“O teísmo, como modo de definir Deus, está morto”. A fé cristã na ressurreição e a crise da linguagem religiosa na pós-modernidade

"Ciclo de Estudos: O cristianismo no contexto das transformações socioculturais e religiosas contemporâneas", promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, debate "A fé cristã na ressurreição e a crise da linguagem religiosa na pós-modernidade"

Foto: Moisés Becerra | Cathopic

Por: Patricia Fachin | 21 Mai 2022

 
Entre as teses e hipóteses dos teólogos que se ocupam das reflexões sobre o anúncio do Deus uno e trino em um mundo pós-teísta, a do anglicano John Shelby Spong, ex-bispo da Diocese de Nova Jersey, Igreja Episcopal dos Estados Unidos, falecido no ano passado, é peculiar. Ela propõe rediscutir a fé cristã à luz do nascimento de Jesus e sua ressurreição, questionando e dando aos fatos não somente uma nova interpretação, mas sugerindo a introdução de novos elementos para tratar da divindade de Cristo, de tal modo que esses mistérios possam fazer sentido para as pessoas do século XXI.

 

A tese foi exposta por Ferdinando Sudati, teólogo italiano e presbítero na Diocese de Lodi, na Lombardia, em entrevista concedida ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU em 2018: "A tese cristológica de Spong é uma consequência direta da primeira das suas teses: 'O teísmo, como modo de definir Deus, está morto. Não podemos mais compreender Deus, de maneira crível, como um ser de poder sobrenatural, que vive no mais alto dos céus e pronto para intervir periodicamente na história humana, para que se cumpra sua divina vontade. Por isso, hoje, a maior parte das coisas que se diz sobre Deus não faz sentido. É preciso uma nova maneira de conceituar Deus e de falar sobre isso.'"

 

 

 

Enquanto cresce o número de jovens que se dizem "sem religião" – tal como aponta a recente pesquisa Datafolha nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro –, compreendidos, segundo a cientista social e professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Silvia Fernandes, como aqueles que estão "afastados das instituições religiosas, mas podem ter uma visão de mundo e até mesmo práticas pessoais informadas por crenças religiosas”, Spong argumentou que se o cristianismo continuar a falar de "Jesus, Deus teísta", "deixará as mulheres e os homens de nosso tempo cada vez mais indiferentes".

 

Compreendendo "Jesus, Deus teísta" como um "conceito", Spong propôs uma nova forma de falar sobre Deus no mundo pós-teísta. Nas palavras de Sudati, trata-se de "recuperar o conceito de 'divindade' de Jesus, se quisermos manter esta palavra como boa, sobre o pano de fundo do panenteísmo, interpretado de forma moderna, mas certamente não seria mais aquela de antes, estabelecida em Niceia e Calcedônia, e nem mesmo aquela dos documentos do Vaticano, como na Declaração Dominus Iesus (2000) e, ainda mais perto de nós, da carta aos bispos Placuit Deo (2018)".

 

Este debate gira em torno dos desafios do cristianismo para se adaptar à modernidade e sobre até que ponto ele precisa se submeter à lógica que opera na modernidade e, mais ainda, na ciência, para se tornar crível ou aceitável, e de como é possível anunciar o Evangelho especialmente para aqueles que lhe são indiferentes. Como aponta Sudati, "certamente, não devemos cultivar uma ideia ingênua da modernidade, que não é asséptica, e nem mesmo boa, inocente e compreensiva por tendência espontânea. A modernidade é a mudança epocal em que nos encontramos hoje, e da qual devemos nos tornar conscientes. O que define a modernidade não é alguma coisa flutuante e sem força de vontade, mas o que de mais sólido e confiável hoje dispõem os seres humanos sobre a terra, ou seja, um conhecimento científico, extremamente avançado em áreas como astronomia, cosmologia, paleoantropologia, ao que devemos acrescentar pelo menos a psicologia e a pesquisa filosófica: é isso que nos obriga a repensar nossa visão religiosa e até mesmo a reformular nosso credo".

 

 

Segundo ele, "embora por sua natureza também o saber científico esteja constantemente em mudança, ele realmente não regride, mas se corrige, se implementa e avança, e é o único capaz de sugerir – não diretamente, não sendo sua tarefa – como recidiva de suas descobertas, possíveis alterações ao nosso sistema de religião, especialmente à nossa concepção de Deus. Afinal, sempre foi assim, e isso consentiu de corrigir coisas indecentes que dissemos de Deus ou a ele atribuímos em diferentes épocas. A história cultural da humanidade ensina que 'nenhum conceito agonizante de Deus jamais ressuscitou'", observa, fazendo referência às ideias de Spong.

 

 

Com o propósito de participar deste debate, a fim de "apontar perspectivas a respeito das possibilidades, chances e desafios para apresentar a pessoa de Jesus Cristo, com sua mensagem, de forma que faça sentido hoje", especialmente em um contexto em que os "estudos, pesquisas e análises sobre as religiões cada vez mais tratam de reconhecer que as grandes transformações em andamento no mundo atual, nas mais diversas esferas da vida pública, produzem impactos e transformações profundas também sobre as tradições religiosas em geral e sobre o cristianismo de modo particular", o Instituto Humanitas Unisinos – IHU está promovendo o "Ciclo de Estudos: O cristianismo no contexto das transformações socioculturais e religiosas contemporâneas". O evento está acontecendo através de conferências online até 01 de julho de 2022.

 

A próxima palestra será nesta quarta-feira, 25-05-2022, sobre "A fé cristã na ressurreição e a crise da linguagem religiosa na pós-modernidade", ministrada por Ferdinando Sudati. O evento será transmitido na página eletrônica do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, nas redes sociais e no Canal do IHU no YouTube às 10h. Ferdinando Sudati é o editor e responsável pela introdução da obra La nascita di Gesù tra miti e ipotesi, publicada na Itália pela Editora Massari, em 2018, de autoria de John Shelby Spong. Ele igualmente escreveu o prefácio do livro Gesù di Nazaret. Uomo come noi? (Jesus de Nazaré. Homem como nós?), publicado pela Gabrielli Editori no mesmo ano, cujo autor é Roger Lenaers, padre jesuíta, belga radicado em Insbruck, na Áustria.

 

Ferdinando Sudati (Foto: Reprodução do YouTube)

 

 

Especificamente sobre a crise da linguagem religiosa na pós-modernidade, Sudati chama a atenção para a proposta de Spong na compreensão da ressurreição de Cristo. Na obra publicada em 1994, intitulada "Resurrection: Myth or Reality? A Bishop's Search of the Origin's of Christianity", comenta, o teólogo parte do fato como sendo um gênero literário, marcado "pela presença de elementos simbólicos, parabólicos e mitológicos". Ele esclarece: "A palavra mito, aqui, não tem conotação pejorativa, mas apenas indica que, quando se trata de mitos, não estamos diante de acontecimentos reais ou históricos, mas de uma elaboração imaginativa, nascida nos tempos antigos, em culturas muito distantes da nossa, como tentativa de explicar os grandes mistérios do mundo e da vida humana. Os mitos são para nós um convite - e até mesmo um desafio - a descobrir o possível significado profundo existente por trás deles".

 

 

Apoiando-se no método histórico-crítico de leitura das Sagradas Escrituras, Sudati também enfatiza os desencontros informativos acerca da ressurreição nos Evangelhos. "Falando da ressurreição e, imediatamente antes, da sepultura de Jesus, o primeiro dado que se destaca são as evidentes divergências, as incongruências e até as contradições presentes nos relatos evangélicos. Além das poucas coisas em que concordam, ou seja, que o evento da Páscoa ocorreu no primeiro dia da semana, e que foi uma experiência que lhes deu uma nova compreensão de Jesus, tudo o mais é descrito com absoluta liberdade de adições e omissões". Ele acrescenta ainda que "Marcos e Lucas não dizem que as mulheres viram o ressuscitado na manhã da Páscoa, enquanto Mateus e João afirmam isso, embora de maneira diferente. Sobre os mensageiros da ressurreição, sobre o lugar, sobre os tempos e sobre as circunstâncias em que 'eles se encontravam' ou 'viram' o ressuscitado, não reina concordância. Ela varia de Jerusalém à Galileia, de um dia a quarenta dias. Apenas Lucas tem Jesus que, em uma aparição, pede comida (como prova de sua realidade 'física'?). E somente ele, mas em Atos, se dermos por certo que ele é o autor, fala de quarenta dias como um período de visibilidade do ressuscitado".

 

Por mais que as teses do teólogo anglicano Spong sejam radicalmente distintas do que é pregado pelo Papa Francisco diariamente em suas homilias e o método histórico-crítico não seja ignorado ou condenado pela Igreja, mas visto como mais um elemento que contribui para o desenvolvimento da fé, Sudati lembra que Spong estava "muito preocupado com a sobrevivência do cristianismo, e em como apresentar a pessoa e a mensagem de Jesus em palavras que fazem sentido para o homem de hoje. É óbvio que não apenas para oferecer algo para os outros, uma vez que a primeira exigência é de compreender novamente Jesus para si mesmo, e, mais geralmente, para refundar a própria fé nas coordenadas da modernidade e da pós-modernidade".

 

A peregrinação dos Magos

 

Enquanto no plano intelectual os teólogos buscam coadunar a existência do Deus teísta e seu anúncio com o desenvolvimento das ciências e o "progresso científico", preocupados igualmente com a crise do cristianismo, o crescimento de "jovens sem religião", de uma espiritualidade difusa, e com o desenvolvimento de uma linguagem religiosa que possa ser expressa na pós-modernidade, o Papa Francisco dirige-se àqueles que desejam ter uma experiência religiosa com o Deus uno e trino, retomando e reiterando os fato da encarnação e da ressurreição. Em sua homilia na Festa da Epifania do Senhor deste ano na Basílica de São Pedro, ele lembrou a viagem dos Magos para Belém, apesar de todo o conhecimento, sabedoria e dinheiro que possuíam à época, como exemplo de que também nós, hoje, apesar de todo o progresso científico, podemos nos interpelar sobre o sentido da nossa existência e da nossa relação com Deus.

 

 

"Qual foi o ponto de partida da peregrinação dos Magos ao encontro de Jesus? O que é que levou estes homens do Oriente a porem-se em viagem? Tinham ótimas desculpas para não partir: eram sábios e astrólogos, tinham fama e riqueza; de posse duma tal segurança cultural, social e econômica, podiam acomodar-se no que tinham e sabiam, deixando-se estar tranquilos. Mas não; deixam-se inquietar por uma pergunta e um sinal: 'Onde está Aquele que nasceu? Vimos despontar a sua estrela' (Mt 2, 2). O seu coração não se deixa amortecer na choça da apatia, mas está sedento de luz; não se arrasta pesadamente na preguiça, mas está abrasado pela nostalgia de novos horizontes. Os seus olhos não estão voltados para a terra, mas são janelas abertas para o céu. Como afirmou Bento XVI, eram 'pessoas de coração inquieto (...); homens à espera, que não se contentavam com seus rendimentos assegurados e com uma posição social (...); eram indagadores de Deus'", disse.

 

 

Estes homens, continuou o pontífice, foram impulsionados por um desejo interior de "saber desejar". "Meditemos nisto. Desejar significa manter vivo o fogo que arde dentro de nós e nos impele a buscar mais além do imediato, mais além das coisas visíveis. Desejar é acolher a vida como um mistério que nos ultrapassa, como uma fresta sempre aberta que nos convida a olhar mais além, porque a vida não é 'toda aqui', é também 'noutro lugar'. É como uma tela em branco que precisa de ser colorida. Um grande pintor, Van Gogh, escreveu que a necessidade de Deus o impelia a sair de noite para pintar as estrelas (cf. Carta a Theo, 09/V/1889). Isto deve-se ao facto de Deus nos ter feito assim: empapados de desejo; orientados, como os Magos, para as estrelas."

 


A Noite Estrelada, de Van Gogh (Foto: WahooArt)

 

 


Noite Estrelada Sobre o Ródano, de Van Gogh (Foto: Reprodução)

 


Desaparecimento do desejo de Deus

 

Na avaliação do papa, apesar das novas formas de religiosidade e espiritualidade que marcam a nossa era, somos igualmente marcados por uma crise de fé no Deus uno e trino. "Na nossa vida e nas nossas sociedades, a crise da fé tem a ver também com o desaparecimento do desejo de Deus. Tem a ver com a sonolência do espírito, com o hábito de nos contentarmos em viver o dia a dia, sem nos interrogarmos acerca daquilo que Deus quer de nós. Debruçamo-nos demasiado sobre os mapas da terra, e esquecemo-nos de erguer o olhar para o céu; estamos empanturrados com muitas coisas, mas desprovidos da nostalgia do que nos falta. Nostalgia de Deus. Fixamo-nos nas necessidades, no que havemos de comer e vestir (cf. Mt 6, 25), deixando dissipar-se o anseio por aquilo que o ultrapassa. E deparamo-nos com a bulimia de comunidades que têm tudo e muitas vezes já nada sentem no coração. Pessoas fechadas, comunidades fechadas, bispos fechados, padres fechados, consagrados fechados. Porque a falta de desejo leva à tristeza, à indiferença. Comunidades tristes, padres tristes, bispos tristes", observou na mesma homilia durante a Festa da Epifania do Senhor.

 

 

O pontífice convidou cada um de nós a comparar o seu caminho pessoal com a fé dos Magos naquela noite. "No ponto culminante da viagem dos Magos, porém, há um momento crucial: tendo chegado ao destino, viram o Menino e 'prostrando-se adoraram-No' (2, 11). Adoram. Lembremo-nos disto: a viagem da fé só encontra ímpeto e cumprimento na presença de Deus. Só se recuperarmos o gosto da adoração é que se renova o desejo. O desejo leva-te à adoração e a adoração renova em ti o desejo. Porque o desejo de Deus cresce apenas permanecendo diante de Deus. Porque só Jesus cura os desejos. De quê? Cura-os da ditadura das necessidades. Com efeito, o coração adoece quando os desejos coincidem apenas com as necessidades; ao passo que Deus eleva os desejos e purifica-os; cura-os, sanando-os do egoísmo e abrindo-nos ao amor por Ele e pelos irmãos. Por isso, não esqueçamos a Adoração, a oração de adoração que é pouco comum entre nós: adorar, em silêncio. Por isso não esqueçamos a adoração, por favor."

 

Se tivermos disposição de fazer o caminho dos Magos em nossa vida pessoal, sublinhou, "teremos a certeza de que, mesmo nas noites mais escuras, brilha uma estrela. É a estrela do Senhor, que vem cuidar da nossa frágil humanidade. Ponhamo-nos a caminho rumo a Ele. Não demos à apatia e à resignação a força de nos cravar na tristeza duma vida medíocre. Abramo-nos à inquietude do Espírito, corações inquietos. O mundo espera dos crentes um renovado ímpeto para o Céu. Como os Magos, levantemos a cabeça, ouçamos o desejo do coração, sigamos a estrela que Deus faz brilhar sobre nós. E como indagadores inquietos, permaneçamos abertos às surpresas de Deus. Irmãos e irmãs, sonhemos, procuremos, adoremos".

 

Conferencistas do Ciclo de Estudos: O cristianismo no contexto das transformações socioculturais e religiosas contemporâneas

 

Na página do evento "Ciclo de Estudos: O cristianismo no contexto das transformações socioculturais e religiosas contemporâneas" estão disponíveis as conferências ministradas até o momento:

 

1) Crer em Deus. A fé cristã num mundo pós-teísta. Conferência com Jesús Martínez Gordo:

 

 

2) A crise do cristianismo e o poder sedutor do Evangelho. A existência cristã no mundo contemporâneo. Conferência com José María Castillo:

 

 

 

3) O futuro do cristianismo: o encontro entre evangelho e religião. Conferência com Eduardo Hoornaert:

 

 

 

4) A questão de Deus num contexto pós-teísta. Conferência com José María Vigil:

 

 

As próximas conferências previstas são as seguintes:

 

(Re)Pensar Deus em um paradigma pós-teísta, em 07-06-2022, às 10h, com Santiago Villamayor, formado em Filosofia pela Universidad de Valencia, Espanha. Villamayor integra o grupo de pesquisa sobre pós-religião e pós-teísmo surgido depois da publicação do livro de Roger Lenaers, “Jesús de Nazaret ¿Una persona como nosotros”

 

 

"A Teologia cristã em paradigma pós-teísta", em 15-06-2022, às 10h, ministrada por Paolo Gamberini, doutor em Teologia pela Philosophisch-theologische Hochschule “Sankt Georgen”, Frankfurt, Alemanha. Gamberini leciona na Università La Sapienza, Roma, e é pesquisador na área de Teologia Sistemática, com especial enfoque em Cristologia, Doutrina da Trindade, Eclesiologia Ecumênica, Teologia do Diálogo Inter-religioso, Teologia Comparada das Religiões, Teologia Fundamental e Teologia Pós-teísta. 

 


Paolo Gamberini (Foto: ApertaMente)

  

 

"Desafios e oportunidades para as comunidades de fé numa sociedade pós-cristã", 24-06-2022, às 10h, com Fulvio Ferrario, doutor em Teologia e pesquisador nas áreas de História da Teologia (LuteroBarth e Bonhoeffer) e de Teologia Sistemática, a relação entre fé e razão e escatologia. Atualmente, Ferrario leciona na Faculdade de Teologia Valdese, Roma. 

 


Fulvio Ferrario (Foto: Reprodução do YouTube)

  

 

Mais informações sobre o "Ciclo de Estudos: O cristianismo no contexto das transformações socioculturais e religiosas contemporâneas" estão disponíveis aqui.

 

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