O debate sobre o “Deus que perdemos”: uma síntese

Foto: Cathopic

28 Agosto 2021

 

"A última intervenção é em Adista n. 30 de 7 de agosto de 2021, com o título O Deus que perdemos. Nesta ele retoma os argumentos de 16 de julho, mas abandona, ou melhor, não retoma mais o argumento do pós-teísmo que não dispensa o teísmo, mas o monoteísmo", escreve Antonio Greco, em artigo publicado por Manifesto4otobre, 05-08-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo. 

 

O debate sobre a pesquisa pós-religião e sobre Deus, pessoa ou não, tem sido até agora um tema de nicho. Uma pesquisa espiritual jovem, recém iniciada, pelo menos na Itália. Seus expoentes parecem companheiros de viagem de pessoas em busca e, por enquanto, apenas de pessoas cultas.

 

A publicação do quarto volume da série de Gabrielli Oltre Dio, in ascolto del mistero senza nome [1] (Para além de Deus, na escuta do mistério sem nome, em tradução livre) desencadeou um debate que esperamos ajude a tirar a pesquisa da concha em que estava encerrada e trazê-la ao conhecimento do maior número de pessoas possível.

 

 

Não vamos nos deter no último texto publicado por Gabrielli, mas no debate, ainda em curso, sobre um "antes" e um "depois" de Deus e da religião.

 

A discussão sobre o pós-teísmo começou com um dossiê de textos, recentemente trocados de forma extemporânea entre interlocutores cristãos, recolhidos por Enrico Peyretti (2-5 de julho de 2021) [2]. O dossiê é aberto por:

 

Beppe Pavan e sua excelente síntese

 

1. “Não há mais necessidade de um Deus pessoal e criador ... o pós-teísmo nos ajuda a superar as grandes narrativas míticas, e o dualismo, a partir do natural/sobrenatural... ".

 

2. “Não há mais nenhum Deus lá em cima”, responsável por cada folha que se move e, sobretudo, pelo bem e pelo mal.

 

3. A morte é vista como o mal extremo na vida individual. Claudia Fanti [3] sugere “abraçar a vida de uma nova forma”, ajudando-nos com as descobertas da física quântica, segundo a qual “a energia que nos faz viver não se destrói com a nossa morte, mas passa do cérebro individual que morre para o cosmos”.

 

4. A oração, enfim: “Aquelas perguntas à divindade não fazem mais sentido, porque já estou no todo”.

 

 

Enrico Peyretti [4] e as suas perplexidades

 

Peyretti acredita que é correto superar um conceito metafísico de Deus.

 

Mas "a minha perplexidade sobre o pós-teísmo é, modestamente, esta: se perdermos em Deus o caráter pessoal, de um Tu vivo, com o qual temos relação de conhecimento, sim-patia (sentir-sofrer juntos), diá-logo, escuta e expressão, simplesmente perdemos Deus, todo Deus. Existe um ateísmo sério, que devemos valorizar. Um ateísmo de retorno, redutivo, é pequeno demais. Se Deus é apenas uma energia, uma força, eu que sou apenas "um vapor" (é sempre Pascal ...) sou mais do que ele, porque tenho consciência de pessoa".

 

 

Claudia Fanti, a primeira resposta

 

É necessário um “confronto paciente, atento, de longo prazo, sem barreiras autoritárias” sobre essa pesquisa.

 

“Se um ponto de consenso é dado pela exigência de superar a imagem tradicional de Deus, o que há precisamente depois dessa superação não pode estar claro para ninguém”.

 

 

Raniero La Valle [5], a crítica dura

 

“Caríssimo Enrico, você tem razão: se perdemos em Deus o caráter pessoal, perdemos simplesmente Deus, todo Deus. E então por que ainda nos chamamos de cristãos? Um abraço, Raniero”.

 

Gilberto Squizzato [6], teólogo não acadêmico

 

Em sua intervenção concorda com o texto Oltre Dio. E argumenta, em diálogo com Peyretti:

 

“Tive que me medir por muito tempo com o medo ligado à renúncia à imagem de Deus que nos foi transmitida por dezessete séculos de doutrina.

 

Parece claro que renunciar a toda imagem do divino (e a cada palavra sobre ele) não significa revogá-la e apagá-la de nosso horizonte, mas apenas, humildemente, renunciar a qualquer pretensão de defini-lo e convocá-lo obrigatoriamente para fazer parte de nosso dicionário mental como palavras entre as outras palavras.

 

A palavra “Deus” tem função fática [7] e nunca descritiva, muito menos doutrinária (ou seja, de ensinamento).

 

God, "Invocado", é portanto uma palavra lançada na direção do Desconhecido. Você acha que podemos dar à palavra “deus” outra função que não a de expressar, por meio de metáfora, o destinatário de nossa invocação, sentindo-o como o não-dizível, isto é, o Inefável?

 

Você vai rebater que podemos conhecer "o deus" porque Jesus - como os Evangelhos afirmam - o revelaram para nós como "o Pai".

 

 

Aquela imagem de "Pai" usada por Jesus não sofreria talvez uma derrota inegável, trágica, definitiva, justamente na cruz?

 

Mas que cristãos somos, se queremos ser mais do que Cristo, que não foi bem sucedido no Gólgota? Não é mais cristão lançar o nosso grito, como ele, sem pretensões que queiram ir além da nossa medida?

 

Você argumenta que, se tirarmos de Deus o caráter de pessoa, simplesmente anulamos Deus. Não concordo com isso.

 

Eckart, que já setecentos anos atrás nos sinalizava que com qualquer imagem ou nome que pretendemos definir e chamar Deus, o tornamos "coisa entre as coisas", e com isso não apenas o objetificamos, mas também o empobrecemos, por assim dizer, para a posse presunçosa de nossas palavras. É por isso que hoje não sinto mais a necessidade, ou melhor, não tenho mais a pretensão de fazer do Inefável uma pessoa. Prefiro, portanto (mas isso só vale para mim e você tem o direito de seguir outro caminho sobre o qual não tenho o direito de expressar um juízo) parar no silêncio e contemplar o Silêncio do Indizível.

 

Por fim, não me sinto como outros pós-teístas tentado a tornar aceitável e compreensível hoje aquele "Deus", reconhecendo nele a Energia difundida por todo o universo. De fato, parece-me que com essa imagem não estamos longe da definição de Spinoza de "Deus sive Natura" que sinto não poder aceitar porque deveria aceitá-la como sinal de uma Sabedoria generalizada na matéria (vamos chamá-la também de quark, ondas gravitacionais, partículas elementares que reverberam no emaranhado em todos os lugares, etc. etc.) também toda a crueldade (incluindo aquela humana).

 

Prefiro o silêncio da teologia apofática”.

 

Peyretti e sua breve nota final do dossiê

 

Se não fosse um Tu que fala, toda a Bíblia seria vã. Se não fosse uma pessoa comunicante, estaríamos na visão de Spinoza: Deus sive natura, como as inúmeras religiões de natureza personificada.

 

Se não fosse pessoa, não teria sentido a fé, a confiança e a resistência ao acaso e à maldade humana.

 

Se não fosse pessoa, não haveria a oração humana, o simples suspiro diante da empreitada da vida.

 

Se não fosse vivente, indizível, mas emergente internamente no coração de tudo, acima do nada que nos ameaça, sentiríamos o movimento para amar, respeitar, ajudar, favorecer, salvar os nossos semelhantes?

 

Raniero La Valle e suas três intervenções

 

A primeira (já relatada) é muito curta e corta pela raiz a pesquisa sobre o pós-teísmo: “se perdemos em Deus nosso caráter pessoal, perdemos simplesmente Deus, todo Deus. E então por que ainda nos chamamos de cristãos?" (no dossiê de 8 de julho).

 

Vale voltou ao tema com duas outras intervenções: disponível aqui. De 16 de julho de 2021:

 

"Por uma questão de clareza dos termos é preciso dizer que o que está sendo proposto não é o ateísmo, porque para o ateísmo nunca houve nenhum Deus, nem mesmo este agora dispensado. (...) Mas o Deus que agora é dispensado não é tanto aquele do teísmo, quanto na realidade é o Deus do monoteísmo, que destacando-se do magma das religiões primitivas e dos cultos panteístas que divinizavam as forças da natureza tais como o céu, a terra, o sol, a lua, a certa altura entrou para a história desta parte do mundo na área mediterrânea” (16 de julho).

 

A última intervenção é em Adista n. 30 de 7 de agosto de 2021, com o título O Deus que perdemos. Nesta ele retoma os argumentos de 16 de julho, mas abandona, ou melhor, não retoma mais o argumento do pós-teísmo que não dispensa o teísmo, mas o monoteísmo.

 

 

O número monográfico de ADISTA-Documenti

 

Por fim, vale a pena mencionar o número 29 de 31 de julho de 2021 de Adista-Documenti intitulado O sentido de “acreditar” no paradigma pós-teísta. O debate no livro "Oltre Dio". O número, muito interessante, contém a introdução de Claudia Fanti e, em relação ao dossiê de Peyretti, (resumido acima) é enriquecido pelo debate na Espanha sobre o tema e relata a polêmica entre o teólogo J.M. Castillo, e os pesquisadores dessa teologia pós-religião J. Arregi, J.M. Vigil e S. Villamayor [8].

 

Referências

[1] Oltre le religioni – UNA NUOVA EPOCA PER LA SPIRITUALITÀ UMANA..

[2] Dossier sul post-teismo. Disponível aqui.

[3] Curadora da série de Gabrielli, redatora de Adista, colaborador do Il Manifesto, especialista em movimentos eclesiais e sociais na América Latina, autora de inúmeros artigos e ensaios.

[4] Membro do Centro de Estudos Sereno Regis (Pesquisa, educação, ação pela paz, meio ambiente e sustentabilidade) de Turim, do Centro Interuniversitário Estudos pela Paz das Universidades Piemontesas, do IPRI (Italian Peace Research Institute). Fundador em 1971 da revista Il Foglio di Torino. Teólogo, colabora com várias revistas e é especialista em não violência.

[5] Famoso e histórico jornalista, político e intelectual italiano.

[6] Também jornalista, diretor e autor de televisão, leciona no Centro Experimental de Cinematografia de Milão.

[7] Nota minha: A função fática (do latim fari = pronunciar, falar) consiste naquela parte da comunicação que visa controlar o canal através do qual a comunicação se estabelece, com expressões que visam justamente verificar o seu funcionamento, como quando se fala ao telefone “alô”? ou se testam os microfones e os amplificadores antes de um show. O objetivo é estabelecer, manter, verificar ou interromper a comunicação.

[8] Também na Espanha, onde o mesmo livro, embora numa versão diferente, foi publicado com o título Después de Dios. Otro modelo es posible, não faltou um debate animado sobre o tema, a começar pelo ataque inesperado lançado pelo conhecido teólogo José María Castillo em seu blog "Teología sin censura" (disponível aqui, 29/4 ), depois redimensionado (disponível aqui, 17/5), ao qual responderam três dos autores do volume espanhol e italiano, José Arregi, José María Vigil (disponível aqui, 16/5, 17/5) e Santiago Villamayor (Atrio, 23/5).

 

 

Nota do Instituto Humanitas Unisinos – IHU

 

De 04 de junho a 10 de dezembro de 2021, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU realiza o XX Simpósio Internacional IHU. A (I)Relevância pública do cristianismo num mundo em transição, que tem como objetivo debater transdisciplinarmente desafios e possibilidades para o cristianismo em meio às grandes transformações que caracterizam a sociedade e a cultura atual, no contexto da confluência de diversas crises de um mundo em transição.

 

Na próxima segunda-feira, 02/08/2021, às 10h30min, a Profa. Dra. Tina Beatti, do Catherine of Siena College – Inglaterra, ministrará a conferência intitulada "Mulheres na vida da Igreja. Avanços e obstáculos no Pontificado de Francisco", que será transmitida na página do IHU, no canal do IHU no YouTube e também nas redes sociais

 

XX Simpósio Internacional IHU. A (I)Relevância pública do cristianismo num mundo em transição

 

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