geral. Alguns disseram: é necessário continuar a condenar algo que já foi condenado por tantos comitês e órgãos?

 

A resolução, aprovada por unanimidade, mostrou que é um privilégio da Igreja também ser testemunha da verdade. Fatos tão cruéis não podem ser adoçadas e a guerra, a invasão e a injustiça devem ser chamadas por seus nomes. As igrejas fizeram isso e, ao mesmo tempo, disseram claramente que não fecharíamos as portas para nossos irmãos e irmãs ortodoxos russos. Fazem parte do ecumenismo e nós os apreciamos como interlocutores, porque acreditamos que podem falar livremente, pelo menos aqui no Ocidente.

 

É sempre fácil dar conselhos vivendo no conforto da liberdade, mas não devemos negar aos nossos irmãos e irmãs o direito de pensar e falar também aqui. É claro que, como Grupo de Trabalho das Igrejas Cristãs na Alemanha, também somos contrários a qualquer forma de russofobia.

 

Houve algum problema de voto ou contestações antes da aprovação da declaração? As Igrejas Ortodoxas Russas subordinadas ao Patriarcado de Moscou também pertencem ao Grupo de Trabalho das Igrejas Cristãs na Alemanha...

 

A Igreja Ortodoxa Russa, que pertence ao Patriarcado de Moscou, faz parte da delegação da Conferência Episcopal Ortodoxa na Alemanha. Portanto, não é um membro autônomo e, por isso, não poderia ser excluída de forma alguma, como alguns pedem.

 

Desde 2018, a delegação russo-ortodoxa não participou mais dos encontros da Conferência Episcopal Ortodoxa na Alemanha e do Grupo de Trabalho das Igrejas Cristãs na Alemanha, devido às tensões intraortodoxas. A palavra-chave é sempre a Ucrânia. No entanto, a Igreja Ortodoxa Russa ainda é membro da Conferência Episcopal Ortodoxa e ainda há conversas com seus representantes. Ainda somos uma só Igreja.

 

O senhor tem a percepção de que a guerra na Ucrânia tenha uma influência fundamental no ecumenismo na Alemanha?

 

Este momento decisivo é uma situação completamente nova para todos nós e afeta todos os setores. É claro que esta é uma situação completamente nova, até mesmo para as Igrejas que estão muito empenhadas no trabalho de pacificação, e também muda as relações das Igrejas entre si. Eu não diria que as relações se deterioraram, mas mais atenção é dada às palavras e ao que se pode ser feito em conjunto.

 

Um efeito colateral positivo é que redescobrimos a solidariedade cristã e ecumênica. Nunca recebi tantos pedidos para a celebração de ritos litúrgicos ortodoxos como nas últimas semanas.

 

Em que medida as igrejas cristãs podem contribuir para a superação dos conflitos?

 

No que me diz respeito, posso dizer que estou muito interessado em entrar em diálogo com as Igrejas que gostam de se denominar Igrejas da Paz. Discussões importantes estão em andamento neste momento sobre a ética da paz, independentemente de se tratar de armas para a Ucrânia ou da visão de um mundo de paz.

 

Em agosto e setembro teremos a Assembleia do Conselho Ecumênico de Igrejas (CEC). O mundo inteiro virá a Karlsruhe. Também os representantes e as representantes das Igrejas dos países do Sul do mundo que têm uma visão completamente diferente deste conflito na Europa.

 

Como Igrejas, estamos particularmente envolvidos neste conflito. Isso também vale para a Igreja Católica Romana, que não é membro do Conselho Ecumênico de Igrejas, mas que está muito empenhada em termos de ética da paz e de diplomacia. Este é realmente um desafio ecumênico.

 

Leia mais

 

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Guerra na Ucrânia: problema ecumênico - Instituto Humanitas Unisinos - IHU