Estupor, medo e alegria - A Ressurreição e a plenificação do ser humano

Artes: Aurélio Fred | Ateliê 15

Por: Wagner Fernandes de Azevedo | 12 Abril 2021

 

O relato do Evangelho de Marcos sobre a ressurreição é o mais antigo e o mais curto. A chegada das mulheres à tumba rompeu a expectativa dos desafios que enfrentariam para contemplar o crucificado. A rocha removida e o túmulo vazio as assustou e atemorizou. E assim foi e segue sendo mais uma Páscoa, como destacou o Papa Francisco na mensagem Urbi et Orbi do último domingo: “O anúncio de Páscoa não oferece uma miragem, não revela uma fórmula mágica, não indica uma via de fuga face à difícil situação que estamos a atravessar. A pandemia está ainda em pleno desenvolvimento; a crise social e econômica é muito pesada, especialmente para os mais pobres; apesar disso – e é escandaloso –, não cessam os conflitos armados e reforçam-se os arsenais militares. Isto é o escândalo de hoje”.

A dialética do espanto e da alegria são engrenagens que compõem mais uma esperança pascal em meio à pandemia. 

Nesta página reunimos alguns dos materiais publicados pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU cuja temática versa sobre a Ressurreição do Senhor.

 

 

 

Dentre os discípulos que testemunharam o Jesus ressuscitado, para o Papa Gregório Magno, foi Tomé, o incrédulo, quem mais contribuiu para a fé. A reflexão sobre a materialidade da Ressurreição, a qual na experiência e missão de Tomé vem da unicidade do morto-crucificado-ferido e a vida-ressuscitado, é o mote do artigo de Tomáš Halík, publicado pelo IHU em 2020.

No artigo, o padre tcheco provoca a reflexão sobre a vivência da fé em um mundo sofrido e ferido. A leitura a partir de Tomé parte desse encontro com a morte, ao "tocar a ferida", ele a conhece, e ao conhecer a morte, conhece a vida, do ressuscitado. Em meio à pandemia, a missão de Tomé torna-se ainda mais latente aos cristãos. "Não acredito em 'fé sem feridas', em uma igreja sem feridas, em um Deus sem feridas. Somente o Deus ferido através de nossa fé ferida poderia curar o nosso mundo ferido", escreveu Halík.

Encontrar a esperança da ressurreição em um mundo com tantas mortes é também um desafio de fé.

No 18º Ciclo de Páscoa IHU, que ocorreu virtualmente neste ano, o teólogo Cesar Kuzma discorreu sobre a Teologia da Cruz e a esperança cristã em meio à pandemia. Para Kuzma, o processo da Semana Santa vivenciado na pandemia é especial e necessário: "Todas as dores, sofrimentos, doenças, pecados e morte apontam para a cruz. Mas a cruz recebe tudo isso e transforma em vida, em ressurreição, abre o tempo para um espaço novo. Este é o sentido da Páscoa e este é o fundamento da nossa esperança. Não se trata de ignorar a cruz e o sofrimento, mas ao assumi-los criticamente, tentar ver além deles, no desabrochar de uma vida que não pode ser vencida, onde a morte já não existe e o sorriso enxuga toda lágrima".

O temor é confrontado também com a ação. A Ressurreição não é um fenômeno, uma efemeridade, um simples acontecimento. É, em sequência ao espanto, um chamado para ação, para seguir o anúncio e desde onde o amor e o mistério tocaram. A mensagem de Páscoa do Papa Francisco em 2014, reproduzida pelo no sítio do IHU, traz como centro a volta à Galileia, onde o ministério de Jesus iniciou, onde estava a vida comum: "Voltar à Galileia significa reler tudo a partir da cruz e da vitória. Reler tudo – a pregação, os milagres, a nova comunidade, os entusiasmos e as deserções, até a traição – reler tudo a partir do fim, que é um novo início, a partir deste supremo ato de amor. O Evangelho de Páscoa é claro: é preciso voltar lá, para ver Jesus ressuscitado e tornar-se testemunha da sua Ressurreição. Não é voltar atrás, não é nostalgia. É voltar ao primeiro amor, para receber o fogo que Jesus acendeu no mundo, e levá-lo a todos até aos confins da terra". 

 


Foto: Cathopic

O anúncio da Ressurreição provocou alegria e medo e consiste, igualmente, no envio para a Galileia. "Lá ele vos precede", diz o Anjo. Lá tudo começou e lá tudo se completa.

Para Leonardo Boff, o primeiro relato atribuído a Marcos se encerra com o anúncio, não com a aparição de Cristo - aliás, como o próprio Boff destaca, a Ressurreição "não é vista" em nenhum dos evangelhos, mas é um ato de fé -, pois a ressurreição não é completa, é um processo que ainda está ocorrendo. “Com isso quero dizer: Jesus não se manifestou ainda de forma plena. Todos nós estamos a caminho da Galileia (o termo da história) para então vê-lo face a face. Assim me parece se entende melhor a história humana que apesar da Ressurreição de Cristo na verdade nada mudou, pois campeia a morte e a violência no mundo. Na esperança caminhamos para a Galileia da ressurreição. O próprio Jesus está em processo de ressurreição, pois seus irmãos e irmãs, que somos nós, ainda não ressuscitaram nem o universo que lhe pertence alcançou a sua plenitude. Ele está ainda em fase de cosmogênese. Quando tudo se completar, então, Jesus e sua comunidade terão finalmente ressuscitado. Aqui cabem as palavras de Ernst Bloch: ‘o gênesis está no fim e não no começo’”, afirmou o teólogo em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

De acordo com Boff - e Jürgen Moltmann - a ressurreição não é um momento pós-morte, mas a plenitude da vida, pois a evolução, em constante formação e vida, está em cosmogênese. Assim, para os dois teólogos a “ressurreição é uma revolução na evolução, quero dizer que Ressurreição é uma pequena antecipação do fim bom da criação, como se o termo da evolução se antecipasse e nos mostrasse em pequeno o que nos está preparado. Isso é uma revolução dentro da evolução que ainda continua e segue seu curso”.

O teólogo suíço Hans Küng, que faleceu na última segunda-feira, 06-04-2021, afirma que a ressurreição nem pode ser algo desta vida espaço-temporal, tampouco resumida a uma morte para dentro do Nada. Pelo contrário, a morte encontra o Tudo, o Deus. "A fé dos discípulos é – tal como a morte de Jesus – um acontecimento histórico (apreensível por meios históricos); por sua vez, a ressurreição através de Deus para a vida eterna não é um acontecimento histórico, visível e imaginável, nem biológico. Todavia, trata-se de um acontecimento real na esfera de Deus. Segundo os testemunhos das escrituras a morte e a ressurreição não anulam a identidade da pessoa, mas preservam-na numa forma inimaginável, transformada, numa dimensão completamente diferente", escreve Küng em artigo enviado para a Revista IHU On-Line, publicado há exatos 12 anos da sua morte.

 


"Auferstehung", de Matthias Grünewald, 1512.
Hans Küng em artigo para a Revista IHU On-Line:
"O quadro da ressurreição de Grünewald adverte-nos para o fato de o ressuscitado não ser meramente um outro ser puramente celestial, continua possuindo o corpo e a alma do homem Jesus de Nazaré, o crucificado. E a ressurreição não transforma este homem num fluido indeterminado, fundido com Deus e com o universo. Este homem permanece também na vida de Deus, o homem determinado, inconfundível que foi, porém, sem as limitações espaço-temporais da sua figura mundana! Daí a transição do seu rosto para pura luz em Grünewald".

 

Também por isso, Leonardo Boff, em outra entrevista concedida ao IHU, afirma que a Páscoa "é a festa da alegria, do triunfo da mensagem de Jesus sobre o destino humano, chamado à plenitude de vida que chamamos de Ressurreição".

E continua: "A Ressurreição é mais que a superação da morte ou um fato que mostra aos inimigos de Jesus que ele tinha razão e que Deus estava do lado dele. Isso seria um espírito menor e vingativo. A Ressurreição é muito mais: é a plenificação do ser humano. Somos, como humanos, um projeto infinito. Nada que encontramos neste mundo é adequado ao nosso impulso infinito. A Ressurreição comparece como aquele momento em que a nossa ânsia de infinito se realiza".

 

Aleluia, do oratório The Messiah, de Georg Friedrich Händel.
A obra foi comentada foi Ney Pereira Brasil, na Revista IHU On-Line, Nº 322

 

A ideia do Espírito que sempre cria é presente também na entrevista da filósofa italiana Roberta de Monticelli, concedida junto com Enzo Pace, traduzida ao português e publicada pelo IHU: "Penso no Espírito, o que recria, que revive, que inflama. Eu me pergunto por que não se diz mais na missa, como antigamente: Introibo ad altare Dei, ad Deum qui lætificat iuventutem meam. Eu me aproximo do Deus que desperta, que inflama minha juventude. Acredito que o Espírito seja isto: morte e vida estão aqui, agora, não são o sobreviver após a morte. Eis, então, está o contínuo morrer por dentro, ou ressurgir por dentro, que é poder respirar com um céu sobre a cabeça".

 

“Christ lag in Todesbanden” (“Cristo jaz nos laços da morte”) BWV 4, para o Dia da Páscoa, de Johann Sebastian Bach.

 

O nascer por dentro é ação do Ressuscitado, que impele esperança para toda a humanidade. A psicanalista Michela Marzano, compreende assim a vivência da Páscoa neste momento pandêmico, como destaca em artigo traduzido e publicado pelo IHU: "O Papa também falou ontem, naturalmente. E ele falou da ressurreição e como podemos recomeçar até mesmo dos escombros, nos pediu para abrir nossos corações e superar os preconceitos. Ele falou de esperança, e talvez nunca como hoje precisemos de palavras como estas, mesmo como leigos. Para ressurgir por dentro e começar a ter esperanças novamente".

Outro psicanalista italiano, Massimo Recalcati, também escreveu sobre a Ressurreição de Cristo em meio à pandemia. Para Recalcati a Páscoa é a "vida além da lei": "vida é mais viva do que a morte, é o que dá morte à morte, é o que nos permite sair das trevas do sepulcro e recomeçar. Nem tudo morre completamente. É a linha extramoral que atravessa a palavra de Jesus. Enquanto o juízo moral define a vida justa como aquela que se adaptou à vontade da Lei, e a vida que cai em pecado como aquela que vive contra a Lei. Pois bem, Jesus subverteu esse critério com decisão: a vida justa é a vida viva, é a vida que deseja a vida e que sabe gerar frutos", escreve em artigo traduzido e publicado pelo IHU.

 

“A história da Ressurreição de nosso Jesus Cristo” (Die Auferstehung unsres Herren Jesu Christi), de Heinrich Schütz.

 

Para o frei Gilvander Moreira, a Páscoa é o grande sinal de esperança, pois é a certeza de que a utopia de Jesus segue viva. Em artigo enviado ao IHU, Gilvander afirma: "A Páscoa cristã atesta que Jesus de Nazaré, mesmo sendo inocente e justo, foi condenado pelos podres poderes da religião, da economia e da política à pena de morte, mas ressuscitou e está vivo em nós e em todos/as que lutam pela construção do Reino de Deus a partir do aqui e do agora. O sonho ensinado e testemunhado por Jesus de Nazaré jamais será morto".

A Páscoa pode ser vista também como energia para a resistência, de acordo com Simone Morandini, coordenador da Fundação Lanza. "Este, portanto, é o desafio em que nos encontramos: resistir alguns meses, suportar vivências anômalas, à espera de poder recuperar com segurança aquela vida que agora vê tantas dimensões postas entre parênteses, suspensas. Nunca como neste ano, nesta fase de espera, compreendemos a força da esperança, a sua importância para a vida civil – mas também para as existências pessoais. Eis, então, o que a Páscoa traz como dom neste tempo de pandemia: a força de uma esperança que sabe ir além da morte; a confiança em um futuro possível, mesmo quando todos os caminhos parecem obstruídos", escreve Morandini, em artigo traduzido e publicado pelo IHU.

Para o teólogo Roberto Noval, a esperança se torna mais concreta neste período pandêmico com a vacinação, pois é possível "ser Tomé", isso é, tocar a carne, ir ao encontro, e para isso não se pode perder, nem esquecer, da alegria da Ressurreição.

Jürgen Moltmann chama a Ressurreição de Festa da Alegria Eterna, "a vitória sobre o poder da morte e aparição da vida eterna, de uma vida que nunca passará. A primeira reação por parte dos homens é a da alegria espontânea que irrompe na manhã de Páscoa, quando essa vida divina se descerra e dela se participa". Em artigo traduzido e publicado pelo IHU, o teólogo professor emérito de Tübingen, afirma que "A festa da eterna alegria é preparada pela plenitude da de Deus e pelo júbilo de todas as criaturas. Não percebemos em profundidade tal plenitude quando nos limitamos a falar do ser e querer de Deus. O riso do universo é o êxtase de Deus".

“Sinfonia N. 2 em Dó Menor (“A Sinfonia da Ressurreição”), de Gustav Mahler.

 

São múltiplas as reflexões sobre a Ressurreição, na lista abaixo confira mais alguns dos materiais publicados pelo IHU.

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